Enseada Indústria Naval: retomada, legado e futuro da construção naval na Bahia

A Enseada Indústria Naval, localizada em Maragogipe, no Recôncavo Baiano, consolidou-se como um dos maiores investimentos privados da Bahia e símbolo da retomada do setor naval nacional. Após enfrentar uma década de desafios financeiros e reestruturações, o estaleiro volta a operar com projetos estratégicos e tecnologia de ponta, em parceria com a japonesa Kawasaki Heavy Industries.

Implantada estrategicamente às margens do Rio Paraguaçu, a Enseada se destaca por sua infraestrutura técnica e localização privilegiada. O estaleiro opera em águas abrigadas, com calado profundo e sem interferência de ventos ou correntezas — condições ideais para construção, integração e manutenção de embarcações de grande porte.

O empreendimento se tornou vetor de emprego e renda para a região, impulsionando a economia do Recôncavo, historicamente reconhecida por sua vocação industrial e portuária desde os anos 1980. A presença do estaleiro reforça a tradição baiana em projetos offshore e a inserção do estado no mapa da indústria naval brasileira.

Da fundação à reestruturação

A trajetória da Enseada reflete a própria evolução do setor de engenharia e construção pesada no Brasil.

  • 1944 — Fundação da Construtora Norberto Odebrecht (CNO), base do grupo empresarial que décadas depois daria origem ao empreendimento.
  • 1986 — Aquisição da Tenenge, empresa de montagem industrial responsável por plataformas como Namorado I e II e Cherne I na Bacia de Campos.
  • 1991 — Compra da SLP Engineering, no Reino Unido, especializada em plataformas de petróleo.
  • 2009 — Ingresso no segmento naval e militar com a criação da Itaguaí Construções Navais (ICN), parceria com o grupo francês Naval Group, voltada à construção de submarinos.
  • 2011/2012 — Fundação da Enseada, em parceria com a Kawasaki Heavy Industries, consolidando décadas de expertise offshore. Conquista de contratos para a construção de 6 navios-sonda e conversão de 4 petroleiros VLCC em plataformas FPSO.
  • 2014 — Receita operacional alcança R$ 3 bilhões com 8 mil funcionários e três grandes projetos simultâneos.
  • 2015 — Crise no setor, cancelamento de encomendas e suspensão das atividades.
  • 2017 — Homologação do plano de recuperação extrajudicial, passo essencial para reorganizar passivos.
  • 2018 — Retomada gradual das operações no segmento naval e offshore.
  • 2019 — Pedido formal de recuperação judicial para viabilizar reestruturação definitiva.
  • 2020 — Início das operações logísticas e portuárias, ampliando a diversificação da empresa.

A tecnologia japonesa e o novo ciclo produtivo

A parceria tecnológica com a Kawasaki Heavy Industries permanece como diferencial estratégico da Enseada. A transferência de tecnologia japonesa garante padrões de excelência em engenharia, segurança e produtividade, inserindo o estaleiro entre os mais modernos do hemisfério sul.

Com novos contratos voltados à indústria de energia e mineração, o estaleiro passa a atuar também em projetos logísticos, modulares e de apoio marítimo, como barcaças, plataformas e embarcações de suporte, consolidando um novo ciclo industrial na Bahia.

A expectativa é que esses projetos gerem centenas de empregos diretos e indiretos, reafirmando o papel da Enseada como agente de desenvolvimento regional e parceiro estratégico do Estado em políticas industriais sustentáveis.

Terminal Logístico e Operações Multicargas

A Enseada opera um Terminal de Uso Privado (TUP) com mais de 500 mil metros quadrados destinados ao armazenamento e movimentação de cargas. O terminal possui licença para operações multicargas, incluindo cargas gerais, componentes de grandes dimensões, cargas de projeto e conjuntos de geração eólica — como pás, torres e naceles.

O Terminal Logístico da Enseada oferece vantagens competitivas pela localização estratégica, ampla área de armazenagem coberta e descoberta, acesso rodoviário de alta qualidade e proximidade dos principais corredores industriais da Bahia. Por estar fora da área urbana de Salvador, o TUP garante maior eficiência e segurança nas operações portuárias, consolidando a Enseada como hub logístico de integração entre a indústria naval e o setor de energia renovável.

Impacto econômico e social no Recôncavo Baiano

O estaleiro é hoje um núcleo de dinamização econômica no Recôncavo, estimulando cadeias produtivas locais de serviços, logística, metalurgia e construção civil. O impacto é percebido em municípios como Maragojipe, Cachoeira e São Félix, que registram crescimento da renda e aumento da arrecadação tributária.

A retomada das atividades da Enseada coincide com o movimento nacional de reindustrialização e soberania produtiva, alinhado às diretrizes do Novo PAC e à revitalização do Fundo da Marinha Mercante (FMM).

Reestruturação empresarial e a diversificação de mercados

A história da Enseada espelha os desafios de um modelo de desenvolvimento dependente de grandes contratos públicos e ciclos da Petrobras. A crise de 2015 expôs a fragilidade do setor diante da ausência de uma política industrial contínua e previsível.

Entretanto, a reestruturação empresarial e a diversificação de mercados indicam uma nova fase. A consolidação da parceria com a Kawasaki Heavy Industries e o avanço das operações logísticas e offshore abrem caminho para uma fase de estabilidade tecnológica e financeira.

O desafio central está em garantir continuidade institucional e planejamento de longo prazo, para que o estaleiro não apenas sobreviva a crises cíclicas, mas se firme como símbolo de soberania industrial e competência técnica nacional.


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