Na tarde desta quinta-feira (25/09/2025), em Brasília, o empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, mais conhecido como “Careca do INSS”, declarou-se inocente diante da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS e se comprometeu a entregar 18 milhões de páginas de documentos de suas empresas. Durante o depoimento, afirmou que sua atuação foi legítima e que o apelido pelo qual ficou conhecido é fruto de uma “narrativa construída”.
Segundo o empresário, o serviço prestado às associações de aposentados foi realizado de forma justa e legal. Ele destacou ainda que, mesmo amparado por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que lhe garantia o direito ao silêncio, escolheu falar “de forma transparente”.
Defesa e questionamentos sobre contratos no INSS
Antunes apontou falhas no sistema previdenciário, mas reconheceu avanços recentes, como a exigência de biometria para aposentados e pensionistas desde abril de 2024. Em sua fala, rejeitou acusações de envolvimento em fraudes nos descontos de benefícios, negou a posse de carros de luxo e disse que não mantém vínculos com parlamentares ou integrantes do governo.
O empresário também negou participação em negócios de alto valor, como a suposta transação de imóveis de R$ 350 milhões, classificando tais acusações como “fake news”. Ele admitiu, entretanto, ter tido procurações específicas para atuar em nome de associações, como a Ambec (Associação dos Aposentados Mutualistas para Benefícios Coletivos), mas rejeitou a tese de que isso configuraria fraude.
Divergências sobre doações e vínculos políticos
Questionado pelos parlamentares, o “Careca do INSS” disse não atuar como procurador jurídico de associações ligadas ao INSS e negou envolvimento com a venda de dados. Reconheceu apenas uma doação simbólica de R$ 1 ao ex-presidente Jair Bolsonaro, negando outros repasses a políticos.
O empresário também rejeitou acusações de que tivesse recebido informações privilegiadas antes da operação da Polícia Federal que resultou em sua prisão.
Críticas de senadores e deputados à atuação do empresário
Acusações de “roubalheira” no INSS
O senador Sergio Moro (União-PR) acusou Antunes de minimizar o esquema de corrupção, afirmando que se trata do “maior roubo do INSS”, com milhares de aposentados prejudicados. Já o senador Fabiano Contarato (PT-ES) classificou o caso como uma “roubalheira contra a população mais pobre” e levantou suspeitas sobre procurações que teriam permitido o aumento exponencial das receitas da Ambec após acordos com o INSS.
Supostos crimes e lavagem de dinheiro
O vice-presidente da CPMI, deputado Duarte Jr. (PSB-MA), disse que o empresário confessou indiretamente crimes como monopólio abusivo, cartel e lavagem de dinheiro, além de integrar possível organização criminosa. Para ele, não é admissível transferir toda a responsabilidade às associações.
Disputa política entre base governista e oposição
Durante o depoimento, o caso também foi explorado politicamente. Deputados da base governista, como Paulo Pimenta (PT-RS) e Rogério Correia (PT-MG), responsabilizaram o ex-presidente Jair Bolsonaro por omissão diante das denúncias, afirmando que ele tinha conhecimento das irregularidades desde 2019.
Na oposição, senadores como Rogério Marinho (PL-RN) e Marcio Bittar (PL-AC) acusaram o governo Lula de prevaricação e afrouxamento de regras, sustentando que o aumento das irregularidades ocorreu em sua gestão. Marinho chegou a afirmar que apenas Bolsonaro teria atuado para conter fraudes no INSS.
Recusa inicial e duração da CPMI
Pela manhã, Antunes se recusou a responder às mais de 150 perguntas feitas em 50 minutos pelo relator Alfredo Gaspar (União-AL). Mesmo assim, Gaspar seguiu com os questionamentos, enquanto o depoente reiterava que as acusações contra ele eram baseadas em “mentira, inveja e calúnia”.
Instalada em agosto de 2025, a CPMI do INSS é presidida pelo senador Carlos Viana (Podemos-MG) e conta com 16 senadores e 16 deputados titulares. Seu prazo de funcionamento se estende até março de 2026.
Fragilidades e fraudes
O depoimento do “Careca do INSS” expõe um embate entre versões individuais, acusações de fraudes milionárias e disputas políticas. Enquanto o empresário insiste na inocência e se apresenta como vítima de uma narrativa, parlamentares apontam evidências de irregularidades graves. O caso evidencia não apenas fragilidades no sistema previdenciário, mas também a instrumentalização política da CPMI, transformando um inquérito legislativo em arena de confronto entre governo e oposição.








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