O advogado e ex-deputado federal Sérgio Barradas Carneiro divulgou nesta terça-feira (28/10/2025) uma nota pública sobre sua saída da Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana (Semob). O documento, distribuído à imprensa, provocou questionamentos pelo tom pessoal e pela forma incomum de redação, que destoaram do padrão institucional esperado em comunicações oficiais.
Pedido de exoneração e justificativas apresentadas
No texto encaminhado aos veículos de imprensa, Sérgio Carneiro informou que o pedido de demissão foi entregue ao prefeito José Ronaldo na sexta-feira (24), alegando “motivos estritamente pessoais”. Ele afirmou ainda que a decisão não guarda relação com a comissão de sindicância instaurada para investigar a divulgação indevida de dados sigilosos no Diário Oficial do Município, envolvendo pessoas com anemia falciforme, HIV/aids e fibromialgia.
Carneiro acrescentou que não teve acesso ao relatório final da investigação, reforçando que sua saída “não possui qualquer relação direta com o caso”. A nota foi emitida após o comunicado oficial do Governo Ronaldo sobre o pedido de exoneração e distribuída pela Assessoria de Comunicação, na manhã desta terça-feira (28).
Tom pessoal e estrutura incomum da nota oficial
Apesar de tratar-se de um comunicado institucional, o texto foi redigido em terceira pessoa, com expressões como “o advogado e administrador Sérgio Barradas Carneiro informa publicamente”, e assinado pelo próprio Sérgio ao final, o que rompe a objetividade esperada de um pronunciamento oficial.
A confusão aumenta porque, após a assinatura de Sérgio Carneiro, o documento inclui o nome do assessor de comunicação Andrews Pedra Branca, identificado com registro profissional (SRTE 2278). O formato, considerado atípico para comunicados públicos, gerou dúvidas sobre a autoria efetiva da nota. Em condições normais, a comunicação deveria ter sido publicada em nome da assessoria, e não do ex-secretário, evitando confusão entre a esfera pessoal e a institucional.
Critérios de redação e distinção entre voz pessoal e voz institucional
A distinção entre voz pessoal e voz institucional é fundamental para preservar clareza institucional, coerência formal e autenticidade da voz comunicante. A comunicação pública exige consistência entre quem assina e quem fala, respeitando o papel hierárquico e a natureza da mensagem.
Quando o comunicado é assinado pelo próprio titular do cargo
Se o documento parte diretamente da autoridade, deve ser redigido em primeira pessoa, com tom direto, formal e coerente com sua posição hierárquica. Essa modalidade expressa decisão individual e responsabilidade pessoal, sendo apropriada para exonerações, renúncias ou declarações de vontade.
Exemplo adequado:
Nota oficial
Comunico que solicitei ao prefeito a minha exoneração do cargo de secretário municipal de Mobilidade Urbana, decisão tomada por razões pessoais e de foro íntimo.
Agradeço a confiança do prefeito e de toda a equipe, com quem tive a honra de trabalhar em prol da cidade.Feira de Santana, 28 de outubro de 2025.
Sérgio Barradas Carneiro
Ex-Secretário Municipal de Mobilidade Urbana
Nesse caso, o texto é subjetivo, mas formal. Não há intermediários nem menção à assessoria, pois a manifestação é pessoal e direta.
Quando o comunicado parte da Assessoria de Comunicação
Quando a informação é transmitida pela Assessoria de Comunicação, o texto deve ser impessoal, objetivo e redigido em terceira pessoa. A assessoria fala em nome do assessorado, mantendo o distanciamento institucional e evitando impressões de defesa pessoal ou autopromoção.
Exemplo adequado:
Nota à imprensa
A Assessoria de Comunicação informa que o senhor Sérgio Barradas Carneiro solicitou, na sexta-feira (24), sua exoneração do cargo de secretário municipal de Mobilidade Urbana, decisão comunicada ao prefeito José Ronaldo de Carvalho.Segundo o ex-secretário, a decisão foi de caráter pessoal.
Assessoria de Comunicação de Sérgio Barradas Carneiro
Feira de Santana, 28 de outubro de 2025.
Esse formato mantém a coerência entre o emissor e o conteúdo, e o encerramento indica claramente a origem da mensagem, eliminando a confusão entre voz pessoal e voz institucional.
Falha de comunicação
O caso ilustra uma falha de comunicação institucional: ao combinar a assinatura do ex-secretário com a identificação do assessor, a nota viola o princípio básico da univocidade comunicacional, em que cada mensagem deve ter um único emissor identificado. O resultado é uma peça híbrida, que mistura defesa pessoal e comunicado oficial, sem a necessária separação entre o agente público e a estrutura administrativa que o assessorava.
O episódio revela falta de técnica na redação pública e fragilidade na gestão de imagem institucional, elementos que, em contextos de crise ou transição política, podem agravar percepções de improviso e desorganização. Em síntese, a forma como Sérgio Carneiro optou por comunicar sua saída enfraquece a intenção de transparência e reforça a impressão de personalismo e informalidade no trato com a coisa pública.
Agradecimentos e trajetória
No mesmo documento, Sérgio Carneiro agradeceu à Prefeitura de Feira de Santana pela confiança e destacou os dez meses de gestão à frente da Semob, período em que, segundo ele, dedicou-se a “contribuir para inúmeras melhorias na mobilidade urbana”. A nota, no entanto, não menciona projetos específicos nem resultados concretos da gestão, limitando-se a expressar agradecimentos formais e despedida protocolar.
O prefeito José Ronaldo de Carvalho, em comunicado paralelo, confirmou o recebimento do pedido de demissão e agradeceu os serviços prestados. Assegurou ainda que a transição será conduzida de forma pacífica, garantindo continuidade aos programas e ações em andamento, com anúncio do novo titular da pasta nos próximos dias.
Fontes da administração municipal informaram que a saída de Sérgio Carneiro não afetará as políticas de educação para o trânsito e mobilidade sustentável, consideradas eixos prioritários da gestão.
Forma, conteúdo e percepção pública
A nota de Sérgio Carneiro exibe inconsistências de tom, forma e autoria. Ao optar por uma redação em terceira pessoa e pelo uso de linguagem autoprotetiva, o ex-secretário dilui o vínculo entre a decisão individual e a responsabilidade institucional, contrariando o princípio da impessoalidade que rege a administração pública.
O caráter defensivo do texto — ao antecipar negações sobre a sindicância — confere à mensagem um tom reativo, que sugere preocupação política com possíveis associações a irregularidades, mesmo sem menção direta a seu nome em documentos oficiais.
A presença do assessor ao final da nota, somada à assinatura pessoal do ex-titular, quebra o protocolo de comunicação institucional e reforça uma percepção de desorganização administrativa, especialmente num contexto em que a credibilidade pública depende de clareza formal e coerência narrativa.
Em síntese, a mensagem final de Sérgio Carneiro parece ter buscado preservar sua imagem pessoal mais do que esclarecer sua atuação administrativa, revelando um desequilíbrio entre transparência pública e defesa individual — dilema recorrente em atuações marcadas por forte personalismo político.
Leia +
Share this:
- Print (Opens in new window) Print
- Email a link to a friend (Opens in new window) Email
- Share on X (Opens in new window) X
- Share on LinkedIn (Opens in new window) LinkedIn
- Share on Facebook (Opens in new window) Facebook
- Share on WhatsApp (Opens in new window) WhatsApp
- Share on Tumblr (Opens in new window) Tumblr
- Share on Telegram (Opens in new window) Telegram











Deixe um comentário