Uma profunda discussão sobre atraso institucional, corrupção sistêmica e responsabilidade cidadã voltou ao centro do debate público após a repercussão do artigo “Atraso, corrupção e criminalidade”, publicado por Joaci Góes na semana passada na Tribuna da Bahia. Em resposta ao texto, o escritor e intelectual baiano dedicou sua coluna mais recente — “Um grande comentário”, publicada no mesmo jornal em 20/11/2025 — a apresentar e comentar a análise da jurista Aline Gonçalves, natural do Piauí e atuante em Brasília, cujo comentário foi descrito pelo autor como “tão rico na forma e no conteúdo que merece publicação integral”.
Um debate reacendido sobre atraso e impunidade
No artigo original, Joaci Góes discutiu a natureza sistêmica da corrupção brasileira, tratada não como desvio isolado, mas como engrenagem estruturante do funcionamento político. Aline Gonçalves, em seu comentário, afirma que o autor apresenta “um exemplar de reflexão pública madura e profundamente embasada”, capaz de articular moralidade pública, estrutura institucional e cultura política.
A jurista destaca que o texto de Góes identifica uma inter-relação entre corrupção e criminalidade, abrangendo desde o crime comum até o crime organizado que “habita os vazios institucionais que favorecem a impunidade”. Essa leitura amplia o diagnóstico tradicional e evidencia que o atraso brasileiro é um fenômeno ativo, não mero resíduo histórico.
Aline observa ainda que o autor descreve a corrupção como “capital social negativo”, conceito que esclarece como práticas patrimonialistas moldam o rito institucional, substituindo o serviço público por relações de privilégio.
A cultura institucional como obstáculo histórico
A análise da jurista aprofunda um ponto central do artigo de Joaci: o atraso não decorre apenas de carências materiais, mas de uma falha civilizatória que se reproduz ao longo das gerações. Ela sugere que a reflexão deveria avançar sobre o “legado geracional”, considerando como práticas de favorecimento se cristalizam e se tornam parte da cultura social, dificultando reformas estruturais.
Ao retomar as palavras de Góes, Aline sublinha que o debate precisa superar a pergunta reducionista “quem roubou?” e avançar para “por que permitimos que se roubasse?”, deslocando o foco do indivíduo para a sociedade e suas engrenagens de permissividade.
Para a jurista, essa perspectiva representa um chamado para que o país abandone o conformismo institucional e adote uma ética pública de questionamento permanente, capaz de romper o ciclo de negligência cidadã.
O papel da justiça, da educação e da cidadania ativa
Joaci Góes, conforme recupera o comentário, aponta três pilares de transformação: justiça, cidadania e educação. Ele defende que a superação do atraso depende de uma cultura que recuse a impunidade, fortaleça a formação cívica e promova instituições maduras.
Aline concorda com essa visão e propõe uma ampliação: a ideia de uma “educação pública cidadã”, que transcenda o ensino formal. Para ela, é necessário criar e difundir práticas cotidianas de integridade em escolas, empresas, mídia e órgãos públicos, articulando responsabilidade coletiva em dimensões híbridas e complementares.
O comentário afirma que esse processo não deve ser visto como mero projeto técnico, mas como reforma civilizacional, exigindo maturidade social e compromisso político duradouro.
Uma interlocução marcada por rigor intelectual e responsabilidade pública
No encerramento de seu comentário, Aline Gonçalves reconhece o “vigor ético” do texto de Joaci Góes, ressaltando que sua escrita combina erudição, lucidez e um sentido de dever público. Segundo ela, trata-se de uma contribuição rara nos tempos atuais, por aliar diagnóstico rigoroso e convocação à ação.
O próprio Góes, ao apresentar o comentário, agradece e reforça que o debate público deve comportar críticas qualificadas, reflexões profundas e interlocutores comprometidos com o aprimoramento das instituições nacionais.











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