Carlismo e Magalhismo: distinção conceitual, periodização histórica e fundamentos teóricos da reprodução do poder político na Bahia | Por Carlos Augusto

Este artigo propõe uma distinção conceitual entre carlismo e magalhismo como categorias analíticas distintas para a compreensão da dinâmica do poder político na Bahia contemporânea. Argumenta-se que o carlismo constitui um fenômeno político personalista, encerrado como ciclo histórico com a morte de Antônio Carlos Magalhães, enquanto o magalhismo representa a reconfiguração estrutural e familiar desse projeto de poder, adaptado às condições institucionais da democracia representativa. A análise dialoga com a tradição marxista, especialmente com as formulações de Karl Marx sobre a reprodução das relações de poder e com o conceito gramsciano de hegemonia, entendendo o magalhismo como uma forma de continuidade histórica sob novas mediações simbólicas, eleitorais e institucionais.

1. Introdução

A literatura política brasileira frequentemente utiliza o termo carlismo de forma indistinta para designar tanto o período de liderança direta de Antônio Carlos Magalhães quanto as manifestações posteriores do poder exercido por seu grupo político. Tal generalização, embora recorrente no jornalismo e mesmo em parte da produção acadêmica, compromete a precisão analítica ao desconsiderar transformações históricas relevantes na forma de organização, exercício e legitimação desse poder.

Este artigo sustenta a necessidade de diferenciar conceitualmente carlismo e magalhismo, entendendo-os como fenômenos historicamente situados e qualitativamente distintos. A proposta parte de uma abordagem sociológica e histórica que busca compreender o deslocamento do poder personalista para uma estrutura política familiar e institucionalizada.

2. Carlismo como fenômeno personalista e ciclo histórico encerrado

O carlismo pode ser definido como um modelo de dominação política fortemente centrado na figura de Antônio Carlos Magalhães, caracterizado pela liderança carismática, pela centralização decisória e pelo controle vertical das alianças políticas. Trata-se de um poder dependente da presença direta do líder, de sua capacidade de mediação junto ao governo federal, do domínio sobe o Estado da Bahia, através do controle do governo estadual, e de sua autoridade pessoal com base da coerção e apelo midiático para organizar o campo político regional.

Do ponto de vista sociológico, o carlismo aproxima-se de formas clássicas de dominação pessoal, nas quais a legitimidade do poder está diretamente associada à figura do líder e à sua capacidade de distribuir recursos, impor disciplina e arbitrar conflitos. A estrutura política, nesse modelo, é secundária em relação à liderança individual.

A morte de Antônio Carlos Magalhães, em 2007, encerra esse ciclo histórico. Não apenas pela ausência física do líder, mas porque o tipo de poder exercido por ele era pouco transferível. O carlismo, enquanto fenômeno político, não possuía plena autonomia estrutural em relação à sua liderança fundadora.

3. Magalhismo como reconfiguração estrutural do poder

O conceito de magalhismo surge da necessidade de interpretar a continuidade do projeto político familiar para além do carisma fundador. Diferentemente do carlismo, o magalhismo não se apoia na autoridade pessoal direta, mas na institucionalização do capital político acumulado ao longo de décadas.

O magalhismo caracteriza-se pela preservação de redes de poder, símbolos, memória política, alianças regionais e influência eleitoral, agora operando dentro das regras formais da democracia representativa. Trata-se de um poder menos ostensivo, mais adaptativo, que se expressa por meio de partidos, eleições, mandatos parlamentares e estratégias discursivas compatíveis com o ambiente democrático.

Essa transformação não representa ruptura, mas reorganização. O conteúdo estrutural do poder permanece, enquanto suas formas de exercício se ajustam às novas condições institucionais.

4. Fundamentos marxistas da distinção conceitual

A distinção entre carlismo e magalhismo dialoga diretamente com a tradição marxista. Em Karl Marx, especialmente na análise desenvolvida em O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, encontra-se a noção de que as classes e frações dominantes são capazes de preservar relações de poder mesmo quando as formas políticas aparentes se transformam.

Marx demonstra que mudanças institucionais, discursivas ou pessoais não implicam, necessariamente, alteração das estruturas materiais de dominação. Aplicada ao caso baiano, essa formulação permite compreender o magalhismo como a continuidade estrutural de um projeto de poder sob nova aparência histórica.

5. Hegemonia e adaptação histórica em Antonio Gramsci

A contribuição de Antonio Gramsci é central para aprofundar essa interpretação. Para Gramsci, a hegemonia consiste na capacidade de um grupo dirigente manter sua posição não apenas pela coerção, mas pela direção moral e intelectual da sociedade, produzindo consensos e naturalizando hierarquias.

O magalhismo pode ser compreendido como uma forma de hegemonia regional. Ao abandonar a centralização autoritária explícita típica do carlismo, passa a operar por meio de mecanismos simbólicos, eleitorais e institucionais que garantem a reprodução do poder sob formas socialmente aceitáveis no regime democrático.

6. Considerações finais

A distinção conceitual entre carlismo e magalhismo não é apenas terminológica, mas analítica e histórica. Ela permite compreender que o fim de uma liderança personalista não implica, automaticamente, o colapso do projeto político que a sustentava.

O carlismo encerra-se como ciclo histórico com a morte de Antônio Carlos Magalhães. O magalhismo, por sua vez, emerge como sua reconfiguração estrutural, adaptada às exigências da democracia representativa, mas preservando elementos centrais como a centralidade familiar, a hierarquização política e o controle regional do poder.

Essa leitura, ancorada na tradição marxista clássica, contribui para uma análise mais rigorosa da política baiana contemporânea, evitando tanto o anacronismo conceitual quanto a ilusão de ruptura onde há, fundamentalmente, continuidade histórica sob novas formas.

*Carlos Augusto, jornalista, cientista social e editor do Jornal Grande Bahia.


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