Com mais de cem mortos, a Operação Contenção contou com policial nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro (RJ), realizada na última terça-feira (28/10/2025), provocou um impacto profundo na agenda política nacional. O saldo da ação, considerada a mais letal da história do país, repercutiu amplamente nas redes sociais e na imprensa, impulsionando a popularidade do governador Cláudio Castro (PL) e reacendendo o debate sobre o modelo de segurança pública adotado no estado.
A repercussão positiva entre parte da opinião pública fortaleceu Castro, que recebeu apoio de governadores alinhados à oposição como Ratinho Junior (PSD-PR), Romeu Zema (Novo-MG), Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) e Ronaldo Caiado (União-GO). Todos são citados como possíveis candidatos à Presidência da República em 2026. O episódio também reposicionou Castro politicamente, que agora planeja disputar uma vaga no Senado e passou a influenciar a articulação da chamada bancada da bala, defensora de políticas de repressão mais severas.
Reação do governo federal e opinião pública
Em resposta à mobilização nas redes, o governo federal investiu cerca de R$ 1 milhão para impulsionar publicações defendendo o uso da inteligência e da prevenção na segurança pública, criticando o caráter letal das ações policiais. No entanto, pesquisas recentes da Quaest mostraram que 64% da população fluminense aprovou a operação, respaldando a ideia de que “bandido bom é bandido morto” — uma expressão que há décadas permeia o debate público no país.
A socióloga e cientista política Clarisse Gurgel, professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), afirmou em entrevista à Sputnik Brasil que operações dessa natureza são utilizadas como instrumentos de poder e legitimação política. “Quando Cláudio Castro opera, ele está valorizando vários dos ativos envolvidos em seu projeto de poder. Matar vira mercadoria: rende votos e consolida o discurso da repressão como ordem social”, destacou.
Para a especialista, o fenômeno está enraizado em fatores estruturais, como a desigualdade social e a falta de oportunidades.
“O que se trata como desordem social é, na verdade, uma forma de organização: a operação que elimina pobres é vista como política pública. A ordem se alimenta da exclusão”, analisou.
Desigualdade, violência e controle político
A professora Clarisse Gurgel ressaltou que a escassez de trabalho e a concentração de renda contribuem para o agravamento da violência urbana, cenário em que o discurso da força encontra respaldo popular. Ela defendeu que os partidos progressistas precisam retomar os territórios populares com políticas de base e participação comunitária, enfrentando a influência de grupos que lucram com a precarização e a criminalização da pobreza.
“Não há vazio na política. Se a esquerda se ausenta, esses espaços são ocupados pelos que dominam, pelos que querem lucro e poder”, observou Gurgel, destacando o desafio de reconstruir laços sociais nas periferias.
O “elogio da morte” e o novo paradigma político
O cientista político Jorge Chaloub, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), avaliou que o discurso de exaltação à violência estatal ganhou nova dimensão. Ele relembrou a retórica de Wilson Witzel e Jair Bolsonaro (PL), que consolidaram a “estética da repressão” como ferramenta eleitoral.
“Não é que as mortes sejam efeitos colaterais. Há uma ideia de que a morte é boa em si, uma forma de limpeza social. Esse discurso, antes marginal, agora ocupa o centro da política nacional”, afirmou Chaloub.
O especialista também advertiu sobre a internacionalização do modelo punitivista, observando que o endurecimento do discurso sobre segurança pública mobiliza a direita em diversos países, enquadrando o debate político e constrangendo a esquerda a adotar um tom reativo.
Pesquisas e o risco da leitura apressada
Chaloub ponderou que as pesquisas de opinião imediatas podem refletir emoções momentâneas. “As pessoas tratam esses dados como se fossem verdades objetivas. Mas eles captam impulsos e percepções circunstanciais, sobretudo nas entrevistas telefônicas”, explicou.
O professor Josué Medeiros, também da UFRJ e coordenador do Observatório Político e Eleitoral (Opel), complementou que as sondagens sobre a operação revelam um campo aberto para disputa de narrativas.
“A clivagem de gênero é determinante: mulheres rejeitam mais a violência enquanto homens tendem a aprová-la. Isso mostra que há espaço para uma política de segurança baseada em inteligência e prevenção, e não em execuções”, analisou.
O desafio da esquerda diante da pauta da segurança
Para Medeiros, o campo progressista precisa apresentar respostas concretas ao sentimento de insegurança da população. “O medo da violência é real e não deve ser subestimado. Quando alguém tem o celular roubado, sente indignação legítima. Esse sentimento pode ser capturado por discursos autoritários se não houver ação efetiva do Estado”, alertou.
Ele defende que os governos progressistas invistam em inteligência, cooperação internacional e combate às finanças do crime organizado, atingindo as estruturas empresariais e financeiras que sustentam o tráfico de armas e drogas.
“É uma disputa entre o populismo punitivista e uma política racional de segurança cidadã”, concluiu.
Promotor da segurança ou da morte
A megaoperação no Rio de Janeiro sintetiza o dilema brasileiro entre ordem e violência, populismo penal e democracia. A morte de mais de cem pessoas — em sua maioria jovens de periferia — reacendeu o debate sobre o papel do Estado como promotor da segurança ou da morte. O episódio consolidou Cláudio Castro como liderança emergente da direita, ao custo de uma política que normaliza a letalidade policial e instrumentaliza o medo como ferramenta eleitoral.
No plano nacional, a resposta do governo Lula foi reativa e desarticulada, demonstrando fragilidade na construção de uma política pública de segurança pautada por inteligência e direitos humanos. O risco, para o campo democrático, é permitir que a defesa da vida seja confundida com complacência ao crime — um equívoco que tem redefinido o tabuleiro político em todo o Ocidente.
*Com informações da Sputnik Brasil.











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