O Congresso Nacional aprovou, nesta quinta-feira, a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2026, estabelecendo diretrizes para a elaboração da Lei Orçamentária Anual (LOA) e fixando meta de superávit primário de R$ 34,3 bilhões, equivalente a 0,25% do PIB. O texto, que autoriza o governo a perseguir o piso da meta fiscal, segue agora para sanção presidencial. A expectativa é que a LOA seja votada ainda na próxima semana, concluindo o ciclo orçamentário.
A LDO define limite de despesas de R$ 2,43 trilhões para 2026, crescimento permitido pelo novo arcabouço fiscal com margem acima da inflação de até 2,5%. O projeto também prevê salário mínimo estimado em R$ 1.627 em janeiro, valor a ser confirmado após o IPCA de novembro. Além disso, o texto desvincula restrições de gasto dos fundos partidário e eleitoral, que somam R$ 5,9 bilhões, cifras que não poderão ser contingenciadas.
No centro das negociações, o relator Gervásio Maia (PSB-PB) destacou a necessidade de rever benefícios fiscais que chegam a R$ 700 bilhões anuais, defendendo que incentivos sejam direcionados a setores que necessitem efetivamente de suporte econômico. Segundo ele, uma reestruturação poderia liberar cerca de R$ 20 bilhões para investimentos públicos.
Regras fiscais, emendas e fundos partidários estruturam o texto final
A aprovação ocorreu em meio a intenso debate sobre responsabilidade fiscal, execução de emendas e composição do gasto público. A LDO determina que 65% das emendas obrigatórias — individuais e de bancadas — devem ser pagas até o fim do primeiro semestre de 2026, ano eleitoral. A medida atende ao pleito do Congresso por previsibilidade de repasses, reduzindo margem de contingenciamento.
Também foi incluída a permissão para que Correios realizem déficit de até R$ 10 bilhões fora da meta das estatais, medida vinculada ao plano de reequilíbrio econômico-financeiro da empresa. A iniciativa dispensa compensações fiscais imediatas por parte do governo.
Parlamentares aprovaram, ainda, regra que impede aumento de gasto tributário e criação de novos fundos públicos, salvo em situações de calamidade. O partido Novo foi o único contrário ao texto, criticando a autorização para perseguir o piso da meta, o que, segundo opositores, abre espaço para trajetória fiscal mais flexível.
Outro ponto sensível foi o ajuste retroativo do fundo partidário desde 2016, seguindo o arcabouço fiscal, com aumento de até 2,5% acima da inflação, acréscimo estimado em cerca de R$ 160 milhões às legendas. Embora o dispositivo tenha sido aprovado, integrantes do governo indicaram possibilidade de veto presidencial.
Pontos centrais da LDO 2026
Meta Fiscal
- Superávit primário projetado: R$ 34,3 bilhões (0,25% do PIB)
- Governo autorizado a perseguir piso da meta (déficit zero) em caso de necessidade
Despesa e investimentos
- Limite de gastos: R$ 2,43 trilhões
- Crescimento permitido acima da inflação: até 2,5%
- Empresas estatais com plano de reequilíbrio podem ter até R$ 10 bilhões fora da meta
Recursos eleitorais e partidários
- Fundo eleitoral 2026: R$ 4,9 bilhões
- Fundo partidário: R$ 1 bilhão, com correção retroativa
Emendas parlamentares
- Pagamento mínimo de 65% até junho de 2026
- Emendas PIX: mínimo de R$ 200 mil para obras e R$ 150 mil para serviços
- Prazo de análise de propostas por órgãos federais reduzido para 100 dias
Municípios e repasses
- Cidades com menos de 65 mil habitantes dispensadas de comprovar adimplência para convênios
- Autorizada destinação de recursos para rodovias estaduais e municipais
- Permite repasses a entidades sem fins lucrativos na área da saúde para obras físicas
Entre responsabilidade fiscal e pressões políticas
A aprovação da LDO 2026 consolida um cenário de ajuste fiscal moderado, no qual o governo obtém autorização legal para buscar o piso da meta, flexibilizando o cumprimento do superávit em período de incerteza arrecadatória. A decisão, embora pragmática, levanta alerta sobre sustentabilidade da dívida pública, caso a arrecadação não acompanhe o ritmo projetado.
A manutenção de fundos partidário e eleitoral fora do bloqueio orçamentário, somada ao reajuste retroativo, reforça o peso do financiamento político dentro do orçamento público e tende a ampliar debates sobre prioridades de gasto em ano eleitoral. O cronograma de emendas fortalece articulação entre governo e Congresso, influenciando pactos legislativos ao longo de 2026.
A LDO, portanto, resguarda o funcionamento institucional do orçamento, porém expõe tensões entre austeridade fiscal, demanda parlamentar e capacidade de investimento do Estado, em um contexto de recuperação econômica lenta. A execução ao longo de 2026 será determinante para avaliar se o equilíbrio proposto será suficiente para estabilizar a dívida e preservar políticas públicas essenciais.
Principais Dados
1. Meta fiscal e resultados primários
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Meta de resultado primário 2026: superávit de R$ 34,3 bilhões
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Percentual do PIB: 0,25% do PIB
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Margem de tolerância: ± 0,25% do PIB
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Resultado mínimo admitido: déficit zero (piso da meta)
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Projeções:
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2027: superávit de 0,5% do PIB
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2028: superávit de 1% do PIB
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Limite de despesas e arcabouço fiscal
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Limite de despesas em 2026: R$ 2,43 trilhões
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Crescimento real permitido: até 2,5% acima da inflação (regra do arcabouço fiscal)
Salário mínimo
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Salário mínimo estimado em 2026: R$ 1.627,00
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Definição final: após divulgação do IPCA de novembro
Benefícios fiscais e renúncias
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Montante anual de benefícios fiscais: cerca de R$ 700 bilhões
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Potencial de liberação para investimentos com revisão parcial: cerca de R$ 20 bilhões, segundo o relator
Fundos eleitoral e partidário
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Fundo eleitoral (eleições 2026): R$ 4,9 bilhões
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Fundo partidário: R$ 1 bilhão
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Reajuste do fundo partidário: correção retroativa desde 2016, pela inflação + até 2,5% de ganho real (arcabouço)
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Recursos dos fundos: incluídos entre as despesas que não podem ser contingenciadas
Emendas parlamentares
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Pagamento mínimo obrigatório: 65% das emendas até o fim do 1º semestre de 2026
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Abrangência:
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Emendas individuais
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Emendas de bancadas estaduais
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Transferências especiais para fundos de saúde e assistência social
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Prazo para análise de propostas e ajustes por órgãos federais: 100 dias
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Emendas PIX (transferências especiais):
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Valor mínimo para obras: R$ 200 mil
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Valor mínimo para serviços: R$ 150 mil
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Uso de emendas coletivas: permitido para pagamento de despesas com pessoal ativo na saúde
Estatais, Correios e Programa de Dispêndios Globais
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Meta de déficit primário das estatais federais não dependentes: R$ 6,7 bilhões
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Despesa adicional fora da meta para empresas com plano de reequilíbrio: até R$ 10 bilhões
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Correios: principais beneficiados pelo dispositivo (reestruturação e reequilíbrio financeiro)
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Empresas excluídas da meta de déficit primário:
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Grupo Petrobras
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Estatais da ENBPar (energia nuclear e binacional)
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Despesas de investimento do Novo PAC, até R$ 5 bilhões
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Municípios e transferências
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Municípios dispensados de comprovar adimplência para convênios: cidades com menos de 65 mil habitantes
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Transferências para entidades privadas sem fins lucrativos (saúde): autorizadas para obras físicas, conforme regulamentação do Ministério da Saúde
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Rodovias: autorizada destinação de recursos da União para construção e manutenção de rodovias estaduais e municipais ligadas:
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à integração de modais
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ao escoamento da produção
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Restrições e travas de gasto em 2026
Proibidos em 2026 (salvo calamidade pública):
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Ampliação, prorrogação ou extensão do gasto tributário
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Criação de novas despesas obrigatórias
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Criação de novos fundos para financiamento de políticas públicas
Outras despesas protegidas (não sujeitas a limitação)
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Pesquisas da Embrapa
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Fundo eleitoral
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Defesa agropecuária
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Seguro rural
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Outras despesas listadas como não contingenciáveis na LDO











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