Captura de Nicolás Maduro pelos EUA expõe choque entre Governo Donald Trump, China e Rússia e reacende disputa global sobre soberania e direito internacional

A captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos desencadeou forte reação internacional, envolvendo China, Rússia e a ONU. O episódio reacende o debate sobre soberania, legalidade do uso da força e precedentes perigosos no sistema internacional. Enquanto Washington defende a operação como ação legal, Pequim e Moscou articulam resistência diplomática, expondo limites do multilateralismo e a crescente lógica de esferas de influência globais.
Captura de Nicolás Maduro pelos EUA provoca reação da China, Rússia e ONU, reacendendo debate sobre soberania, direito internacional e equilíbrio de poder global.

A captura do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, por forças dos Estados Unidos e sua transferência para julgamento em Nova York desencadearam uma ampla crise diplomática internacional. O episódio mobilizou o Organização das Nações Unidas, provocou reações contundentes da China e da Rússia e reacendeu debates centrais sobre soberania, legalidade internacional e o uso da força por grandes potências. A operação, autorizada pelo presidente Donald Trump, ocorre em um contexto de crescente rivalidade geopolítica e coloca à prova a capacidade de Pequim de liderar resistência diplomática global sem recorrer à força militar.

Reação imediata da China e discurso de soberania

O ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, acusou publicamente os Estados Unidos de atuarem como “juiz do mundo”, criticando a captura de Maduro sem autorização do Conselho de Segurança da ONU. Segundo Wang, a soberania e a segurança dos Estados devem ser protegidas pelo direito internacional, princípio que Pequim afirma defender de forma consistente em sua política externa.

A declaração marca a primeira manifestação oficial chinesa após a divulgação de imagens do líder venezuelano algemado e vendado, que circularam globalmente. Para a diplomacia chinesa, a operação representa um teste direto à sua narrativa de não intervenção e de defesa de uma ordem internacional multipolar baseada em regras.

Pequim articula apoio diplomático para questionar a legalidade da ação norte-americana no âmbito das Nações Unidas, contando com o respaldo da Rússia e de países do Sul Global, especialmente da América Latina.

China, Venezuela e uma aliança estratégica abalada

A Venezuela ocupa posição central na estratégia chinesa para a América Latina desde a década de 2000, relação aprofundada durante os governos de Hugo Chávez e mantida sob Maduro. Pequim investiu pesadamente em infraestrutura e no setor petrolífero venezuelano, oferecendo suporte econômico relevante diante das sanções impostas por Washington desde 2017.

Apesar disso, analistas apontam que a capacidade chinesa de oferecer apoio material imediato à Venezuela é limitada. O principal trunfo de Pequim reside na esfera diplomática, buscando mobilizar países em desenvolvimento contra o que classifica como unilateralismo norte-americano.

Internamente, autoridades chinesas reconhecem que a captura de Maduro representa um golpe simbólico à imagem da China como parceira confiável e defensora de seus aliados estratégicos.

Rússia, realpolitik e esferas de influência

Para Moscou, a perda de Maduro representa o enfraquecimento de um aliado relevante na América Latina. O presidente Vladimir Putin manteve silêncio público, mas o Ministério das Relações Exteriores russo condenou a operação e pediu diálogo.

Setores nacionalistas russos criticaram a rapidez da ação norte-americana, contrastando-a com o prolongado conflito na Ucrânia. Ainda assim, parte da elite política russa enxerga possíveis ganhos estratégicos no foco dos EUA no Hemisfério Ocidental, reduzindo a pressão sobre outras frentes de interesse de Moscou.

A retórica da chamada “Doutrina Monroe” revisitada por Trump é vista pela Rússia como uma reafirmação explícita de esferas de influência, lógica que Moscou também busca aplicar em seu entorno geopolítico.

Conselho de Segurança da ONU e o debate jurídico

Horas antes da primeira audiência de Maduro em um tribunal federal de Manhattan, o Conselho de Segurança da ONU reuniu-se, a pedido da Colômbia, para discutir os desdobramentos da operação. O secretário-geral da ONU, António Guterres, alertou para o risco de criação de um “precedente perigoso” nas relações internacionais.

Guterres expressou preocupação com a possível violação da Carta da ONU, que proíbe o uso da força contra a integridade territorial e a independência política dos Estados. Os Estados Unidos, por sua vez, invocaram o Artigo 51 da Carta, que trata do direito à legítima defesa, argumento recebido com ceticismo por diversos membros do Conselho.

China, Rússia e Colômbia classificaram a operação como ilegal. Outros países evitaram condenação direta, limitando-se a defender o respeito ao direito internacional, em um movimento que evidencia divisões profundas no sistema multilateral.

A posição dos Estados Unidos

O embaixador norte-americano na ONU afirmou que a ação foi uma “operação cirúrgica de aplicação da lei”, sem qualquer intenção de ocupação territorial da Venezuela. Washington sustenta que Maduro e sua esposa são fugitivos da Justiça norte-americana, acusados de envolvimento com tráfico de drogas e narcoterrorismo.

O governo Trump argumenta que a permanência de líderes considerados ilegítimos no controle de vastas reservas energéticas representa uma ameaça estratégica, tanto à segurança regional quanto aos interesses dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental.

Direito internacional sob pressão

A captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos evidencia o enfraquecimento prático dos mecanismos multilaterais de contenção do uso da força. Embora Washington sustente fundamentos jurídicos, a ausência de aval do Conselho de Segurança expõe contradições na aplicação seletiva do direito internacional por grandes potências.

O episódio também testa os limites da diplomacia chinesa. Pequim demonstra capacidade de articulação retórica e institucional, mas revela dificuldades em proteger concretamente aliados estratégicos diante de ações unilaterais norte-americanas.

Por fim, a resposta cautelosa de diversos países sugere uma ordem internacional marcada menos por normas universais e mais por cálculos de poder, reforçando um cenário de instabilidade e competição aberta entre blocos.

*Com informações da Agência Reuters e BBC Brasil.


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