As medidas anunciadas pela direção dos Correios para enfrentar a crise financeira da estatal avançam na direção do ajuste fiscal, mas são consideradas insuficientes para reverter o quadro de prejuízos bilionários e perda acelerada de participação no mercado de logística. Especialistas avaliam que, diante da magnitude do déficit, da rigidez de custos e das limitações impostas pela governança estatal, a privatização ou abertura de capital surge como alternativa praticamente incontornável, apesar de o tema ser rejeitado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Déficit crescente e alcance limitado das medidas
Os Correios devem encerrar 2025 com prejuízo estimado em R$ 10 bilhões, número que pode mais do que dobrar em 2026, alcançando até R$ 23 bilhões em cenário de estresse. O plano de recuperação apresentado pela empresa prevê corte de R$ 2,1 bilhões em despesas em uma primeira etapa e economia potencial de até R$ 4,2 bilhões anuais no médio prazo, valores considerados modestos frente à dimensão do rombo projetado.
Economistas destacam que o problema dos Correios é estrutural. A estatal opera em um mercado altamente competitivo, com concorrentes privados mais ágeis, enquanto mantém uma estrutura de custos rígida e intensiva em mão de obra. A participação da empresa no mercado de entregas logísticas caiu de 51% para menos de 25% em poucos anos, evidenciando perda de eficiência operacional e capacidade de resposta.
Além disso, parte relevante das medidas anunciadas tende a produzir efeitos apenas no longo prazo. Programas de demissão voluntária e venda de imóveis públicos exigem desembolsos iniciais e enfrentam entraves burocráticos, o que reduz seu impacto imediato sobre o caixa da empresa.
Empréstimos, garantia da União e pressão sobre o Tesouro
Para sustentar o plano de reestruturação, os Correios contrataram empréstimo de R$ 12 bilhões junto a um consórcio formado por Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Bradesco, Itaú e Santander, com garantia do Tesouro Nacional. Do total, R$ 10 bilhões entram no caixa ainda em 2025, e os R$ 2 bilhões restantes até janeiro de 2026.
Mesmo com essa operação, a direção da estatal admite a necessidade de captar mais R$ 8 bilhões em 2026, sem definição se os recursos virão de novo crédito ou de aporte direto da União. Especialistas alertam que esse movimento transfere o risco financeiro para o contribuinte e pode se tornar recorrente, caso não haja mudança estrutural no modelo de negócios.
O custo do empréstimo, fixado em 115% do CDI, foi considerado dentro do limite estabelecido pelo Tesouro, mas a excepcionalidade da concessão de garantia soberana reacendeu críticas sobre o uso de recursos públicos para sustentar estatais deficitárias.
Governança, passivos e entraves institucionais
Analistas apontam que os Correios enfrentam problemas clássicos de governança, comuns a empresas públicas submetidas à pressão política. Há, ainda, um passivo contingente elevado, sobretudo trabalhista, que limita a capacidade de reorganização e impõe incertezas jurídicas ao plano de ajuste.
Outro fator de risco é o calendário político. A implementação de medidas duras, como fechamento de cerca de 1.000 agências e desligamento de 15 mil empregados, ocorre às vésperas de um ano eleitoral, cenário que tende a ampliar resistências internas, pressões sindicais e judicialização.
Nesse contexto, mesmo iniciativas como parcerias empresariais ou diversificação de receitas são vistas como insuficientes para recuperar a competitividade da estatal sem uma mudança mais profunda em sua estrutura societária.
Privatização e alternativas em debate
Para parte dos especialistas, a privatização integral ou parcial representa a saída mais consistente para preservar a operação logística dos Correios sem perpetuar prejuízos históricos. Uma das propostas é segregar os passivos do passado, permitindo a venda ou abertura de capital apenas da parte economicamente viável da empresa.
Serviços considerados essenciais, como o atendimento a regiões remotas, poderiam ser mantidos por meio de modelagem regulatória específica, a exemplo do que ocorreu nos setores de saneamento, energia elétrica e telecomunicações. Essa abordagem permitiria combinar eficiência privada com obrigações de universalização claramente definidas.
A alternativa de parcerias público-privadas, por sua vez, é vista com ceticismo, pois tende a exigir novos aportes públicos sem garantir a superação dos problemas estruturais da estatal.
Ajuste limitado e custo crescente para o Estado
A crise dos Correios revela os limites de planos de reestruturação graduais diante de déficits acumulados e perda acelerada de mercado. As medidas anunciadas sinalizam disposição para o ajuste, mas não enfrentam, de forma decisiva, o núcleo do problema: governança fragilizada, estrutura de custos rígida e interferência política recorrente.
O recurso a empréstimos com garantia da União transfere o ônus do risco ao Tesouro e postega decisões estruturais, criando a expectativa de novos aportes no futuro. Essa dinâmica reforça a percepção de que o atual modelo é financeiramente insustentável no médio prazo.
Ao descartar a privatização, o governo preserva o controle estatal, mas assume custos crescentes e riscos fiscais relevantes. O debate, portanto, deixa de ser ideológico e passa a ser institucional e econômico, envolvendo eficiência, responsabilidade fiscal e qualidade do serviço público.
*Com informações da Folha de S.Paulo, Estadão, Veja e Poder360.
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