Kimberly-Clark anuncia aquisição da Kenvue por US$ 40 bilhões em meio a polêmica sobre o Tylenol

Kimberly-Clark realiza maior aquisição de sua história e amplia presença global no setor de saúde.
O anúncio da compra da Kenvue por US$ 40 bilhões ocorre em meio a controvérsias judiciais envolvendo o medicamento Tylenol e pressões do governo Trump.

A Kimberly-Clark anunciou nesta terça-feira (04/11/2025) a compra da Kenvue, fabricante do Tylenol, em um negócio avaliado em US$ 40 bilhões, consolidando-se como uma das maiores companhias globais no setor de saúde e bem-estar. A Kenvue, criada em 2023 após a cisão da divisão de consumo da Johnson & Johnson, enfrenta atualmente pressões judiciais e políticas decorrentes de ataques do governo de Donald Trump à segurança do medicamento Tylenol.

O anúncio provocou forte reação nos mercados: as ações da Kimberly-Clark despencaram 14,57% em Nova York — a maior queda em 25 anos —, enquanto os papéis da Kenvue subiram 12,3%, embora acumulem queda de 33% no ano.

Aquisição cria gigante de US$ 32 bilhões em receitas e reposiciona o setor

Com a fusão, a nova empresa deverá atingir US$ 32 bilhões em receitas anuais, superando a Unilever e ficando atrás apenas da Procter & Gamble em vendas globais de produtos de saúde e bem-estar. O portfólio combinado reúne marcas consolidadas como Huggies, Kleenex, Scott, Band-Aid, Neutrogena, Listerine e Sempre Livre.

De acordo com o CEO da Kimberly-Clark, Mike Hsu, a fusão “criará uma empresa líder global em saúde e bem-estar, com capacidade de competir, atrair investimentos significativos e vencer”. A companhia estima ganhos de US$ 1,4 bilhão em sinergias de receita nos quatro anos seguintes à conclusão do negócio, prevista para o segundo semestre de 2026.

Entre os benefícios esperados, destaca-se o acesso à rede de distribuição da Kenvue na Índia, além da ampliação da presença da Kimberly-Clark em mercados emergentes e no segmento de produtos para cuidados com bebês, saúde da mulher e envelhecimento populacional.

Crise política e risco jurídico nos EUA afetam o negócio

O cenário, porém, é marcado por incertezas. O governo Trump, em conjunto com o secretário de Saúde Robert F. Kennedy Jr., vem questionando publicamente a segurança do Tylenol, alegando — sem comprovação científica — que o uso do medicamento por gestantes poderia causar autismo em crianças.

Essas alegações levaram o estado do Texas a processar a Kenvue e a Johnson & Johnson, acusando-as de “ocultar riscos” associados ao uso do Tylenol durante a gravidez. A empresa nega as acusações e afirma que “não há evidências científicas que sustentem tais alegações”, ressaltando que febre e dor não tratadas são, por outro lado, riscos reconhecidos durante a gestação.

Analistas alertam para paralelos com o caso Bayer-Monsanto

Segundo o analista de mercado Adam Crisafulli, da Vital Knowledge, o novo cenário acende o alerta entre investidores. “Os acionistas da Kimberly-Clark estão cautelosos, dado o potencial de riscos legais enfrentados pela Tylenol”, observou. Ele comparou a situação à aquisição da Monsanto pela Bayer AG, em 2018, que resultou em bilhões de dólares em litígios e uma queda prolongada no valor de mercado da farmacêutica alemã.

Essa analogia reforça a preocupação de que a Kimberly-Clark possa estar assumindo passivos jurídicos expressivos ao incorporar a Kenvue, caso as ações judiciais sobre o Tylenol avancem nos tribunais americanos sob forte influência política.

Fusão estratégica sob o peso da incerteza política

A aquisição da Kenvue pela Kimberly-Clark marca uma mudança estrutural no setor global de bens de consumo e saúde, mas o contexto político norte-americano adiciona riscos reputacionais e financeiros significativos. O ataque do governo Trump à indústria farmacêutica, sem respaldo científico, reflete uma interferência ideológica em decisões de saúde pública, que pode distorcer o ambiente regulatório e o comportamento dos investidores.

Ainda assim, a operação representa um movimento estratégico de diversificação e integração vertical da Kimberly-Clark, capaz de fortalecer sua competitividade global e reduzir dependência de segmentos tradicionais. O sucesso, contudo, dependerá da gestão jurídica e de reputação diante das pressões políticas e das reações do mercado.


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