Em discurso no ordem, em Davos, nesta quinta-feira (22/01/2026), o chanceler alemão Friedrich Merz afirmou que o mundo ingressou de forma definitiva em uma nova era de competição entre grandes potências, marcada pelo enfraquecimento da ordem internacional baseada em regras. Diante desse cenário, Merz defendeu uma Europa mais unida, soberana e capaz de se defender, reforçou o compromisso com a OTAN e a parceria transatlântica, alertou contra ameaças territoriais e tarifas unilaterais, e anunciou uma agenda ambiciosa de rearmamento, reformas econômicas, redução da burocracia e expansão do livre comércio, com destaque para o acordo entre a União Europeia e o Mercosul.
Merz descreveu Davos como um espaço de contraste simbólico: a tranquilidade dos Alpes frente a um mundo em rápida desagregação de sua antiga ordem. Segundo ele, a guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia representa apenas a face mais visível de transformações mais profundas, que incluem a ascensão estratégica da China e o reposicionamento dos Estados Unidos no sistema internacional.
O chanceler avaliou que a ordem global das últimas três décadas, embora imperfeita, tinha o direito internacional como pilar, hoje abalado por uma dinâmica em que poder, força e coerção voltam a ocupar o centro da política global. Para Merz, essa realidade não deve ser aceita como destino inevitável, mas enfrentada com realismo lúcido e capacidade de ação.
Ao citar a reflexão de Mark Carney — de que os valores precisam ser sustentados por poder efetivo — Merz sustentou que a Europa deve reconhecer e fortalecer seus próprios instrumentos de influência.
Os três pilares do poder europeu
De acordo com o chanceler, a resposta europeia à nova configuração internacional repousa sobre três pilares centrais: segurança, competitividade econômica e unidade política.
No campo da segurança, Merz destacou investimentos maciços na capacidade de defesa, com ênfase na autonomia estratégica europeia. No plano econômico, afirmou que a Alemanha e seus parceiros estão empenhados em restaurar rapidamente a competitividade, após anos de reformas adiadas e excesso regulatório. Já no eixo político, enfatizou a necessidade de maior coesão entre os países europeus e aliados com valores semelhantes.
Merz advertiu que um mundo onde apenas o poder importa é especialmente perigoso para Estados pequenos e médios, recordando o trauma histórico alemão do século XX como alerta permanente contra aventuras baseadas na força.
OTAN, Groenlândia e limites inegociáveis
Ao abordar as tensões recentes no Ártico, Merz reconheceu a preocupação dos Estados Unidos com a crescente presença russa na região, mas foi enfático ao afirmar que qualquer ameaça de aquisição territorial europeia pela força é inaceitável. Ele expressou solidariedade explícita à Dinamarca e à Groenlândia e reafirmou o compromisso da Alemanha com a defesa do Alto Norte no âmbito da OTAN.
O chanceler declarou apoio às negociações entre Dinamarca, Groenlândia e Estados Unidos, conduzidas com base nos princípios de soberania e integridade territorial, mencionando conversas recentes com o presidente dos EUA, Donald Trump, a primeira-ministra dinamarquesa Mette Frederiksen e o secretário-geral da OTAN, Mark Rutte.
Merz avaliou positivamente os sinais recentes de Washington e afirmou que a confiança transatlântica continua sendo um ativo estratégico, lembrando que democracias não possuem subordinados, mas aliados e parceiros confiáveis.
Defesa europeia e investimentos sem precedentes
No plano concreto, Merz anunciou que a Alemanha decidiu elevar seus gastos com defesa para até 5% do PIB, classificando a medida como um passo decisivo para afirmar a soberania nacional e reduzir dependências econômicas e tecnológicas.
Ele lembrou que a última cúpula da OTAN, realizada em Haia, criou as bases materiais para um novo ciclo de investimentos, com centenas de bilhões de euros destinados à segurança europeia, o que definiu como um sucesso transatlântico relevante.
Segundo o chanceler, fortalecer a defesa não significa adotar isolacionismo, mas construir laços globais estrategicamente coordenados, compatíveis com uma economia aberta e baseada em regras.
Livre comércio, Mercosul e novas parcerias globais
Merz reiterou que a Europa deve se posicionar como defensora de mercados abertos, comércio justo e igualdade de condições, em oposição a práticas desleais, protecionismo de matérias-primas, proibições tecnológicas e tarifas arbitrárias.
Nesse contexto, destacou a assinatura do acordo entre a União Europeia e o Mercosul, lamentando resistências recentes no Parlamento Europeu, mas afirmando que não há alternativa viável ao tratado se a Europa pretende retomar o crescimento econômico. Ele indicou que a implementação provisória do acordo é altamente provável.
O chanceler também citou avanços em negociações com Índia, México e Indonésia, defendendo o livre comércio como vantagem estratégica em um mundo de grandes potências.
Reformas internas, competitividade e tecnologia
No plano doméstico e europeu, Merz fez um diagnóstico severo sobre o excesso de burocracia e o desperdício de potencial de crescimento. Anunciou uma ofensiva para simplificar regulações, criar um “freio de emergência” burocrático e modernizar o orçamento da União Europeia, em iniciativa articulada com a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni.
Ele defendeu avanços rápidos na união dos mercados de capitais, para impedir que empresas europeias dependam de financiamento fora do continente. Na Alemanha, destacou medidas para fortalecer o Mittelstand, reduzir custos de energia, ampliar investimentos em infraestrutura — com € 500 bilhões previstos — e acelerar a transição digital.
Merz ressaltou investimentos em inteligência artificial em escala industrial, gigafábricas de IA, centros de dados e uma nova Agenda de Alta Tecnologia, com o objetivo de transformar inovação científica em liderança industrial.
Europa entre ambição e coerência
O discurso de Friedrich Merz em Davos marca uma guinada explícita da Alemanha para uma postura mais assertiva, tanto em defesa quanto em política econômica. Ao reconhecer o retorno da lógica das grandes potências, o chanceler rompe com ambiguidades do passado recente e assume a necessidade de poder material como complemento aos valores democráticos.
Há, contudo, tensões evidentes. A defesa do livre comércio convive com resistências internas na própria União Europeia, enquanto o aumento expressivo dos gastos militares exigirá consenso político duradouro e sustentabilidade fiscal. Além disso, a preservação da confiança transatlântica dependerá não apenas de declarações, mas da capacidade de alinhar interesses europeus e americanos em um cenário cada vez mais competitivo.
Ainda assim, o discurso indica uma tentativa clara de reposicionar a Alemanha como eixo central da liderança europeia, apostando em segurança, competitividade e unidade como resposta estruturada à instabilidade global.











Deixe um comentário