A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), aberta na segunda-feira (10/11/2025) em Belém, consolidou a visão brasileira de que o mundo precisa enfrentar a emergência climática com verdade, ciência e ação concreta. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou que a “mudança do clima é uma tragédia do presente”, defendendo um mapa global de transição energética justa, a mobilização anual de US$ 1,3 trilhão para mitigação e adaptação e a preservação das florestas tropicais como eixo central de uma nova economia verde.
O presidente Lula classificou a COP30 como a “COP da verdade”, denunciando o avanço da desinformação e do negacionismo climático. O presidente afirmou que “os obscurantistas controlam algoritmos, semeiam ódio e espalham o medo”, em referência a campanhas que desacreditam a ciência e atrasam políticas ambientais. A conferência também destacou que 113 países já apresentaram novas metas climáticas (NDCs), representando 69% das emissões globais e sinalizando compromisso coletivo em reduzir o aquecimento a no máximo 1,5°C.
Durante o discurso de abertura, o secretário-executivo da ONU para Mudanças Climáticas, Simon Stiell, observou que a curva de emissões começa a cair, mas ainda “em velocidade insuficiente”. Ele defendeu uma transição justa e ordenada para longe dos combustíveis fósseis, com metas de triplicar a capacidade de energias renováveis e dobrar a eficiência energética até 2035.
Financiamento e governança multinível
Um dos pontos mais relevantes foi o anúncio do Plano de Aceleração de Governança Climática Multinível, apresentado pela ministra Marina Silva. O programa articula municípios, estados e governo federal na execução de políticas ambientais, com foco em integração territorial, informação de risco e cooperação público-privada. A proposta inclui a elaboração de Planos Municipais de Clima, com base em dados técnicos e metas verificáveis, para alinhar o país às obrigações internacionais.
O Brasil também reafirmou o compromisso com o financiamento climático global, defendendo o patamar mínimo de US$ 1,3 trilhão anuais para que países em desenvolvimento possam cumprir suas metas de descarbonização. Esse esforço envolve novas formas de crédito verde, fundos de compensação e reformulação dos fluxos financeiros internacionais, tema que voltará às discussões centrais do Acordo de Paris.
Florestas e povos tradicionais: da proteção à economia verde
O Brasil liderou a criação do Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), com aporte inicial de US$ 5,5 bilhões. O objetivo é remunerar países e comunidades que preservam seus biomas, consolidando a ideia de que “pagar por floresta em pé” é a forma mais eficaz de proteger o planeta. O fundo recebeu apoio de organismos multilaterais e pretende canalizar recursos para iniciativas de conservação e desenvolvimento sustentável na Amazônia, no Congo e no Sudeste Asiático.
Em paralelo, a COP30 registrou a maior participação indígena da história: cerca de 3 mil lideranças de 361 etnias, vindas de vários continentes, se reuniram na Aldeia COP, montada no campus da Universidade Federal do Pará. O espaço abriga debates, feiras de bioeconomia, rituais e uma “casa ancestral”, onde os povos tradicionais compartilham saberes e reivindicam financiamento direto e autonomia na gestão territorial. A ministra Sônia Guajajara destacou que “não haverá solução sem a presença indígena” e que a demarcação de terras deve ser reconhecida como meta climática.
Tecnologia e inteligência artificial: promessa e risco
As discussões também abordaram o papel da inteligência artificial (IA) na mitigação dos efeitos da crise climática. Um dos exemplos mais elogiados foi o projeto da pesquisadora Alisa Luangrath, do Laos, premiado pela ONU, que utiliza sensores de umidade e algoritmos de IA para melhorar o uso da água em regiões agrícolas vulneráveis. A iniciativa deverá ser replicada em outras áreas rurais da Ásia e América Latina.
Contudo, os especialistas alertaram para o impacto ambiental oculto da era digital. Grandes data centers usados por empresas de tecnologia consomem volumes massivos de energia e água para resfriamento. Países como Holanda, Chile e Uruguai já restringiram a instalação dessas estruturas. No Brasil, há questionamentos sobre empreendimentos no Ceará e no Rio Grande do Sul, em áreas de risco hídrico. O alerta reforça que a transição tecnológica também precisa ser ambientalmente sustentável.
Ciência amazônica e conectividade ecológica
O Relatório Amazônia 2025, lançado no Pavilhão Ciência Planetária, foi um dos documentos mais citados da conferência. Coordenado pelo climatologista Carlos Nobre, o estudo defende a conectividade ecológica e sociocultural da Amazônia como estratégia central para evitar o ponto de não retorno. O texto reúne 200 cientistas e líderes indígenas e propõe políticas integradas que ligam biodiversidade, economia verde e saberes tradicionais. O relatório também reconhece as mulheres indígenas como protagonistas históricas da ciência amazônica e ressalta que sem garantir os territórios, não há como salvar o planeta.
Manifestações e segurança internacional
A intensa participação social marcou o evento. Organizações como a Climate Action Network (CAN) organizaram protestos na área de negociações — a chamada Zona Azul — pedindo a criação do Mecanismo de Ação de Belém, voltado à transição justa e ao financiamento equitativo das comunidades afetadas pela crise climática. Os manifestantes defenderam a taxação de grandes fortunas e corporações poluentes como fonte de recursos.
Em outro episódio, um grupo tentou forçar entrada na área restrita, resultando em confronto com seguranças. O incidente foi contido sem prisões, e os organizadores reafirmaram o caráter pacífico das manifestações.
Avanço institucional e desafios da implementação
No âmbito técnico, a COP30 conseguiu o que as últimas conferências não alcançaram: abrir a agenda oficial logo no primeiro dia, permitindo o avanço simultâneo em 145 temas. A entrega de 111 novos relatórios de metas nacionais e o diálogo multilateral produtivo reforçaram a credibilidade do processo da ONU. O consenso é que o ritmo precisa acelerar, mas o caminho de cooperação está restabelecido.
A presidência brasileira, chefiada por André Corrêa do Lago, reforçou que esta deve ser a COP da implementação, na qual compromissos se transformam em resultados concretos. As próximas etapas incluem a criação de indicadores globais de adaptação, ampliação dos fundos para mitigação e a integração das políticas ambientais à economia real.
Dinheiro prometido
A COP30 marca uma inflexão na diplomacia climática. Ao transferir o centro das decisões para a Amazônia, o Brasil transforma território em mensagem: o combate ao aquecimento global não pode prescindir dos povos que vivem nas florestas, nem ignorar os custos sociais da transição energética. O evento consolidou o país como mediador entre o Sul Global e o Norte desenvolvido, reunindo ciência, política e espiritualidade indígena em torno de um mesmo objetivo.
O desafio, porém, é traduzir compromissos em ações mensuráveis. O sucesso da COP30 dependerá da capacidade de mobilizar o dinheiro prometido, monitorar resultados e sustentar a cooperação internacional em um contexto de tensões geopolíticas crescentes.








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