Reportagens do Jornal Grande Bahia, Folha de S.Paulo, UOL, Estadão e Metrópoles revelam a suposta existência de uma rede sofisticada de influência entre empresários do agronegócio, lobistas e magistrados, que estaria no centro de investigações conduzidas pela Polícia Federal (PF) e supervisionadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF). O objetivo das apurações é elucidar a suposta prática de venda de decisões judiciais no âmbito do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e em Tribunais de Justiça Estaduais, com base em provas coletadas nas operações Sisamnes e Faroeste.
As investigações apontam para a suposta atuação de empresas como a Fource Consultoria, especializada em disputas empresariais de alto valor, e a Bom Jesus Agropecuária, envolvida em litígios fundiários e negociações de acordos de leniência na Bahia. Ambas são citadas como protagonistas de um suposto esquema de tráfico de influência judicial, estruturado para manipular decisões em instâncias superiores, por meio do acesso privilegiado a magistrados e da intermediação de benefícios financeiros e favores pessoais.
Os inquéritos judiciais em curso, sob relatoria do ministro Cristiano Zanin no STF e do ministro Og Fernandes no STJ, revelam vínculos societários e relações pessoais com figuras-chave do Judiciário nacional. Tais conexões expõem uma estrutura paralela de intermediação judicial que operava à margem dos mecanismos legais, colocando em xeque a integridade das instituições e levantando preocupações sobre a extensão da captura do sistema judicial por interesses privados.
Em documentos obtidos pela PF, respaldados por pareceres do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e do Ministério Público Federal (MPF), constam provas obtidas por meio da análise de aparelhos celulares, contratos empresariais e mensagens interceptadas, que descrevem com clareza a mecânica das negociações ilegais. Os dados indicam que as decisões judiciais, em certos casos, teriam sido moldadas por pressões externas oriundas de lobistas e operadores, à revelia do devido processo legal.
A Fource Consultoria, conforme registros investigativos, teria atuado como operadora informal de processos empresariais complexos, oferecendo suposta capacidade de influência nos bastidores do STJ. Já a Bom Jesus Agropecuária, tradicional empresa do setor agropecuário, aparece como beneficiária de sentenças judiciais potencialmente viciadas, especialmente em ações relacionadas a terras e créditos fiscais no estado da Bahia.
As apurações, ainda em curso, buscam determinar o grau de participação de magistrados, a extensão dos favorecimentos indevidos e os danos institucionais provocados pela eventual atuação de redes paralelas de influência no sistema judicial. A existência de um modus operandi recorrente e articulado entre os setores privado e judicial pode configurar corrupção sistêmica, com impacto direto sobre a segurança jurídica e a confiança pública na Justiça brasileira. Veja a seguir aspectos que esclarecem os fatos citados.
Estrutura societária e conexões suspeitas
A Fource Consultoria, sediada no Mato Grosso, possui como sócios Haroldo Augusto Filho e Valdoir Slapak, ex-diretor financeiro da Bom Jesus Agropecuária. Ambos mantêm vínculos com Nelson Vigolo, controlador da Bom Jesus e um dos principais delatores da Operação Faroeste, indicando uma sobreposição societária que sustenta o elo operacional entre as duas empresas.
A atuação da Fource na recuperação judicial da Bom Jesus Agropecuária — que acumula dívidas superiores a R$ 2,6 bilhões — reforça as suspeitas de que a consultoria funcionaria como peça estratégica na articulação de decisões judiciais favoráveis, ocultando a participação dos reais interessados por trás da estrutura formal.
Relatórios da Polícia Federal apontam que a Fource firmou contratos com advogados e consultores ligados diretamente aos processos em tramitação no STJ e no TJMT. A triangulação entre empresas, operadores jurídicos e magistrados é um dos alvos centrais do inquérito conduzido pelo STF.
A ligação entre a Fource e a Bom Jesus é mais profunda que uma simples parceria comercial. Os sócios se interligam, compartilham assessores jurídicos e respondem por processos semelhantes, inclusive em ações de recuperação judicial e disputas fundiárias.
Operação Sisamnes e a infiltração no STJ
A deflagração da Operação Sisamnes, em novembro de 2024, expôs um sofisticado esquema de compra e venda de sentenças no STJ. As apurações começaram após o assassinato do advogado Roberto Zampieri, executado em circunstâncias suspeitas. A análise de seus aparelhos eletrônicos revelou conversas comprometedores com operadores do Direito e servidores de tribunais.
Mensagens interceptadas revelam o papel de articuladores do pagamento de vantagens indevidas, incluindo depósitos de até R$ 200 mil ao filho do desembargador Sebastião Moraes Filho, então afastado do Tribunal de Justiça do Mato Grosso.
Nomes de ministros do STJ surgem nos diálogos: Nancy Andrighi, Isabel Gallotti, Marco Buzzi, Moura Ribeiro e Og Fernandes. Embora não haja comprovação de envolvimento direto dos magistrados, servidores de seus gabinetes foram afastados por suspeita de participação no manuseio indevido de minutas de acórdãos.
O assassinato de Zampieri e as conexões do crime
O assassinato de Roberto Zampieri, em setembro de 2024, é um dos pontos de convergência entre os esquemas investigados. Advogado de grandes empresários, Zampieri atuava como elo entre contratantes e operadores do Judiciário, inclusive na intermediação de pareceres e decisões. A suspeita é de que Zampieri foi executado por saber demais ou por tentar se desvencilhar do esquema.
Conversas encontradas em seus dispositivos apontam que ele operava com base em garantias oferecidas por magistrados e intermediários, e recebia antecipadamente os textos das decisões que seriam proferidas. Em alguns casos, redigia ele próprio as minutas.
O papel dos gabinetes e servidores intermediários
A operação revelou que servidores dos gabinetes dos ministros citados exerciam papel central na engrenagem do esquema. Márcio Toledo, ex-assessor do ministro Moura Ribeiro, é acusado de vazar decisões antes da publicação e de ajustar minutas conforme interesses previamente negociados.
Depoimentos e perícias indicam que os acessos indevidos ao sistema do STJ ocorreram com logins funcionais, apontando para participação ativa de membros dos gabinetes. As investigações também detectaram acessos feitos fora do horário de expediente, em feriados e fins de semana.
Supostamente, a Fource aparece nessas tratativas como patrocinadora indireta dos interesses empresariais, com atuação disfarçada de assessoria jurídica. Os pagamentos eram mascarados como consultorias técnicas, com contratos milionários e cláusulas de êxito judicial.
A Operação Faroeste e os métodos replicados
A Operação Faroeste, iniciada em 2019, revelou o funcionamento de uma organização criminosa no Tribunal de Justiça da Bahia (TJBA), com foco na grilagem de terras no oeste baiano. A Bom Jesus Agropecuária foi beneficiária direta de diversas sentenças ilegais em disputas fundiárias.
A colaboração premiada de Nelson Vigolo e do advogado Vanderlei Chilante trouxe à tona práticas semelhantes às identificadas na Sisamnes: antecipação de minutas, inserção de familiares em gabinetes e uso de contratos de fachada.
A atuação de Chilante se estendeu também ao Mato Grosso, onde representava figuras como Aníbal Laurindo. As investigações apontam para um mesmo padrão de comportamento, replicado entre tribunais distintos por meio de uma rede coordenada.
Aeronaves, eventos jurídicos e relações institucionais
Um dos aspectos emblemáticos do caso envolve o uso de aeronaves particulares fornecidas pela Fource para transporte de ministros e autoridades em eventos jurídicos. O ministro João Otávio de Noronha utilizou uma dessas aeronaves em evento da OAB-MT, patrocinado pela empresa.
Embora Noronha tenha se declarado suspeito posteriormente e alegado desconhecimento da origem da aeronave, o episódio gerou questionamentos sobre a relação entre a Fource e o meio jurídico. O patrocínio de eventos também figura como estratégia para ampliar influência institucional.
Outro ponto envolve a advogada Catarina Buzzi, filha do ministro Marco Buzzi. Conversas dela com Haroldo Augusto Filho e Zampieri sugerem articulações para influenciar julgamentos de interesse da Fource. Buzzi concedeu liminar favorável à empresa em decisão posterior.
O inquérito sob relatoria de Cristiano Zanin
O ministro Cristiano Zanin, relator do inquérito no STF, centralizou a tramitação das ações e autorizou medidas como prisões, buscas e afastamentos. A investigação foi desmembrada em núcleos temáticos, com foco nos vínculos societários, corrupção ativa e passiva, e tráfico de influência.
Entre as medidas já decretadas estão:
- Prisão preventiva de Andreson Gonçalves, convertida para domiciliar com tornozeleira;
- Afastamento de servidores dos gabinetes investigados;
- Bloqueio de bens de Haroldo Augusto Filho e Valdoir Slapak;
- Monitoramento eletrônico do desembargador Sebastião Moraes Filho.
Zanin também determinou a remessa de parte das provas ao CNJ, que instaurou sindicância disciplinar. A PGR, por sua vez, estuda medidas contra magistrados com foro por prerrogativa de função, diante de evidências de enriquecimento ilícito e favorecimento indevido.
Notas de defesa e silêncio estratégico
A Fource Consultoria e a Bom Jesus Agropecuária negam qualquer prática ilegal. Em nota, a Bom Jesus declarou ser “vítima de extorsão de operadores jurídicos” e que colabora com a Justiça desde o início da Operação Faroeste.
Ministros mencionados nos diálogos não se pronunciaram oficialmente, à exceção da ministra Nancy Andrighi, que repudiou os fatos e afirmou ter colocado seu gabinete à disposição das investigações. As defesas alegam ausência de envolvimento pessoal e acusam tentativas de criminalizar relações institucionais.
Nos bastidores, cresce a pressão para que o STF avance nas apurações, inclusive sobre a eventual responsabilidade penal de ministros, algo ainda sem precedentes na Corte. A blindagem institucional, porém, continua sendo um dos principais obstáculos à responsabilização.
Implicações institucionais
A convergência entre as operações Sisamnes e Faroeste revela um padrão alarmante de corrupção judicial sistêmica, com ramificações em tribunais superiores e estaduais. A atuação coordenada de empresários, advogados e servidores em torno de decisões vendidas indica uma crise de integridade institucional.
O uso de empresas como a Fource para disfarçar interesses privados, o envolvimento de magistrados de instâncias superiores e a reprodução de esquemas em diferentes unidades da federação são indícios de que o problema extrapola casos pontuais e exige resposta estrutural.
A investigação conduzida por Zanin marca um ponto de inflexão. Se conduzida com firmeza, pode abrir caminho para a responsabilização de autoridades até então intocáveis. Caso contrário, a percepção de impunidade consolidará o descrédito do Judiciário junto à sociedade.
Tabela de Padrões Societários e Envolvimento
| Elemento | Detalhamento |
|---|---|
| Sociedade empresarial | Valdoir Slapak e Haroldo Filho são sócios da Fource e atuaram na recuperação judicial da Bom Jesus Agropecuária. |
| Atuação em múltiplos estados | As empresas operaram na Bahia, Mato Grosso e Tocantins, com disputas fundiárias e alta exposição política. |
| Ligação com operadores de influência | Relações com advogados (Zampieri, Chilante) e lobistas (Andreson Gonçalves) que atuavam para influenciar decisões judiciais. |
| Fluxos financeiros suspeitos | Pagamentos expressivos a intermediários e familiares de magistrados, fornecimento de benefícios (joias, veículos, eventos). |
| Busca por decisões judiciais estratégicas | Participação direta em liminares favoráveis (ex.: liminar do ministro Buzzi, anulando instâncias anteriores em 2022). |
Linha do Tempo das Operações Faroeste e Sisamnes (2013–2025)
Corrupção no Judiciário: venda de sentenças no TJBA, TJMT e STJ
2013–2018 | Raízes do esquema no TJBA
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2013: Início de decisões controversas no Tribunal de Justiça da Bahia (TJBA) envolvendo disputas fundiárias no oeste baiano, favorecendo grupos como a Bom Jesus Agropecuária.
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2015–2018: A Polícia Federal detecta movimentações suspeitas envolvendo advogados, juízes e desembargadores, especialmente decisões liminares com forte impacto econômico.
14/11/2019 | Deflagração da 1ª fase da Operação Faroeste
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A PF realiza a 1ª fase da Operação Faroeste, com autorização do STJ.
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São cumpridos mandados de busca e apreensão no TJBA, revelando indícios de venda de decisões sobre terras griladas.
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O esquema envolveria R$ 1 bilhão em propriedades rurais e o pagamento de propinas milionárias.
2020 | Prisões e provas materiais
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03/03/2020: Sandra Inês Rusciolelli, desembargadora do TJBA, é presa com R$ 250 mil em espécie no apartamento.
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A PF documenta contratos fictícios e transferências financeiras ligando magistrados a empresas do agronegócio.
2021 | Morte de delator e conexões com o STJ
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Junho/2021: Roberto Zampieri, sócio da Bom Jesus Agropecuária, é assassinado. Ele teria informações sensíveis sobre acordos com magistrados.
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Relatórios da PF apontam que operadores da empresa mantinham contato com gabinetes de ministros do STJ, iniciando a trilha que levaria à Operação Sisamnes.
2022–2023 | Avanço das delações e CNJ intervém
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O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) afasta mais de 6 desembargadores do TJBA por envolvimento no esquema.
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A delação de Sandra Inês e de seu filho Vasco Rusciolelli confirma a venda de sentenças por valores entre R$ 200 mil e R$ 4 milhões.
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Descobre-se o envolvimento de empresários da Fource Consultoria, que teriam atuado como intermediários do esquema também no STJ.
20/02/2024 | Denúncia formal contra desembargadora do TJBA
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O STJ aceita denúncia contra a desembargadora do TJBA, acusada de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
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Ela é apontada como beneficiária de R$ 950 mil em propinas e por tentar obstruir as investigações.
2024 | Convergência com o STJ: início da Operação Sisamnes
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A Operação Sisamnes é iniciada com autorização do ministro Cristiano Zanin no STF.
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O foco recai sobre ministros do STJ suspeitos de terem vendido decisões em favor da Bom Jesus Agropecuária.
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Fource Consultoria é citada como empresa central no esquema, atuando com Haroldo Augusto Filho e Valdoir Slapak.
Março–Abril de 2025 | Mandados e apreensões no STJ
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A PF cumpre mandados de busca e apreensão em gabinetes e residências de ministros do STJ.
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A investigação envolve os nomes de João Otávio Noronha, Marco Buzzi, Nancy Andrighi e assessores próximos.
Maio de 2025 | Revelações sobre contratos e offshores
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O Estadão revela que empresas laranjas ligadas à Fource e à Bom Jesus repassaram valores ocultos via paraísos fiscais a operadores jurídicos ligados a decisões do STJ.
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Os relatórios apontam proximidade familiar de ministros com os intermediadores.
Julho–Agosto de 2025 | Convergência definitiva
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A PF integra os dados das operações Faroeste (TJBA), conexões no TJMT e a Sisamnes (STJ).
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Cristiano Zanin concentra a relatoria dos casos no STF, sob forte sigilo.
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Fontes indicam que a PGR prepara denúncia formal contra ao menos três ministros do STJ e dois empresários da Fource.
06/08/2025 | Reportagens revelam convergência das operações
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Matérias do Jornal Grande Bahia, Metrópoles, Folha, UOL e Estadão revelam em profundidade o modelo institucionalizado de corrupção, demonstrando como os mesmos personagens e empresas atuaram em vários tribunais para capturar decisões judiciais.
Supostos objetivos ilícitos
As investigações das operações Faroeste e Sisamnes revelam um esquema interligado de corrupção judicial, em que Fource Consultoria e Bom Jesus Agropecuária compartilham sócios e supostos objetivos ilícitos. Com decisões judiciais manipuladas, favorecimentos em disputas de terras e conexões com magistrados, os casos apontam para uma rede empresarial estruturada para influenciar o Judiciário. Os processos estão em curso no STJ e STF sob relatoria de Cristiano Zanin.
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