Em diferentes regiões do Brasil, benzedeiros, raizeiros e cipozeiros mantêm vivas práticas de cuidado que unem espiritualidade, natureza e identidade cultural. Esses saberes, transmitidos de geração em geração, resistem ao tempo, mas hoje enfrentam ameaças como o desmatamento, a desvalorização social e a falta de reconhecimento institucional.
O Ministério Público Federal (MPF) tem dado visibilidade a essas comunidades por meio de uma série de reportagens especiais, destacando a relevância de práticas que representam uma das expressões mais genuínas da diversidade cultural brasileira.
Saberes que curam e fortalecem vínculos
Benzedeiros e a força da espiritualidade
Os benzedeiros têm papel central no cuidado espiritual, evocando rezas que buscam aliviar doenças e males do cotidiano.
Raizeiros e a medicina das plantas
Os raizeiros preservam o uso de plantas medicinais como forma de cura e prevenção de enfermidades, transformando ervas em xaropes, óleos, pomadas e garrafadas.
Cipozeiros e a arte da natureza
Os cipozeiros, por sua vez, dominam o manejo de cipós, utilizados na construção, no artesanato e em práticas espirituais, reforçando a conexão entre tradição e meio ambiente.
Resistência no Cerrado e no Sul do país
Em Mineiros (GO), Lucely Morais Pio, benzedeira e raizeira da Comunidade Quilombola do Cedro, transformou saberes em medicamentos fitoterápicos, mas denuncia a falta de regulamentação. “A gente pode doar os remédios, mas não pode vender. O fiscal não conhece o que é nosso, não reconhece a prática”, afirma.
Na comunidade de Garuva (SC), artesãs como Margarida dos Santos e Daniela Fernandes produzem objetos a partir do cipó imbé, conciliando tradição, respeito ambiental e geração de renda. Contudo, o ritmo acelerado da vida moderna e a ausência de políticas públicas ameaçam a continuidade dessa prática.
Racismo religioso e expulsão de territórios
Em Rondonópolis (MT), o raizeiro Francisco Dias (Pai Francisco) relata a exclusão das comunidades de seus territórios sagrados e a perseguição cultural: “Estão empurrando as comunidades para as periferias, longe das fontes sagradas. Isso é apagamento”.
A denúncia se soma à crítica contra a intolerância religiosa e o racismo cultural, fatores que desestimulam jovens e dificultam a transmissão intergeracional dos saberes.
O papel do MPF e os desafios jurídicos
De acordo com o procurador da República Sadi Flores Machado, o maior desafio é a invisibilidade institucional e normativa. Ele destaca a importância da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que garante a consulta prévia, livre e informada às comunidades tradicionais sempre que decisões do Estado possam impactá-las.
O MPF tem atuado com ações judiciais e extrajudiciais. Entre os casos está a defesa de comunidades cipozeiras no Pará, onde foi requisitada perícia antropológica para reconhecer a tradicionalidade do grupo.
Desvalorização social e pressão do mercado
A reportagem expõe um dilema central: a cultura tradicional resiste, mas sem respaldo institucional seu futuro permanece incerto. Apesar da relevância histórica e simbólica dos benzedeiros, raizeiros e cipozeiros, suas práticas ainda são vistas como informais ou secundárias. A ausência de regulamentação, a desvalorização social e a pressão do mercado sobre os territórios agravam o risco de apagamento. Preservar esses saberes significa também garantir soberania cultural, biodiversidade e memória coletiva.
*Com informações do MPF.











Deixe um comentário