A Guerra de Canudos, deflagrada em 1896 no sertão baiano, permanece um dos episódios mais controversos da história brasileira. A ofensiva da República contra a comunidade liderada por Antônio Conselheiro resultou em um massacre que, segundo o desembargador do Tribunal de Justiça da Bahia (TJBA) Cássio Miranda, “somente se explica pela força da mentira como arma política”. O jurista, em artigo intitulado “Sete mentiras sobre a Jerusalém de Taipa”, revisita mitos perpetuados desde o século XIX para restaurar o lugar histórico de Canudos e de seu líder espiritual.
Miranda recorda a máxima do dramaturgo grego Ésquilo — “numa guerra, a primeira vítima é a verdade” — e observa que o conflito no sertão foi precedido por um processo sistemático de difamação. As versões oficiais, muitas sustentadas pela elite republicana e por intelectuais da época, distorceram fatos, ocultaram interesses e tentaram justificar o extermínio de uma comunidade que ousou viver à margem do sistema político e econômico dominante.
O estigma da loucura e a resistência popular
A primeira falsidade, segundo o autor, foi a imagem de Conselheiro como um louco ou fanático religioso, propagada por nomes como Nina Rodrigues e Euclides da Cunha. Ao contrário da caricatura criada, o líder sertanejo era um homem pragmático, que defendia uma forma de vida coletiva e autossustentável. “Não era preciso morrer para ter uma vida melhor no além”, pregava. A comunidade de Canudos representava, assim, uma utopia social de igualdade e solidariedade no coração do sertão nordestino.
Miranda relembra que a “loucura” do Conselheiro estava em desafiar o poder: opôs-se à escravidão, à concentração fundiária e à aliança entre o Estado republicano e a Igreja. Sua proposta comunitária contrariava o modelo oligárquico e hierárquico imposto pelas elites, o que o transformou em inimigo político a ser eliminado.
O “gnóstico bronco” e o homem das letras
A segunda mentira foi a de retratar o Conselheiro como um “vadio ignorante”. O artigo desmonta a narrativa euclidiana ao lembrar que Antônio Vicente Mendes Maciel foi comerciante, professor, advogado provisionado e construtor de igrejas e açudes. Era leitor da Utopia de Thomas Morus e, inspirado por ela, sonhava com uma sociedade igualitária.
O desembargador ressalta que o sertanejo foi vítima de um preconceito intelectual que desconsiderou sua formação e visão de mundo. Enquanto o presidente Prudente de Morais, primeiro civil eleito após o Império, via Canudos como uma ameaça à ordem, o Conselheiro se limitava a defender uma experiência de autonomia e justiça social.
O mito da tragédia amorosa e a transformação espiritual
A terceira mentira associa a trajetória de Antônio Conselheiro a um drama amoroso, alegando que sua esposa, Brasilina Laurentina, o teria abandonado, levando-o à peregrinação. Miranda rebate essa versão e lembra que sua jornada espiritual foi inspirada não por uma decepção pessoal, mas pela influência do padre Ibiapina, missionário cearense que dedicou a vida aos pobres.
O Conselheiro, afirma o texto, transformou a dor em fé ativa, pregando o trabalho e a fraternidade em vez da submissão e da caridade passiva.
Calúnia, prisão e o fortalecimento da fé
A quarta falsidade surgiu em 1876, quando foi acusado de assassinar a esposa e a mãe. Preso injustamente, suportou espancamentos sem reagir e foi inocentado após investigação. O episódio, segundo o desembargador, consolidou a imagem de resignação e coragem moral que o tornaria símbolo de liderança entre os sertanejos. “Mais do que ele havia sofrido Jesus Cristo”, teria respondido ao ser questionado sobre os maus-tratos.
O exército estrangeiro inexistente e o medo das elites
A quinta mentira nasceu da propaganda republicana, que acusava Canudos de abrigar mercenários europeus comandados pelo Conde d’Eu. A invenção buscava legitimar a repressão, apresentando o movimento como uma conspiração monarquista. A narrativa, entretanto, carece de qualquer fundamento histórico. Os jornais que tentaram desmenti-la foram empastelados no Rio de Janeiro, evidenciando o controle político sobre a informação.
O falso separatismo e o “reino” do sertão
A sexta mentira é a de que Canudos representava um movimento separatista. O coronel Davis Ribeiro de Sena, em 1993, afirmou que o arraial era uma “secessão”. Miranda refuta a tese com veemência: “Canudos era o Brasil; era o povo pobre tentando erguer-se contra a injustiça social e a opressão”.
Não houve declaração de independência nem tentativa de ruptura territorial. O povoado vivia de uma economia de subsistência e só reagiu quando atacado. O Exército, em quatro expedições sucessivas, destruiu o arraial — um reino sem rei, símbolo de solidariedade popular, cujas ruínas repousam sob o açude de Cocorobó.
A santidade negada e o legado humano
A sétima e última mentira apresenta o Conselheiro como embusteiro ou fazedor de milagres. Não há registro de que ele tenha se proclamado santo ou curandeiro. Suas ações eram pautadas pela pregação dos evangelhos e pela prática comunitária.
O desembargador destaca que o líder sertanejo “jamais usurpou funções sacerdotais”, e que sua verdadeira missão foi restaurar a dignidade dos esquecidos. Canudos, rebatizada como Belo Monte, tornou-se um projeto de vida em comum, destruído pela violência estatal e pelos interesses da oligarquia republicana.
Revisão histórica e permanência simbólica
O texto de Cássio Miranda integra o movimento contemporâneo de revisão historiográfica da Guerra de Canudos, que questiona as interpretações eurocêntricas e racistas predominantes no final do século XIX. Para o autor, o episódio deve ser compreendido não como uma “rebelião insana”, mas como um ato de resistência popular diante da exclusão política e econômica imposta pelo nascente regime republicano.
O silêncio que se seguiu ao massacre de 1897, observa o jurista, permanece como metáfora da repressão às vozes dissidentes, denunciando o modo como o poder político se perpetua pela eliminação simbólica e material da diferença.
Memória e justiça histórica
A releitura proposta por Cássio Miranda situa Canudos no campo da memória e da justiça histórica, rompendo com o discurso oficial que criminalizou o sertanejo e exaltou o Estado. O autor defende a necessidade de reexaminar as fontes e os preconceitos que moldaram a narrativa nacional, revelando o conflito como espelho das contradições entre poder e povo, progresso e exclusão, verdade e propaganda.
Ao desmontar as sete mentiras sobre Canudos, o autor restitui dignidade aos vencidos e reafirma a urgência de compreender o episódio não apenas como tragédia, mas como símbolo persistente da luta por reconhecimento e justiça no Brasil.
*Cássio José Barbosa Miranda, conhecido como Cássio Miranda, é desembargador do Tribunal de Justiça da Bahia (TJBA), onde exerce também a função de presidente da Comissão Permanente de Memória e do Fórum de Memória, instâncias vinculadas à Universidade Corporativa (Unicorp) do TJBA.

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