Câncer além das telas: quando o tratamento afeta também as emoções | Por Thiago Vieira

Em filmes, séries e novelas, histórias sobre pacientes com câncer muitas vezes ganham um tom quase romântico. Não é raro vermos personagens cuja principal dificuldade é um conflito amoroso, como se a doença fosse apenas um pano de fundo dramático. Mas a vida real está longe desse roteiro.

Para quem enfrenta um tratamento oncológico, a realidade costuma ser bem mais complexa. Planos são interrompidos, rotinas mudam, relações pessoais são colocadas à prova. Alguns pacientes conseguem manter os estudos ou o trabalho; outros, infelizmente, precisam abrir mão dessas atividades. Nesse processo, surgem sentimentos como tristeza, medo e incerteza — reações humanas e compreensíveis diante de uma situação tão desafiadora.

O problema começa quando esses sentimentos se tornam intensos ou persistentes. Nesses casos, é preciso atenção. Podemos estar diante de algo mais sério, como quadros de ansiedade e depressão. Estima-se que cerca de 30% a 40% dos pacientes oncológicos apresentem esses sintomas ao longo do tratamento. Ainda assim, na prática, muitos não falam sobre o que estão sentindo, acreditando que “faz parte” da doença ou que precisam suportar tudo em silêncio.

Falta de vontade de fazer atividades que antes davam prazer, insônia, irritabilidade frequente, tristeza profunda e a sensação de um vazio constante não são reações normais quando começam a comprometer a qualidade de vida. Esses sinais merecem cuidado, acolhimento e atenção profissional.

Quando falamos em tratamento do câncer, falamos de cuidado integral. Isso envolve uma equipe multidisciplinar formada por médicos, enfermeiros, nutricionistas e, de forma essencial, psicólogos. Em muitos casos, a participação de um psiquiatra também pode ser necessária. E não podemos esquecer da família, que exerce um papel fundamental como rede de apoio emocional.

O primeiro passo para um cuidado eficaz começa no próprio paciente: reconhecer que esses sentimentos não precisam ser enfrentados sozinho e que nem tudo “faz parte do processo”. Falar sobre o que se sente com a equipe de saúde abre caminho para um tratamento mais humano, completo e verdadeiro. Cuidar da saúde mental é cuidar da saúde como um todo.

*Thiago Vieira, médico oncologista clínico, atua no diagnóstico e tratamento de diversos tipos de câncer. Comprometido com a assistência integral ao paciente oncológico, dedica-se também à educação em saúde e à divulgação científica, com o propósito de tornar a informação médica mais acessível e próxima da comunidade.

*Contato através do e-mail: thiagosanvieira@hotmail.com


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