Reportagem de Natália Portinari, publicada no UOL nesta segunda-feira (15/09/2025), revela que a Polícia Federal (PF) encaminhou ao Supremo Tribunal Federal (STF) indícios de participação do deputado federal Elmar Nascimento (União Brasil-BA) em um esquema de fraudes em licitações, superfaturamento e desvio de verbas públicas. As apurações fazem parte da Operação Overclean, deflagrada para investigar contratos de limpeza urbana e pavimentação em cidades da Bahia. A defesa do parlamentar nega qualquer envolvimento e afirma que não há provas consistentes.
Contexto da Operação Overclean
A Operação Overclean foi deflagrada para apurar irregularidades em contratos municipais de pavimentação e limpeza pública, sobretudo em Campo Formoso (BA), administrada por Elmo Nascimento (União Brasil), irmão do deputado.
De acordo com a PF, os contratos sob suspeita foram firmados a partir de emendas parlamentares direcionadas por Elmar. As investigações apontam que empresas ligadas aos empresários Alex e Fábio Parente venceram processos licitatórios que somam R$ 51 milhões, levantando suspeitas de superfaturamento e manipulação.
Além de Campo Formoso, outros municípios baianos estariam na rota dos contratos analisados, com indícios de um modus operandi repetido em licitações públicas, envolvendo pregoeiros, secretários municipais e empresários em conluio.
Indícios de envolvimento
A PF relacionou diferentes elementos que, segundo os investigadores, conectam Elmar Nascimento ao esquema:
- Planilhas apreendidas com o empresário Alex Parente registraram repasses de R$ 493 mil a Amaury Albuquerque Nascimento, primo e assessor do deputado.
- A compra de um apartamento por Elmar da filha do empresário Marcos Moura, conhecido como “rei do lixo”, teria sido feita por valor abaixo do mercado, levantando suspeitas de favorecimento.
- Mensagens interceptadas revelam encontros entre o parlamentar e empresários investigados em Brasília, em 28 de novembro de 2022, dias antes da liberação de emendas para obras em Campo Formoso.
- Conversas mostram que Francisco Nascimento, também primo do deputado e ex-secretário-executivo da prefeitura, manipulava licitações em benefício de empresas escolhidas.
Um relatório do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) ainda apontou movimentações financeiras atípicas de Amaury Nascimento, com operações imobiliárias incompatíveis com sua renda declarada.
Decisões judiciais e posição da PGR
Em julho de 2025, o ministro Nunes Marques (STF) rejeitou pedido da PF para realizar buscas na residência do deputado, bloquear bens e afastar o prefeito Elmo Nascimento do cargo.
A Procuradoria-Geral da República (PGR) avaliou que os elementos apresentados contra Elmar eram circunstanciais, sem força suficiente para justificar medidas de impacto.
Foram autorizados, entretanto, o afastamento de outros investigados, entre eles o então presidente da Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba), estatal envolvida na liberação de recursos destinados a obras municipais.
Emendas e orçamento secreto
As investigações da PF destacam ainda o papel das emendas de relator, conhecidas como “orçamento secreto”, na viabilização dos contratos.
Em junho de 2022, Elmar solicitou a destinação de R$ 40 milhões para Campo Formoso. O valor foi liberado em dezembro pelo Ministério do Desenvolvimento Regional e aplicado em convênios de pavimentação junto à Codevasf.
Segundo a PF, antes mesmo da realização da primeira licitação, empresários beneficiados se reuniram com o prefeito Elmo Nascimento na sede da Codevasf em Juazeiro (BA), sugerindo um ajuste prévio do valor das obras. Mensagens mostram que o deputado teria conhecimento desses encontros, hipótese negada por sua defesa.
Relações políticas e empresariais
Um dos elementos levantados é a proximidade entre Elmar e empresários investigados.
Conversas e registros de eventos apontam que ele manteve contatos pessoais com Alex Parente, inclusive em festas privadas, além de ter participado de inaugurações de obras da empresa em Campo Formoso.
Há também menções à presença do senador Davi Alcolumbre (União-AP), atual presidente do Senado, em reuniões com os empresários e Elmar, o que reforça a dimensão política da investigação.
De acordo com a PF, esses encontros indicariam que o deputado atuou como articulador político para viabilizar os contratos, utilizando emendas e influência institucional.
Defesa do parlamentar
A defesa de Elmar Nascimento sustenta que:
- os contatos com empresários fazem parte da atividade parlamentar regular;
- não há indícios consistentes que vinculem o deputado a práticas ilícitas;
- os relatórios da PF apresentam interpretações distorcidas de encontros políticos e inaugurações de obras públicas.
Os advogados afirmam que a PGR rejeitou pedidos de diligências contra Elmar, reforçando que as acusações seriam frágeis e baseadas em “vazamentos seletivos”.
Repercussão e implicações políticas
O caso gera impactos diretos sobre a imagem de Elmar Nascimento, que ocupa posição de destaque no União Brasil e mantém interlocução com lideranças do Congresso e do Executivo.
O envolvimento de familiares, como o prefeito Elmo e o primo Francisco, amplia a dimensão do caso, sugerindo a atuação de uma rede de parentesco em cargos estratégicos municipais e assessorias.
Além disso, a investigação lança luz sobre o uso recorrente das emendas parlamentares como instrumento de poder político e de eventuais desvios. A associação com empresários apelidados de “barões do lixo” e suspeitas de repasses ilícitos aumenta a pressão sobre o parlamentar e o partido em um momento de intensa disputa política no país.
Vulnerabilidade estrutural
A Operação Overclean expõe, com nitidez, a vulnerabilidade estrutural do sistema de emendas parlamentares, sobretudo quando a destinação dos recursos depende da influência direta de deputados e da fragilidade financeira de prefeituras de médio porte. Esse desequilíbrio cria um ambiente fértil para práticas de aparelhamento político e para o uso de convênios como moeda de troca.
O encadeamento da investigação em cinco fases — com bloqueios patrimoniais, afastamentos de agentes públicos e rastreamento de valores por offshores — revela um modus operandi sofisticado, que combina:
-
aparelhamento local de prefeituras;
-
intermediação política de parlamentares e aliados;
-
engenharia financeira voltada à ocultação de patrimônio e lavagem de recursos.
As citações ao deputado Elmar Nascimento (União Brasil), seguidas de medidas contra familiares e ex-dirigentes da Codevasf, colocam em xeque a governança institucional de convênios e os mecanismos de compliance no uso de emendas. Embora a PGR tenha considerado insuficientes os indícios para medidas cautelares diretas contra o parlamentar, a PF insiste em destacar vínculos pessoais e empresariais, sinalizando que a apuração pode se desdobrar em novas fases.
Esse cenário expõe a dependência estrutural dos municípios em relação às emendas federais. Tal dependência, em vez de promover desenvolvimento equilibrado, reforça relações de subordinação política e econômica, abrindo margem para desvios e corrupção. O risco maior é que o acesso privilegiado a recursos públicos seja convertido em capital político ou em ganhos particulares.
A Overclean, portanto, não se limita a um caso criminal isolado, mas ilumina um problema sistêmico do modelo orçamentário brasileiro. A falta de transparência ativa, a baixa rastreabilidade dos recursos e a assimetria entre parlamentares e gestores locais indicam que, sem reformas profundas, a reincidência é quase inevitável. A solução passa por instrumentos de fiscalização mais rigorosos, sistemas de acompanhamento em tempo real e a responsabilização efetiva de agentes públicos e privados.
Operação Overclean: o que já se sabe sobre as citações ao deputado Elmar Nascimento e os avanços da investigação
Operação Overclean apura fraudes a licitações, desvio de recursos e lavagem de dinheiro envolvendo contratos municipais e verbas de emendas parlamentares. Em diferentes etapas, aparecem citações ao deputado federal Elmar Nascimento (União Brasil-BA), além de medidas contra familiares e um ex-presidente da Codevasf na 5ª fase. As decisões mais recentes reforçam o alcance do caso, que chegou ao STF em razão de autoridades com foro.
Visão geral do caso
A Overclean foi deflagrada em 10/12/2024, com foco em contratos de limpeza urbana e pavimentação e uso de emendas de relator. Ao longo de 2025, avançou com novas fases na Bahia e elementos sobre lavagem via offshores. O inquérito registrou citações ao deputado Elmar Nascimento, e a investigação alcançou familiares do parlamentar e agentes públicos ligados à Codevasf.
Linha do tempo da Overclean e menções a Elmar Nascimento
2024
- 10/12/2024 — Fase 1 (deflagração): PF lança a operação; foco em esquema bilionário com emendas e convênios. Conteúdo inicial descreve apreensões e vínculos com licitações de limpeza e obras.
- 17/12/2024 — Desdobramentos políticos: Reportagens destacam o papel de Marcos Moura (“rei do lixo”) e tratativas políticas relacionadas ao núcleo empresarial investigado; cobertura indica articulações relevantes ao caso.
2025
- 03/01–04/01/2025 — Estrutura do esquema: Publicações explicam três núcleos (central, político e operacional), citando DNOCS e movimentações bilionárias desde 2023.
- 03/02/2025 — Elmar na Mesa da Câmara: Elmar é eleito 2º vice-presidente da Câmara; matéria registra que ele é citado na Overclean em meio ao avanço investigativo.
- 17/04/2025 — Aviação executiva e ocultação: Depoimento de piloto aponta tentativa do “rei do lixo” de se desvincular de jatinho apreendido; reforça a face financeira do esquema.
- 19/04/2025 — Offshores em paraíso fiscal: Investigação revela offshores usadas para lavagem de recursos de emendas parlamentares.
- 11/06/2025 — Relações financeiras paralelas: Reportagem conecta empresário investigado a empréstimos a parlamentar baiano (contexto do ecossistema político-empresarial mapeado na Overclean).
- 13/06/2025 — Pressões sobre emendas: Gravação da PF expõe preocupação de dirigente do DNOCS com bloqueio de emendas; texto menciona o caso no STF após citações a Elmar.
- 27/06/2025 — Fase 4 e medidas judiciais: PF, CGU e Receita deflagram 4ª fase; STF afasta prefeitos e assessor, e atos alcançam Campo Formoso (BA). A etapa reforça o foco em emendas e licitações.
- 17/07/2025 — Fase 5 (marco sobre Elmar e entorno): Ex-presidente da Codevasf e três familiares de Elmar Nascimento viram alvos; PF cumpre mandados e anuncia bloqueio de R$ 85,7 milhões. Decisão tramita no STF.
Onde entram as citações ao deputado
- Citada em contexto de liberação de emendas e contratos sob investigação (limpeza urbana e pavimentação), com destaque para Campo Formoso (BA) e convênios da Codevasf.
- Cobertura jornalística registra a condição de Elmar como citado no inquérito ao mesmo tempo em que assume cargo na Mesa da Câmara.
- Fase 5 alcança familiares do parlamentar e ex-dirigente da Codevasf, o que aproxima o entorno político e administrativo do deputado do centro da investigação.
Contexto institucional e rotas do dinheiro (síntese)
- Emendas de relator e convênios com estatais federais (como a Codevasf) aparecem como vetores de recursos; o caso evolui com bloqueios e afastamentos.
- A PF mapeia offshores e ativos de alto valor (ex.: aeronave), indicando lavagem e ocultação de patrimônio.










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