A Austrália está prestes a eliminar o câncer de colo do útero — e o Brasil pode seguir o mesmo caminho | Por Thiago Vieira

“A Austrália vai acabar com o câncer de colo do útero.” Quando ouvi essa frase pela primeira vez, ela despertou curiosidade e desconfiança. Como um país inteiro poderia “acabar” com um câncer? Ao buscar mais informações, a resposta se mostrou tão simples quanto poderosa. Eliminar, nesse contexto, não significa zerar os casos, mas reduzir a incidência para menos de 4 casos por 100 mil mulheres por ano, parâmetro definido pela Organização Mundial da Saúde. Nesse nível, o câncer de colo do útero passa a ser considerado uma doença rara, algo impressionante se lembrarmos que ele ainda está entre os três cânceres mais frequentes em mulheres no mundo. Globalmente, surgem mais de 600 mil novos casos por ano e, no Brasil, cerca de 14 mil mulheres recebem esse diagnóstico anualmente.

O sucesso australiano não veio da criação de um novo medicamento, mas do uso consistente de duas estratégias já conhecidas e disponíveis no Brasil: vacinação e rastreamento. O câncer de colo do útero está fortemente associado à infecção persistente pelo HPV, responsável por mais de 70% dos casos. A vacina contra o HPV reduz significativamente o risco dessa infecção e é oferecida gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde para meninos e meninas de 9 a 14 anos, em duas doses. Pessoas não vacinadas podem receber a vacina até os 45 anos, geralmente em três doses. Além de prevenir o câncer do colo do útero, a vacina também reduz o risco de outros cânceres relacionados ao HPV, como os de ânus, pênis e garganta.

O segundo pilar da prevenção é o rastreamento das lesões precursoras. No Brasil, o exame de Papanicolau é oferecido pelo SUS para mulheres entre 25 e 64 anos, inicialmente de forma anual, com espaçamento após exames normais consecutivos. Mais recentemente, o teste de HPV passou a ser incorporado como método ainda mais sensível, podendo ser realizado a cada cinco anos. Apesar dessas ferramentas estarem disponíveis, o Brasil ainda enfrenta dificuldades para eliminar o câncer de colo do útero, principalmente por baixas coberturas vacinais e falhas no rastreamento de parte da população-alvo.

A previsão da Austrália é atingir a eliminação até 2035, o que reforça uma lição essencial da saúde pública: resultados duradouros exigem planejamento e compromisso ao longo do tempo. Embora o avanço australiano seja motivo de celebração, ele também mostra que o Brasil tem plenas condições de seguir o mesmo caminho. Temos as ferramentas, o conhecimento e um sistema público de saúde capaz de fazer essa transformação. O desafio agora é ampliar o acesso, aumentar a adesão da população e manter políticas públicas consistentes para que, no futuro, o câncer de colo do útero também se torne uma doença rara no país.

*Thiago Vieira, médico oncologista clínico, atua no diagnóstico e tratamento de diversos tipos de câncer. Comprometido com a assistência integral ao paciente oncológico, dedica-se também à educação em saúde e à divulgação científica, com o propósito de tornar a informação médica mais acessível e próxima da comunidade.

*Contato através do e-mail: thiagosanvieira@hotmail.com


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