A Polícia Federal (PF) identificou que instituições bancárias, fundos de investimento e fintechs desempenharam papéis estruturais em um complexo esquema de lavagem de dinheiro e sonegação fiscal que movimentou dezenas de bilhões de reais em diferentes setores da economia. As apurações, conduzidas em paralelo nas operações Carbono Oculto e Bank Probe, apontam, neste mês de outubro de 2025, para a existência de uma engrenagem financeira sofisticada, que teria transformado o sistema bancário em instrumento ativo da criminalidade econômica.
A engrenagem financeira do crime organizado
As duas operações — Carbono Oculto, centrada no setor de combustíveis, e Bank Probe, voltada para transações financeiras de alto valor — compartilham o mesmo núcleo de irregularidades: empresas de fachada, contas laranjas e transferências internacionais disfarçadas de investimentos legítimos.
Na Operação Carbono Oculto, deflagrada em 28 de agosto de 2025, a PF, a Receita Federal e o Ministério Público de São Paulo identificaram uma rede de mais de 1.000 postos de combustíveis e 40 fundos de investimento usados para ocultar cerca de R$ 52 bilhões em recursos ilícitos entre 2020 e 2024. Parte dos valores foi movimentada por fintechs e bancos digitais que serviram como “bancos paralelos”, mascarando a origem de capital desviado.
Já na Operação Bank Probe, que complementa as investigações, os agentes federais detectaram a participação direta de instituições financeiras tradicionais, que não executaram os protocolos de compliance exigidos pela legislação contra lavagem de dinheiro. Segundo relatório da PF, os bancos deixaram de agir diante de alertas de transações atípicas, permitindo que bilhões ingressassem no sistema formal sem a devida checagem.
As manobras usadas para burlar o sistema
As investigações mostram que o esquema se sustentava em múltiplas estratégias:
- Movimentações fracionadas: valores altos eram divididos em pequenas transações para escapar dos alertas automáticos.
- Constituição de “laranjas” e empresas-fantasma: contas abertas em nome de pessoas de baixa renda movimentavam somas milionárias.
- Uso de wire transfers internacionais: recursos eram enviados ao exterior, “lavados” por meio de offshores e reintegrados ao país com aparência de investimentos lícitos.
- Fundos de investimento e fintechs: as carteiras atuavam como ponte entre capital ilícito e mercado financeiro regulado, aproveitando-se de brechas legais e deficiências de fiscalização.
A PF sustenta que tais mecanismos demonstram omissão institucional e conivência passiva, com parte do sistema bancário operando como vetor de legitimação da economia criminosa. Em muitos casos, relatórios do Coaf já apontavam movimentações suspeitas, mas nenhuma ação efetiva foi adotada pelos bancos.
A conexão com o setor de combustíveis
A Operação Carbono Oculto revelou que o esquema de lavagem se alimentava de crimes-fonte como adulteração de combustíveis, fraude tributária e evasão fiscal em larga escala.
As empresas envolvidas importavam insumos — como metanol — para reduzir custos de produção e aumentar margens ilegais. O combustível adulterado era vendido com notas fiscais frias, e o lucro “lavado” através de fundos, fintechs e bancos com controles frouxos.
O impacto fiscal estimado supera R$ 8,6 bilhões em tributos sonegados, segundo a Receita Federal. Os valores foram reinseridos na economia por meio de investimentos imobiliários, créditos de carbono simulados, operações de factoring e fundos de investimento estruturados.
O modelo revelou uma simbiose entre setores produtivos e o sistema financeiro, em que o dinheiro ilícito circulava entre contas legítimas sem barreiras significativas.
Falhas de regulação e omissões institucionais
Tanto na Carbono Oculto quanto na Bank Probe, a PF identificou deficiências na atuação do Banco Central (BC), do Coaf e das próprias instituições privadas. Apesar dos avanços em tecnologia de rastreamento, o sistema ainda depende fortemente da autodeclaração dos bancos, o que abre espaço para erros de monitoramento ou omissões deliberadas.
Relatórios de inteligência financeira mostraram que diversas operações tinham sinais claros de irregularidade — como volume incompatível com o perfil do cliente —, mas não foram comunicadas ao Coaf em tempo hábil. Essa falha permitiu que os valores circulassem por anos sem bloqueio ou investigação imediata.
O Banco Central informou que apura administrativamente as instituições envolvidas e poderá aplicar multas milionárias e cassação de autorizações de funcionamento. As associações do setor financeiro, por sua vez, emitiram notas reforçando o “compromisso com o combate à lavagem de dinheiro” e afirmando que são “vítimas de fraudes altamente sofisticadas”.
Implicações jurídicas e econômicas
As descobertas expõem um cenário de vulnerabilidade sistêmica da economia formal brasileira. Especialistas em direito econômico avaliam que, se confirmada a tese da PF, haverá um redesenho regulatório com foco em:
- Revisão dos mecanismos de due diligence bancária;
- Maior integração entre BC, Coaf e Receita Federal;
- Responsabilização civil e criminal de executivos e instituições;
- Ampliação da cooperação internacional para rastreamento de ativos.
O impacto imediato recai sobre a confiança do mercado financeiro, especialmente após o envolvimento de fundos com sede na Avenida Faria Lima, em São Paulo — o epicentro do sistema de capitais brasileiro. A Receita e a PF já bloqueiam imóveis, aeronaves e participações societárias de empresas suspeitas.
O elo com a “economia paralela” e o crime organizado
A Carbono Oculto também revelou conexões com organizações criminosas estruturadas, como o Primeiro Comando da Capital (PCC), que usavam redes de postos de combustíveis para lavar lucros do tráfico de drogas.
A penetração dessas redes no sistema financeiro formal indica que o crime organizado abandonou métodos rudimentares de ocultação e passou a operar com sofisticação corporativa, utilizando consultorias, auditores e gestores financeiros como fachada de legalidade.
Segundo o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, o país “não tem dúvidas de que a operação inaugurou um novo patamar de combate ao crime econômico organizado”.
Entre a omissão e a captura institucional
A combinação das operações Carbono Oculto e Bank Probe evidencia que a lavagem de dinheiro no Brasil atingiu um grau de institucionalização preocupante. O que antes era tratado como crime de marginais isolados, hoje se configura como crime sistêmico, com raízes em setores legais e sustentação em instituições de prestígio.
Essa estrutura revela dois problemas centrais:
- A leniência regulatória, que permite que o sistema financeiro funcione sem auditoria pública efetiva;
- A captura institucional, onde o interesse econômico se sobrepõe ao dever de fiscalização.
Enquanto a PF e a Receita Federal avançam, a ausência de transparência judicial, com sigilo sobre os bancos e fundos investigados, levanta questionamentos sobre protecionismo corporativo. O interesse público, em casos dessa magnitude, exige publicidade e responsabilização, sob pena de o país consolidar uma cleptocracia financeira institucionalizada.
O desafio agora é romper o ciclo: sem mudanças estruturais e punições exemplares, o sistema continuará sendo o canal preferencial do crime econômico, com aparência de legalidade e selo de credibilidade bancária.
*Com informações do Estadão.











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