A Marinha do Brasil concluiu a etapa de construção dos quatro submarinos convencionais do Programa de Desenvolvimento de Submarinos (Prosub) e inicia nova fase de foco no submarino nuclear Álvaro Alberto, apontado por especialistas como elemento central para ampliar a capacidade de dissuasão do país. O marco foi reforçado com o lançamento ao mar do submarino Almirante Karam, último da série convencional.
Analistas ouvidos avaliam que a conclusão do ciclo anterior permite redirecionar estrutura, pessoal e recursos para o avanço do projeto nuclear, considerado tecnicamente complexo e decisivo para a soberania marítima brasileira. Com apenas quatro submarinos convencionais, especialistas afirmam que o número ainda é insuficiente para as demandas estratégicas do país.
Segundo o doutorando em relações internacionais Pedro Martins, o Brasil ingressa em um grupo restrito de países ao avançar no desenvolvimento de um submarino nuclear, equipamento de alto custo e grande exigência tecnológica.
Relevância estratégica e desafios do orçamento
Martins observa que, embora o orçamento da Defesa seja significativo entre as pastas ministeriais, a distribuição interna dos recursos limita investimentos em modernização e aquisição de equipamentos. O especialista aponta que despesas com pessoal — ativas e inativas — ocupam grande parte da verba, reduzindo a capacidade de financiamento de projetos de defesa considerados prioritários.
Ele destaca que demandas relacionadas à Amazônia Azul, exploração do pré-sal, vigilância da Margem Equatorial e instabilidades na região norte da América do Sul exigem meios navais modernos e capacidade ampliada de monitoramento. Segundo o pesquisador, a disponibilidade de equipamentos atualizados é fundamental para proteção de infraestrutura crítica e rotas marítimas.
Martins defende ainda novas parcerias internacionais com foco em transferência de tecnologia, passo considerado essencial para garantir autonomia militar e capacidade nacional de desenvolvimento.
Etapa de transição do Prosub e manutenção do know-how
Para a doutora e especialista em política e tecnologia nuclear Michelly Geraldo, o encerramento da fase dos submarinos convencionais representa um “ponto de transição importante” para a Marinha. Ela afirma que o programa deixou legado industrial, tecnológico e de mão de obra que precisa ser preservado para evitar perda de conhecimento especializado.
Geraldo aponta três frentes prioritárias: manter o estaleiro e as linhas produtivas ativas, evoluir doutrinas operacionais e fortalecer a atuação no conceito de Amazônia Azul, reforçando vigilância, prontidão e sensoriamento. A especialista destaca que hiatos na produção comprometem equipes e estruturas técnicas formadas ao longo do programa.
Segundo ela, a continuidade do submarino nuclear é considerada estratégica, pois sua interrupção causaria perda irreversível de conhecimento acumulado ao longo de décadas.
Capacidade de dissuasão e ganhos tecnológicos
A analista explica que o submarino nuclear oferece autonomia ampliada, maior velocidade submersa e imprevisibilidade operacional, fatores que elevam a capacidade de dissuasão ao criar incertezas para possíveis ameaças externas. Esses atributos permitem proteger ativos marítimos situados em áreas distantes da costa.
Além disso, Geraldo enfatiza que o programa nuclear impulsiona setores de engenharia, materiais avançados, sistemas de controle e pesquisa científica. Os ganhos tecnológicos têm potencial de gerar inovações aplicáveis à indústria e à academia.
Ela ressalta que, mesmo com orçamento restrito, a continuidade planejada do programa deve ser prioridade para evitar regressões estruturais e tecnológicas.
Parcerias internacionais e alinhamento estratégico
Geraldo observa que a França permanece parceira natural do Brasil pela integração consolidada durante o Prosub. Ela também cita a Índia como possível parceira estratégica por possuir submarino nuclear, indústria de defesa robusta e política de autonomia estratégica semelhante à brasileira.
Países do Sul Global, como a África do Sul, também são considerados importantes para cooperação em vigilância do Atlântico Sul e intercâmbio técnico.
*Com informações da Sputnik News.







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