Facção ‘evangélica’ Terceiro Comando Puro se consolida como terceira força do crime organizado no Brasil e avança com intolerância religiosa até o Ceará

Segunda-feira (01/12/2025) — A expansão acelerada do Terceiro Comando Puro (TCP), facção originada no Rio de Janeiro e marcada pela adoção de símbolos e retóricas do neopentecostalismo, consolidou o grupo como a terceira maior força do crime organizado no Brasil, atrás apenas do PCC e do Comando Vermelho. Segundo a Agência Brasileira de Inteligência (Abin), o TCP já opera em pelo menos dez Estados, impulsionado por alianças estratégicas, ocupação violenta de territórios, cooptação de facções menores e episódios de intolerância religiosa, especialmente no Ceará, onde a facção avançou sobre bairros de Maracanaú, fechou terreiros de umbanda e estabeleceu parceria com o Guardiões do Estado (GDE).

A combinação entre poder armado, discurso religioso mobilizador e capacidade de articulação nacional revela um fenômeno inédito na estrutura criminal brasileira e reacende alertas sobre o avanço do “narcopentecostalismo”, além de evidenciar a fragilidade do Estado em áreas marcadas por desigualdade, ausência de políticas públicas e vulnerabilidade juvenil.

Expansão nacional do TCP e consolidação do Complexo de Israel

A expansão do Terceiro Comando Puro (TCP) deixou de ser um fenômeno restrito ao Rio de Janeiro e se converteu em um movimento nacional, permeado por alianças interestaduais, uso de símbolos religiosos e fortalecimento territorial. Como reporta Camilla Veras Mota, da BBC News Brasil, a destruição da estrela de Davi em neon, durante uma operação da Polícia Militar em Parada de Lucas (RJ), expôs apenas a face mais visível da facção que domina o chamado Complexo de Israel, criado em 2020. O grupo combina poder armado, iconografia cristã e retórica neopentecostal para afirmar presença e atrair novos integrantes.

Segundo Pedro Souza Mesquita, coordenador-geral de análise de conjuntura da Abin, o TCP tornou-se o “terceiro emergente do contexto nacional”, com atuação já confirmada em Espírito Santo, Minas Gerais, Goiás, Bahia, Ceará, Amapá, Acre, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul. Essa expansão ocorre mesmo com seu líder, Álvaro Malaquias Santa Rosa, o “Peixão”, foragido e jamais submetido ao sistema prisional, apesar de investigações e da destruição de um “resort clandestino” construído em área de proteção ambiental.

A chegada ao Ceará e o avanço da intolerância religiosa

A entrada do TCP no Ceará nos últimos meses produziu impactos imediatos. Bairros de Maracanaú passaram a exibir estrelas de Davi apagadas, pichações com “Jesus é dono do lugar” e relatos de fechamento de terreiros de umbanda após ameaças atribuídas à facção. O delegado-geral Márcio Gutiérrez confirmou a presença da organização em setembro de 2025, quando 37 integrantes foram presos na Região Metropolitana de Fortaleza.

A Polícia Civil investiga também a escalada de ataques a espaços de matriz africana, prática já documentada no Rio e associada ao uso religioso como instrumento de dominação territorial. Para Carolina Grillo, pesquisadora da UFF, esse padrão reflete o processo típico de nacionalização das facções, no qual grupos locais menores aderem a organizações maiores em troca de armas, drogas e estruturas de proteção.

A aliança com o Guardiões do Estado (GDE)

O processo de expansão no Ceará se fortaleceu com a aproximação entre o TCP e o Guardiões do Estado (GDE), facção marcada por eventos de violência extrema entre 2017 e 2018 — entre eles, a chacina que deixou 14 mortos em uma casa de shows em Fortaleza. Após perdas internas e repressão intensa, parte do GDE migrou para o Rio e se integrou ao TCP, consolidando a cooperação interestadual.

A Polícia Civil monitora intercâmbios que incluem troca de inteligência, logística compartilhada e padronização de métodos violentos, como cobrança de “pedágios”, extorsões e controle de circulação em bairros. A simbiose entre TCP e GDE reproduz práticas típicas do CV e de milícias, ampliando a pressão sobre comunidades vulneráveis.

Religião, poder simbólico e o avanço do “narcopentecostalismo”

O TCP consolidou um repertório religioso próprio que fortalece sua estrutura interna. A pesquisadora Christina Vital da Cunha, da UFF, documentou a substituição de grafites ligados a religiões afro-brasileiras por imagens cristãs, cruzes e inscrições bíblicas em territórios dominados pela facção. Esse fenômeno, chamado de “narcopentecostalismo”, envolve apropriação de símbolos religiosos para legitimar práticas criminosas e construir identidade coletiva.

A pesquisadora Kristina Hinz, da Uerj, afirma que a retórica de “guerra espiritual” produz efeitos profundos dentro da facção, pois reforça disciplina interna, cria coerência ideológica e justifica a violência como ato de “purificação”. Nesse contexto, o inimigo — especialmente o CV, historicamente associado a terreiros — passa a ser apresentado como adversário moral e espiritual, não apenas territorial.

Esse uso instrumental da religião não é um adorno simbólico: funciona como tecnologia de poder, capaz de ordenar territórios, impor normas sociais e ampliar o controle sobre comunidades.

Pobreza, desigualdade e território como motores da expansão

O crescimento do TCP se apoia em fatores socioeconômicos estruturais. O sociólogo Luiz Fábio Silva Paiva, da UFC, destaca uma combinação que favorece a expansão do crime organizado no Ceará:

• posição estratégica nas rotas do narcotráfico;
• aumento do consumo;
• grande reserva de mão de obra jovem;
• persistência de desigualdades, mesmo com o crescimento econômico recente.

Embora o Estado tenha reduzido índices de homicídios nos últimos anos, cidades como Maranguape e Maracanaú permanecem entre as mais violentas do país, refletindo a fragilidade institucional diante de facções em ascensão.

Silêncio imposto às comunidades e medo constante

Em bairros dominados por grupos rivais, moradores relatam viver sob “chuvas de bala”, fronteiras invisíveis e regras impostas pelas facções. Famílias inteiras evitam circular entre áreas controladas por grupos diferentes, temendo retaliações, execuções sumárias e desaparecimentos.

Organizações como a Visão Mundial relatam que jovens recusam falar sobre segurança pública para não sofrer represálias. Casos recentes, como o assassinato de estudantes em Sobral após ameaças, demonstram a incapacidade do Estado em proteger crianças e adolescentes que vivem em territórios capturados pela violência.

Narcopoder, expansão e risco institucional

A ascensão do TCP como terceira força do crime organizado no Brasil revela uma combinação especialmente perigosa: poder armado, retórica religiosa mobilizadora e capacidade de articulação nacional. A expansão acelerada da facção para fora do Rio de Janeiro demonstra que Estados historicamente vulneráveis, como Ceará e Bahia, podem enfrentar novos ciclos de violência, marcados por disputas territoriais e choques entre facções rivais.

O uso instrumental da religião pelo TCP, transformando símbolos cristãos em elemento identitário e político, cria uma narrativa própria que fortalece a coesão interna e amplia o alcance territorial. Essa fusão entre crime organizado e discurso religioso dificulta estratégias de repressão tradicionais, exigindo do Estado respostas que enfrentem não apenas estruturas criminosas, mas também dimensões simbólicas, culturais e ideológicas que conferem legitimidade aos grupos armados.

A ausência de políticas públicas contínuas — especialmente nas áreas de prevenção social, educação e infraestrutura urbana — somada à desigualdade persistente e à influência das facções sobre a juventude, agrava o risco de expansão da violência armada nas grandes e médias cidades brasileiras. Esse ambiente torna-se fértil para recrutamento, fortalecimento de redes de proteção e consolidação de territórios controlados.

Forças hegemônicas do crime

O panorama atual é dominado por três grandes organizações: Primeiro Comando da Capital (PCC), Comando Vermelho (CV) e Terceiro Comando Puro (TCP). Essas facções funcionam como centros de gravidade do crime organizado, ao redor dos quais orbitam grupos regionais que se alinham a elas em busca de proteção, armamento, drogas e suporte logístico.

No Rio de Janeiro, entretanto, um fenômeno distinto amplia o quadro: a presença das milícias, estruturas híbridas que combinam agentes públicos, economia paralela e domínio territorial. Elas concentram atividades como extorsão, grilagem, monopólio de serviços e controle armado de comunidades, ocupando espaços tradicionalmente pertencentes ao Estado.

Essa teia complexa mostra que o crime organizado brasileiro já ultrapassou o narcotráfico. Hoje, articula-se com economias paralelas, corrupção institucional, fraudes financeiras, rotas internacionais de drogas e mecanismos cada vez mais sofisticados de lavagem de dinheiro. Trata-se de um ecossistema criminal que opera com lógica empresarial, disputa política e capacidade de infiltração em estruturas formais de poder.

Principais facções e organizações criminosas do Brasil

1. Primeiro Comando da Capital (PCC)

Origem: São Paulo, início dos anos 1990
Atuação: Presente em todos os Estados brasileiros e em países vizinhos
Características:

  • A facção mais estruturada do país, com forte hierarquia interna.
  • Atua em tráfico de drogas nacional e internacional, armas, assaltos e lavagem de dinheiro.
  • Possui ampla influência em presídios e articulação com grupos sul-americanos, especialmente no Paraguai e na Bolívia.

2. Comando Vermelho (CV)

Origem: Rio de Janeiro, década de 1970
Atuação: Forte presença no RJ e expansão pelo Norte e Nordeste
Características:

  • Tráfico de drogas, armas e domínio territorial em comunidades.
  • Estrutura menos centralizada que o PCC, com maior autonomia das bases.
  • Conflitos frequentes com o PCC em vários Estados.

3. Terceiro Comando Puro (TCP)

Origem: Rio de Janeiro, 2002
Atuação: Expansão recente para Norte e Nordeste (ES, MG, GO, BA, CE, AM, AC, MS, RS)
Características:

  • Dissidência do Comando Vermelho.
  • Mistura símbolos religiosos e discurso neopentecostal em territórios dominados.
  • Ganha força por meio de alianças com facções locais, como o Guardiões do Estado (GDE), no Ceará.

4. Amigos dos Amigos (ADA)

Origem: Rio de Janeiro
Atuação: Ações pontuais em comunidades cariocas
Características:

  • Importância reduzida nos últimos anos após confrontos com CV e TCP.
  • Atua principalmente no varejo do tráfico.

5. Família do Norte (FDN)

Origem: Amazonas
Atuação: Norte do país, principalmente no Amazonas e no Pará
Características:

  • Disputa violenta com o Comando Vermelho pelo controle da rota do rio Solimões.
  • Forte atuação no tráfico internacional, com conexões na Colômbia e na fronteira amazônica.

6. Guardiões do Estado (GDE)

Origem: Ceará
Atuação: Região metropolitana de Fortaleza
Características:

  • Facção extremamente violenta, conhecida por execuções em massa.
  • Enfraquecida após prisões, passou a se aliar ao TCP em 2023–2025.

7. Sindicato do Crime do RN (SDC-RN)

Origem: Rio Grande do Norte
Atuação: RN e Paraíba
Características:

  • Rival do PCC e de facções locais.
  • Atuação em presídios, assaltos e tráfico.

8. Bonde dos 40

Origem: Maranhão
Atuação: Maranhão, principalmente São Luís
Características:

  • Originado em presídios, dominou áreas da capital e disputou territórios com o Primeiro Comando do Maranhão (PCM).

9. Primeiro Comando do Maranhão (PCM)

Origem: Maranhão
Atuação: Maranhão e partes do Pará
Características:

  • Rival histórico do Bonde dos 40.
  • Atua no varejo do tráfico e controle de bairros periféricos.

10. Milícias do Rio de Janeiro

Origem: Década de 1990
Atuação: Zona Oeste do Rio e Baixada Fluminense
Características:

  • Formadas por agentes de segurança pública e ex-militares.
  • Extorsão, controle de serviços (gás, internet, transporte), grilagem e domínio territorial.
  • Expansão acelerada a partir de 2010.

11. Os Crias (RJ)

Origem: Rio de Janeiro (dissidências recentes)
Atuação: Áreas isoladas do RJ
Características:

  • Surgem como ramificações de facções antigas.
  • Estrutura ainda pouco consolidada, mas com participação em roubos e tráfico.

Linha do tempo apresenta evolução do Crime Organizado no Brasil

1970–1980 | As origens no sistema prisional e a fusão entre crime comum e militância

1970–1979 — O nascimento do Comando Vermelho (CV)

  • O CV surge na prisão da Ilha Grande, a partir da convivência entre criminosos comuns e presos políticos durante a ditadura.
  • O compartilhamento de estratégias, disciplina e solidariedade cria os alicerces do que se tornaria a primeira facção brasileira moderna.
  • O grupo estrutura uma visão comunitária e adota o lema “Paz, Justiça e Liberdade”.

Consequência histórica

  • O país assiste ao surgimento da primeira organização criminosa com identidade política e capacidade de mobilização territorial.

1980–1990 | Expansão nas comunidades e fortalecimento armado

Década de 1980 — O CV domina favelas do Rio

  • Crescimento do tráfico de drogas no varejo.
  • Controle territorial armado nas favelas do RJ.
  • Formação de subgrupos e conflitos internos: começam as dissidências que darão origem ao Terceiro Comando e ao ADA.

Final dos anos 1980 — O Estado perde terreno

  • Baixa presença estatal em áreas pobres e aumento da militarização do tráfico.
  • Execuções e confrontos tornam-se parte da dinâmica urbana.

1990–2000 | O nascimento do PCC e o fortalecimento das rebeliões

1993 — Fundação do Primeiro Comando da Capital (PCC)

  • Criado no presídio de Taubaté após o massacre do Carandiru (1992).
  • O PCC nasce com discurso de união e autoproteção contra abusos do Estado.

1990–1999 — Consolidação no sistema penitenciário

  • O PCC cresce ao unificar presos e impor disciplina interna.
  • Cria redes de arrecadação (“caixinha”) e canais de comunicação.
  • Começa a produzir estatutos, regras e códigos de conduta.

Transição para os anos 2000

  • A facção se estrutura como organização econômica e administrativa.
  • Surge o embrião da posterior expansão nacional.

2000–2010 | A década das megafacções e da guerra urbana

2002 — Surgimento do Terceiro Comando Puro (TCP)

  • Dissidência do Comando Vermelho.
  • Estabelece-se como rival interno no Rio.

2006 — Ataques do PCC em São Paulo

  • Facção realiza explosões, incêndios e ataques a agentes do Estado.
  • O episódio marca a projeção nacional do PCC e evidencia sua capacidade de articulação interestadual.

Crescimento das milícias no RJ

  • Formadas inicialmente por policiais e ex-policiais para “combater o tráfico”, passam a controlar
    • transporte alternativo,
    • TV e internet clandestinas,
    • gás,
    • grilagem,
    • extorsão de moradores e comerciantes.
  • Tornam-se o principal grupo armado da Zona Oeste e Baixada.

2010–2020 | Nacionalização das facções e rotas internacionais

2011–2016 — O PCC inicia expansão continental

  • Enraíza-se na Tríplice Fronteira (Brasil–Paraguai–Argentina).
  • Estabelece relações com cartéis bolivianos e peruanos.
  • Facilita tráfego de cocaína via portos brasileiros.

2016–2018 — Ruptura PCC x CV

  • Aliança histórica é rompida, desencadeando guerras em diversos Estados.
  • Rebeliões em presídios de Roraima, Amazonas e Rio Grande do Norte deixam centenas de mortos.
  • Início da nacionalização das facções regionais: FDN, GDE, Bonde dos 40, PCM, SDC-RN, entre outras.

2018 — Aumento da violência no Ceará

  • Guerra entre CV e GDE eleva taxa de homicídios a níveis recordes.
  • A capital Fortaleza chega a figurar entre as cidades mais violentas do mundo.

2020–2025 | O fenômeno do “narcopentecostalismo” e a ascensão do TCP

2020 — Criação do Complexo de Israel

  • TCP adota símbolos como a estrela de Davi, cruzes e frases cristãs.
  • Grafites e murais religiosos passam a marcar territórios dominados.

2021–2024 — Expansão geográfica

  • TCP rompe barreiras e chega a 10 Estados.
  • Aliança com o GDE fortalece presença no Ceará.
  • Cresce a incidência de intolerância religiosa, ataques a terreiros e expulsão de moradores.

Integração com milícias

  • Facções e milicianos compartilham práticas de extorsão, controle de serviços e influência local.
  • Em alguns territórios, a distinção entre ambos se torna difusa.

2024–2025 — O TCP vira a terceira força nacional

  • A Abin classifica o grupo como “terceira organização emergente”.
  • Rivalidade com CV continua incendiando disputas no Norte e Nordeste.
  • O PCC mantém hegemonia nacional, mas enfrenta guerras pontuais em fronteiras e presídios.

O padrão histórico

A evolução do crime organizado no Brasil segue um eixo histórico marcado por:
(1) surgimento em prisões;
(2) expansão territorial nas periferias;
(3) diversificação econômica ilícita;
(4) alianças nacionais e internacionais;
(5) disputas permeadas por simbolismos sociais, religiosos e políticos;
(6) fragilidade do Estado e desigualdades estruturais que alimentam a mão de obra criminal.

As facções brasileiras se tornaram hoje redes econômicas complexas, com operações que vão do tráfico internacional aos serviços clandestinos urbanos, ocupando espaços deixados por sucessivas omissões do poder público.

*Com informações de Camilla Veras Mota, da BBC News Brasil.


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