Sócio de ministro da Secom recebeu R$ 12 milhões da Caixa e Embratur; Contratos levantam debate sobre conflito de interesses e transparência no Governo Lula

Reportagem do Estadão, publicada nesta segunda-feira (27/10/2025), revelou que uma produtora de audiovisual pertencente a Francisco Kertész, sócio do ministro da Secretaria de Comunicação Social (Secom), Sidônio Palmeira, recebeu R$ 12 milhões por serviços prestados à Caixa Econômica Federal e à Embratur durante o governo Lula. As contratações ocorreram por meio de agências de publicidade que possuem contratos com as estatais, sem licitação direta, dentro das regras previstas pela legislação vigente.

Relação entre Sidônio Palmeira e Francisco Kertész

A produtora Macaco Gordo Publicidade e Serviços, de Kertész, foi subcontratada para executar campanhas publicitárias das estatais. O empresário é também sócio de Sidônio Palmeira na M4 Comunicação e Propaganda, criada em 2022 para a campanha eleitoral de Lula e posteriormente rebatizada como Nordx, que hoje presta serviços ao diretório nacional do PT.

Sidônio Palmeira, idealizador da campanha “Fé no Brasil” lançada em 2024, assumiu oficialmente o comando da Secom em janeiro de 2025. Desde então, afastou-se da gestão de suas empresas, embora permaneça no quadro societário.

Kertész, por sua vez, intensificou sua presença em Brasília: entre janeiro e junho de 2025, realizou 13 visitas ao Palácio do Planalto, todas registradas como encontros pessoais com Sidônio Palmeira.

Contratações e valores pagos

A Caixa Econômica Federal e a Embratur contrataram campanhas executadas por agências como Binder, Calia e Propeg, que, por sua vez, subcontrataram a Macaco Gordo para a produção dos filmes e peças.

Os maiores valores se concentraram em 2025, já sob Sidônio Palmeira na Secom. A Macaco Gordo foi a produtora que mais recebeu recursos da Caixa neste ano — R$ 4,3 milhões, o equivalente a 20% do total pago a produtoras audiovisuais pela estatal.

Entre as campanhas executadas estão:

  • “Tudo em Dia Caixa” (renegociação de dívidas), no valor de R$ 2,3 milhões;
  • “Quina de São João” (junho de 2024), com R$ 988 mil;
  • “Poupançudos” e “Mega da Virada”, totalizando R$ 2,5 milhões;
  • Campanhas da Embratur sobre afroturismo e realidade virtual Sebrae, cada uma com R$ 1,9 milhão.

Os pagamentos, de acordo com os registros obtidos via Lei de Acesso à Informação, são feitos às agências principais, que repassam parte dos valores às produtoras subcontratadas — não havendo repasse direto do órgão público.

Procedimentos de cotação e legalidade

Segundo a legislação, as agências licitadas devem realizar cotação com pelo menos três orçamentos de produtoras para justificar a contratação pelo menor preço. Contudo, nem sempre esse procedimento é integralmente documentado.

No caso da campanha “Tudo em Dia Caixa”, um aditamento contratual dispensou a pesquisa de preços, sob justificativa de tratar-se de serviço adicional. O valor do contrato foi ampliado de R$ 1,6 milhão para R$ 2,3 milhões, o que motivou questionamentos sobre a transparência do processo.

A Calia, responsável pela execução, afirmou que o aditamento se deu apenas pelo acréscimo de serviços e manteve conformidade com as normas.

Precedentes e investigações

A relação comercial entre Sidônio Palmeira e a Macaco Gordo é antiga: a produtora já prestava serviços à agência Leiaute, também de Sidônio, no governo baiano. O Tribunal de Contas da Bahia chegou a apontar falhas em contratos da Leiaute com a administração estadual, e o Ministério Público da Bahia propôs ação civil por ausência de detalhamento de custos e indícios de direcionamento.

O caso foi encerrado após a Leiaute firmar acordo judicial e se comprometer com controles internos mais rigorosos.

Respostas dos envolvidos

O ministro Sidônio Palmeira negou qualquer interferência nas contratações e afirmou que “jamais indicou ou endossou a escolha de fornecedores” pelas agências. Disse ainda ter se afastado da gestão das empresas antes de assumir o cargo, “em respeito aos princípios éticos da administração federal”.

A Macaco Gordo declarou que foi escolhida “por apresentar o menor preço e qualificação técnica”, destacando um portfólio de 15 anos com clientes públicos e privados, como Natura, Perdigão, Rede Globo e Ivete Sangalo.

A Caixa e a Embratur também defenderam a legalidade dos procedimentos. O banco afirmou que as agências seguiram as normas internas e que as escolhas ocorreram “por critério de menor custo entre ao menos três orçamentos”. A Embratur sustentou que realiza chamadas públicas e sessões presenciais para seleção de produtoras.

As agências Binder e Calia reafirmaram a regularidade dos contratos; a Propeg não se manifestou.

Implicações éticas e institucionais

Ainda que não haja indícios formais de ilegalidade, o caso evidencia a zona cinzenta entre o público e o privado nas relações de comunicação do governo federal. A ausência de licitação direta e a possibilidade de subcontratações por afinidade empresarial levantam questionamentos sobre governança, transparência e compliance em contratos de publicidade oficial.

O episódio também ressalta a fragilidade do modelo de cotação indireta, no qual valores expressivos podem ser movimentados sem ampla publicidade dos critérios de escolha — uma prática recorrente em diferentes governos e que continua a demandar aperfeiçoamento normativo.

Dados Gerais do Caso

  • Valor total recebido: R$ 12 milhões
  • Período: 2024 a 2025
  • Empresas envolvidas:
    • Produtora Macaco Gordo (de Francisco “Chico” Kertész)
    • Agência Nordx (ex-M4) — sociedade de Kertész com Sidônio Palmeira
  • Órgãos públicos contratantes:
    • Caixa Econômica Federal
    • Embratur (Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo)
  • Origem dos recursos: Execução de contratos de publicidade por agências terceirizadas

Envolvidos Principais

  • Sidônio Palmeira:
    • Ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social (Secom) da Presidência
    • Publicitário baiano, ex-dono da Leiaute e idealizador da campanha “Fé no Brasil”
    • Sócio de Kertész na M4/Nordx
    • Afastou-se da gestão das empresas após assumir o ministério (jan/2025)
  • Francisco “Chico” Kertész:
    • Empresário e produtor audiovisual
    • Dono da Macaco Gordo
    • Sócio de Sidônio Palmeira na Nordx
    • Fez 13 visitas ao Palácio do Planalto entre jan e jun/2025
    • Filho do ex-prefeito de Salvador Mário Kertész

Pagamentos e Contratações

Total recebido: R$ 12 milhões (2024–2025)
Principais campanhas e valores:

  • Caixa Econômica Federal
    • “Tudo em Dia Caixa” (renegociação de dívidas) – R$ 2,3 milhões
    • “Quina de São João” – R$ 988 mil
    • “Poupançudos” – R$ 1,1 milhão
    • “Mega da Virada” – R$ 1,4 milhão
    • “Minha Casa, Minha Vida” – R$ 516 mil
    • “Lotofácil da Independência” – R$ 1,5 milhão
    • Subtotal Caixa: R$ 7,8 milhões
  • Embratur
    • Campanha sobre afroturismoR$ 1,9 milhão
    • Campanha de realidade virtual SebraeR$ 1,9 milhão
    • Subtotal Embratur: R$ 3,8 milhões

Pagamentos indiretos: feitos pelas agências de publicidade Binder, Calia e Propeg.

Agências de Publicidade Envolvidas

  • Binder – responsável por campanhas da Caixa (Quina de São João, Poupançudos, Mega da Virada)
  • Calia – executou campanhas da Embratur e da Caixa (Tudo em Dia, Afroturismo)
  • Propeg – contratou a produtora para campanhas do MCMV e Lotofácil da Independência
  • Critério de contratação: cotação de preços entre pelo menos três propostas

Procedimentos e Legalidade

  • Modalidade: Subcontratação indireta (sem licitação direta)
  • Regras:
    • Necessidade de cotação com no mínimo três orçamentos
    • Contratação pelo menor preço ou adequação técnica
  • Irregularidades apontadas:
    • Em um contrato, houve dispensa de pesquisa de preços sob alegação de aditamento técnico
  • Auditorias anteriores:
    • Tribunal de Contas da Bahia identificou falta de detalhamento de custos e possível direcionamento em contratos anteriores da Leiaute (empresa de Sidônio) com o governo estadual
    • Ministério Público da Bahia apresentou ação civil, encerrada após acordo de compliance

Declarações Oficiais

  • Sidônio Palmeira: negou qualquer interferência ou indicação da produtora; afirmou ter se afastado das empresas ao assumir a Secom.
  • Francisco Kertész: declarou que a Macaco Gordo foi escolhida por menor preço e qualificação técnica.
  • Caixa Econômica Federal: informou que as contratações foram legais e realizadas após cotação de três orçamentos.
  • Embratur: afirmou que o processo ocorreu por chamada pública e sessões presenciais.
  • Agências Binder e Calia: confirmaram que a produtora foi escolhida pelo menor valor ofertado.
  • Propeg: não se manifestou.

Contexto Político e Institucional

  • Sidônio Palmeira tornou-se figura central na comunicação do governo Lula, responsável por campanhas de unificação simbólica (“Fé no Brasil”).
  • O caso reacende o debate sobre transparência e conflito de interesses na publicidade estatal.
  • Modelo atual permite subcontratações sem licitação, com controle reduzido de critérios técnicos e financeiros.

Pontos Críticos

  • Relação de sociedade comercial entre ministro e contratado de estatais.
  • Visitas frequentes do empresário ao Planalto (13 em seis meses).
  • Dispensa de cotação em contrato milionário.
  • Histórico de advertências do Tribunal de Contas da Bahia.
  • Concentração de recursos em uma única produtora.


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