O Salmo Bíblico nº 2 ocupa posição estratégica na tradição judaico-cristã, ao articular temas como poder político, soberania de Deus e esperança messiânica. Atribuído a Davi pela tradição religiosa, o texto é lido tanto como peça ligada à monarquia em Israel quanto como referência central para a compreensão do Messias na teologia cristã, influenciando até hoje interpretações religiosas e debates contemporâneos sobre autoridade e legitimidade.
O Salmo 2 é classificado como salmo régio, isto é, um texto ligado à figura do rei e ao exercício da realeza em Israel e Judá. Logo nos primeiros versículos, apresenta a imagem de nações e governantes que se rebelam contra o Senhor e contra o seu Ungido, configurando um cenário em que a política é vista também como espaço de confronto espiritual.
O texto enfatiza que a oposição ao rei não é apenas uma questão de estratégia militar ou diplomática, mas um movimento que atinge a própria ordem estabelecida por Deus. Por isso, o salmo se tornou referência obrigatória em estudos bíblicos, comentários rabínicos, teologias cristãs e reflexões contemporâneas sobre a relação entre fé e poder.
Atribuição a Davi e leitura tradicional
Na tradição judaica e cristã, o Salmo 2 é geralmente atribuído ao rei Davi. O Novo Testamento, em Atos 4,25, cita o texto como sendo “de Davi”, reforçando essa leitura. No entanto, no texto hebraico tradicional, o salmo não traz título com indicação explícita de autoria, ao contrário de outros salmos.
Do ponto de vista da crítica histórica, muitos estudiosos consideram plausível um núcleo davídico ou um contexto monárquico antigo, ainda que se admita a possibilidade de edições posteriores. A autoria, assim, é entendida tanto como dado de fé da tradição quanto como tema de debate acadêmico.
Monarquia em Sião e releituras pós-exílicas
O pano de fundo histórico mais provável é o da monarquia unida (Davi e Salomão) ou das primeiras fases da monarquia em Judá, com o rei entronizado em Sião (Jerusalém). O conteúdo do salmo sugere:
- contexto de coroação ou reafirmação da aliança entre o rei e Deus;
- cenário de tensões com povos vizinhos, que contestam a hegemonia de Jerusalém;
- defesa da ideia de que Deus é quem legitima o rei e sustenta o seu trono.
Após o exílio babilônico, sem rei davídico no trono, o Salmo 2 passa a ser relido como texto de esperança messiânica, projetando para o futuro a figura de um Ungido ideal que restauraria a justiça e a plena vigência da Torá entre as nações.
O que diz o Salmo 2: Estrutura literária e temas teológicos
Quatro movimentos principais do Salmo 2
A leitura literária identifica quatro blocos principais:
1. Rebelião das nações (vv. 1–3)
O salmo começa com uma pergunta: “Por que se amotinam as nações?”. Povos, reis e príncipes se articulam contra o Senhor e o seu Ungido, manifestando uma rebelião tanto política quanto espiritual. O texto qualifica esses projetos como “coisas vãs”, indicando sua inevitável frustração.
Resposta de Deus no céu (vv. 4–6)
O foco se desloca da terra para o céu. Deus “se rirá” dos planos dos governantes, num recurso de ironia teológica, e depois fala “na sua ira”. A frase decisiva é: “Eu, porém, ungi o meu Rei sobre o meu santo monte de Sião”, reafirmando que a legitimidade do poder vem de Deus, não do cálculo das alianças humanas.
Decreto do Ungido (vv. 7–9)
O próprio Ungido toma a palavra e proclama o decreto divino: “Tu és meu Filho; eu hoje te gerei”. O rei recebe “as nações por herança” e “os fins da terra por possessão”, com a imagem da “vara de ferro” e dos “vasos de oleiro” para representar o juízo. Essa linguagem de filiação expressa adoção real e missão, típica da ideologia régia no Antigo Oriente Próximo.
Convite à prudência e submissão (vv. 10–12)
Ao final, o salmo se dirige a “reis” e “juízes da terra”, conclamando-os à prudência e à instrução. A expressão “Beijai o Filho” ou gesto de homenagem indica submissão consciente ao Ungido. O texto termina com uma bem-aventurança: “bem-aventurados todos os que nele confiam”, abrindo espaço para refúgio e reconciliação.
Estudo histórico-linguístico: termos-chave do texto
“Goyim”, “Mashiach” e “Filho”
“Goyim” – nações
O termo “goyim” designa, em geral, povos não israelitas, evocando um cenário internacional. O salmo, portanto, não descreve apenas conflito interno, mas um tabuleiro geopolítico, no qual Israel e seu rei aparecem em tensão com outras potências.
“Mashiach” – Ungido
Quando o salmo fala em “seu Ungido”, utiliza o termo “Mashiach” (ungido com óleo). No contexto original:
- indica o rei de Israel/Judá, consagrado para governar;
- funciona como título teológico, e não apenas administrativo.
Ao longo da história, Mashiach passa a ser associado à figura do Messias, que, na tradição judaica, é um descendente de Davi chamado a restaurar a ordem justa.
“Filho” e adoção real
A formulação “Tu és meu Filho; eu hoje te gerei” reflete a ideia de que o rei é adotado por Deus no momento da entronização. Não se trata de filiação biológica, mas de um vínculo jurídico e teológico que:
- confere autoridade;
- estabelece o rei como representante de Deus diante do povo.
“Beijai o Filho”: debate de tradução e sentido teológico
A expressão “nashqu bar” e suas leituras
O versículo final traz a expressão hebraica “nashqu bar”, que gera discussões:
- “bar” pode ser lido como termo aramaico para “filho”;
- ou ligado à ideia de pureza, tornando o sentido próximo de “beijai com pureza” ou “prestai homenagem de forma íntegra”.
Tradições antigas, como a Septuaginta (grega) e a Vulgata (latina), bem como diversas traduções cristãs históricas, adotam a leitura “Beijai o Filho”, o que reforça a interpretação cristológica do versículo. Em qualquer hipótese, o gesto aponta para:
- submissão,
- reconhecimento de autoridade,
- e lealdade ao Ungido.
O Salmo 2 na tradição judaica
Leitura régia e esperança messiânica
Na tradição judaica, o Salmo 2 é, antes de tudo, um texto régio, vinculado à dinastia de Davi. Ele:
- afirma que a realeza em Sião é constituída por Deus;
- apresenta a rebelião das nações como resistência ao reinado divino mediado pelo rei.
Com o tempo, o salmo ganha contornos messiânicos, apontando para:
- um rei ideal futuro, descendente de Davi;
- um período em que as nações se submeterão ao Deus de Israel e à sua justiça.
Uso litúrgico, ético e interpretativo
Liturgicamente, o Salmo 2 é associado a reflexões sobre:
- o reinado de Deus (Malchut HaShem);
- a certeza de que, apesar da ascensão e queda de impérios, a história está sob o governo do Eterno.
Eticamente, o texto convida reis e juízes à sabedoria política, lembrando que toda autoridade será medida pela justiça divina. Comentários rabínicos e estudos de tradição judaica frequentemente relacionam o salmo a outros textos proféticos que tratam da restauração de Israel e da vinda do Messias.
O Salmo 2 na tradição cristã
Citações no Novo Testamento e leitura cristológica
Na tradição cristã, o Salmo 2 é um dos textos do Antigo Testamento mais citados no Novo Testamento, sempre com enfoque cristológico:
- Atos 4,25–27 aplica a conspiração das nações à união de Herodes, Pilatos, gentios e judeus contra Jesus;
- Atos 13,33 e Hebreus 1,5; 5,5 interpretam “Tu és meu Filho; eu hoje te gerei” à luz da ressurreição e exaltação de Cristo;
- Apocalipse 2,27; 12,5; 19,15 retoma a imagem da “vara de ferro” como símbolo do governo de Cristo sobre as nações.
Cristologia régia e impacto doutrinário
Na leitura cristã clássica:
- o Ungido do Salmo 2 é identificado com Cristo, o Filho de Deus;
- o salmo é compreendido como uma profecia messiânica, em sentido pleno.
Essa interpretação sustenta uma cristologia régia, segundo a qual:
- Cristo é o Rei universal, diante do qual todo poder humano é relativizado;
- o convite à confiança e ao “beijo” de homenagem é entendido como apelo à fé e obediência a Cristo;
- o juízo das nações e o refúgio oferecido aos que nele confiam convergem na figura de um Messias que é, ao mesmo tempo, juiz e abrigo.
Análise crítica jornalística
O Salmo 2 permite observar como tradições religiosas constroem discursos sobre poder, legitimidade e justiça. O texto:
- relativiza a autoridade dos governantes terrenos, ao colocá-los sob a avaliação de um Deus soberano;
- apresenta a rebelião contra Deus como projeto politicamente ambicioso, mas teologicamente inconsistente;
- é utilizado histórica e teologicamente para interpretar conflitos entre impérios, crises políticas e perseguições religiosas.
Ao mesmo tempo, o salmo suscita questões importantes:
- leituras que identificam diretamente um governo, partido ou líder com o “Ungido” podem gerar instrumentalização política do texto;
- a crítica à arrogância dos reinos humanos pode servir como alerta contra qualquer forma de absolutização do poder estatal, ideológico ou religioso;
- a tensão entre juízo e refúgio — ira e bem-aventurança — obriga intérpretes a lidar com a complexidade do texto, evitando leituras simplistas.
No conjunto, o Salmo 2 continua sendo uma referência central para compreender como judaísmo e cristianismo articulam fé, poder e esperança, ao mesmo tempo em que exige cuidado para não ser reduzido a slogan político ou justificativa para projetos circunstanciais.
A tradução mais conhecida em língua portuguesa que está em domínio público — portanto, pode ser reproduzida integralmente — é a Almeida Revista e Corrigida (ARC) de 1899, derivada da tradução clássica de João Ferreira de Almeida.
Íntegra do Salmo 2
1 Por que se amotinam as nações,
e os povos imaginam coisas vãs?
2 Os reis da terra se levantam,
e os príncipes juntos se mancomunam
contra o Senhor e contra o seu Ungido, dizendo:
3 Rompamos as suas ataduras
e sacudamos de nós as suas cordas.
4 Aquele que habita nos céus se rirá;
o Senhor zombará deles.
5 Então lhes falará na sua ira
e no seu furor os turbará.
6 Eu, porém, ungi o meu Rei
sobre o meu santo monte de Sião.
7 Proclamarei o decreto:
o Senhor me disse:
Tu és meu Filho;
eu hoje te gerei.
8 Pede-me, e eu te darei as nações por herança,
e os fins da terra por tua possessão.
9 Tu os quebrarás com vara de ferro;
tu os despedaçarás como um vaso de oleiro.
10 Agora, pois, ó reis, sede prudentes;
deixai-vos instruir, juízes da terra.
11 Servi ao Senhor com temor
e alegrai-vos com tremor.
12 Beijai o Filho,
para que se não ire,
e pereçais no caminho,
quando em breve se acender a sua ira;
bem-aventurados todos os que nele confiam.
*Carlos Augusto, jornalista, cientista social e diretor do Jornal Grande Bahia.











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