Sexta-feira, 28/11/2025 – Sete meses após o anúncio da federação entre União Brasil e PP, a aliança partidária que prometia reorganizar o campo da direita passa por divergências internas, saídas de quadros regionais e crescente apreensão política com o envolvimento de aliados próximos a figuras investigadas, como o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, e o empresário Ricardo Magro, controlador do Grupo Fit (antiga Refit).
O desgaste, afirmam integrantes da própria federação e de outras legendas, deve marcar os próximos meses diante da proximidade entre o presidente do União Brasil e da federação, Antonio Rueda, e o presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI), com ambos os empresários alvo de investigações de grande repercussão.
Vorcaro foi preso em 17 de novembro, acusado de emissão de títulos de crédito falsos, o que levou à liquidação do Banco Master no dia seguinte. Já na quinta-feira (27), a Receita Federal, em cooperação com polícias estaduais, deflagrou operação contra o Grupo Fit, atribuindo ao esquema prejuízo estimado de R$ 26 bilhões aos cofres públicos por sonegação, fraude fiscal e ocultação de patrimônio.
Operações ampliam desgaste político da federação
Segundo investigadores, os casos envolvendo o Banco Master e a antiga Refit não têm, até agora, relação direta com políticos que possuam foro especial. Contudo, a proximidade entre as lideranças da federação e os investigados reacendeu críticas internas e externas, sobretudo dentro do chamado centrão, onde quadros afirmam que o desgaste pode afetar candidaturas ao longo de 2026.
Aliados de Rueda e Ciro, porém, minimizam os impactos. Argumentam que Vorcaro mantinha relações com diversas autoridades de diferentes espectros políticos, assim como Augusto Lima, ex-sócio do Master, também preso, era próximo a lideranças do PT na Bahia. O mesmo raciocínio é aplicado por dirigentes à figura de Ricardo Magro, cujas relações políticas são conhecidas.
Nem Ciro Nogueira nem Antonio Rueda responderam aos pedidos de manifestação.
Disputas estaduais, indefinições e primeiros rachas internos
As tensões provocadas pelas investigações somam-se ao antigo impasse sobre o controle dos diretórios estaduais da federação. Um terço dos estados permanece sem definição: DF, MG, MA, PB, PR, RJ, SP, SE e TO. Nos demais 18, ficou acordada a divisão equilibrada entre União Brasil e PP.
Integrantes afirmam que, nos estados sem consenso, caberá a Rueda e Ciro decidir conjuntamente. Contudo, mesmo com previsão estatutária de decisões colegiadas, cresce a preocupação sobre os critérios adotados e a possibilidade de desfiliações em massa caso grupos regionais se sintam preteridos.
O primeiro choque significativo ocorreu entre Rueda e o ex-presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), que havia recebido promessa informal de presidir a federação, mas acabou excluído da cúpula decisória.
Outro conflito envolve o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil), inicialmente defensor da federação. Ele condicionava apoio à possibilidade de disputar a Presidência caso atingisse mais de 10% nas pesquisas, mas rompeu com Ciro e hoje defende o fim da aliança.
Saídas em estados-chave e conflitos regionais ampliam instabilidade
A crise já produz efeitos concretos. No Acre, o senador Alan Rick deixou o União Brasil para disputar o governo estadual pelo Republicanos, reagindo à decisão de entregar o comando regional da federação ao governador Gladson Camelli (PP).
Na Paraíba, a disputa é tripla:
– Cícero Lucena, prefeito de João Pessoa, saiu do PP para concorrer ao governo;
– Efraim Filho (União Brasil) uniu-se à direita;
– Lucas Ribeiro (PP) disputará o governo com apoio de Lula.
No Paraná, o conflito entre o grupo do deputado Ricardo Barros (PP) e o do senador Sergio Moro (União Brasil) levou à saída do deputado Pedro Lupion, hoje no Republicanos, e pode levar Felipe Francischini (União Brasil) a se filiar ao Podemos.
Já no Nordeste, deputados manifestam desconforto com o tom oposicionista da cúpula contra Lula, uma vez que, nesses estados, muitos parlamentares da federação são aliados de governadores do PT.
Apesar das tensões, dirigentes insistem que a federação é irreversível e confirmam que o registro no TSE será protocolado para vigorar já em 2026. A demora de sete meses teria sido causada por burocracia e por um erro formal nas atas do PP, supostamente já corrigido.
Fragmentação, riscos estratégicos e o efeito das investigações
A federação União Brasil–PP, anunciada como um movimento para consolidar uma força de direita capaz de influenciar decisivamente a eleição presidencial de 2026, sofre desgaste precoce. Os efeitos colaterais das investigações contra o Banco Master e o Grupo Fit aumentam o custo político para Ciro Nogueira e Antonio Rueda, enquanto a disputa interna por diretórios estaduais revela fragilidades pouco compatíveis com o projeto nacional inicialmente defendido.
As primeiras desfiliações confirmam que a federação, concebida para agregar, enfrenta dificuldade inédita para reter quadros estratégicos. A pressão regional, especialmente em estados do Nordeste e em centros eleitorais como São Paulo, tende a aprofundar divergências caso o comando nacional não consiga articular critérios claros e estáveis.
A crise expõe uma contradição central: a federação foi criada para fortalecer a direita institucional, mas, por ora, tem produzido rupturas regionais, desgaste moral e disputas de poder que fragilizam seu discurso nacional.
*Com informações do Jornal Folha de S.Paulo.











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