Secretário-geral da ONU alerta para “momento decisivo” na COP30 e cobra triplo do financiamento climático até 2030

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, afirmou em Belém, nesta quinta-feira (20/11/2025), que o mundo chegou a um “momento decisivo” na luta contra a crise climática e cobrou avanços sólidos nas negociações da COP30, realizada em Belém. Em coletiva de imprensa, Guterres destacou que o planeta vive um ponto de inflexão histórico, exigindo decisões imediatas sobre financiamento, adaptação e redução de emissões. O líder da ONU pediu que os países mantenham a meta de 1,5°C como “única linha vermelha”.

Guterres iniciou seu pronunciamento ressaltando que comunidades de todo o mundo já sofrem com inundações, perdas de colheitas e deslocamentos forçados. Segundo ele, décadas de atrasos e negacionismo agravaram a situação e tornaram inevitável um pico temporário acima de 1,5°C no início da década de 2030.

O secretário-geral enfatizou que ainda é possível retomar a trajetória abaixo desse limite até o final do século, desde que as decisões tomadas em Belém acelerem ações de mitigação e adaptação.

Ele pediu às delegações flexibilidade e disposição para consenso, afirmando que nenhum país deixará a COP com tudo o que deseja, mas todos têm a responsabilidade de chegar a um acordo equilibrado que proteja populações vulneráveis.

Adaptação climática como prioridade global

Para Guterres, a adaptação é uma questão de “sobrevivência e justiça”. Ele destacou que o compromisso dos países desenvolvidos de dobrar o financiamento para adaptação até 2025 está se perdendo, apesar do rápido agravamento das necessidades climáticas.

O secretário-geral defendeu:

  • Triplicar o financiamento para adaptação até 2030;
  • Capitalizar o Fundo de Perdas e Danos, considerado “praticamente vazio”;
  • Facilitar o acesso dos países vulneráveis aos recursos internacionais;
  • Proteger os povos indígenas, cujo papel é essencial na manutenção dos ecossistemas.

Redução de emissões e transição energética

Dez anos após o Acordo de Paris, Guterres reconheceu avanços, mas alertou que as atuais NDCs colocam o mundo no caminho para mais de 2°C de aquecimento, o que classificou como “sentença de morte” para milhões de pessoas.

Ele defendeu que os países:

  • Atingam o pico das emissões imediatamente;
  • Reduzam emissões pela metade até 2030;
  • Alcancem emissões líquidas zero até 2050;
  • Avancem para emissões negativas após esse período.

Guterres reforçou a necessidade de uma transição justa e ordenada para longe dos combustíveis fósseis, conforme pactuado na COP28, combatendo a desinformação e apoiando trabalhadores afetados pela mudança de matriz energética.

O secretário-geral também pediu:

  • Aceleração de investimentos em energia limpa, redes elétricas e armazenamento;
  • Avanço na redução de metano;
  • Cumprimento do compromisso global de zerar o desmatamento até 2030.

A urgência do financiamento climático

Segundo Guterres, nenhuma das metas globais poderá ser atingida sem financiamento previsível e acessível. Ele cobrou um caminho claro para alcançar a Meta Financeira de Baku, que prevê:

  • Mobilização de US$ 300 bilhões por ano até 2035;
  • Caminho definido para atingir US$ 1,3 trilhão por ano até o mesmo período.

Guterres afirmou que bancos multilaterais de desenvolvimento precisam se tornar “maiores, melhores e mais ousados”, ampliando empréstimos e alavancando financiamento privado. Para ele, se a atual arquitetura financeira internacional não for capaz de responder à crise, sua reforma deixará de ser alternativa para se tornar obrigatória.

Apelo final aos negociadores

Antes de viajar para o G20 na África do Sul, Guterres fez um último apelo: que as delegações em Belém atuem “em boa fé” para chegar a um acordo ambicioso e mantenham 1,5°C como linha vermelha inegociável. Ele pediu liderança, coragem e compromisso com a ciência, afirmando que o foco deve estar nas pessoas, e não no lucro.

Expectativas globais

A fala de António Guterres insere a COP30 no centro das expectativas globais ao apresentar Belém como palco decisivo para a redefinição das políticas climáticas. O discurso combina realismo científico e pressão diplomática, reforçando que o tempo político não acompanha a velocidade da deterioração ambiental. O secretário-geral buscou equilibrar cobrança e pragmatismo, mas expôs a fragilidade dos financiamentos prometidos e a lentidão dos grandes emissores.

A proposta de triplicar o financiamento de adaptação e de reformar o sistema financeiro internacional evidencia uma mudança estrutural exigida pela crise. No entanto, permanece a incerteza sobre a disposição dos países desenvolvidos em assumir compromissos vinculantes. A COP30, ao abrigar povos indígenas, países vulneráveis e grandes emissores, torna-se um teste de credibilidade da governança climática global e da própria capacidade de coordenação multilateral.


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