China na vanguarda da geopolítica global: como Pequim redefine as novas fronteiras do poder

A chegada do cargueiro chinês Istanbul Bridge ao porto britânico de Felixstowe, em outubro de 2025, após cruzar diretamente o Oceano Ártico, representou mais do que um avanço logístico. O episódio sintetiza uma estratégia de longo prazo conduzida por Pequim para ampliar sua projeção global, articulando investimentos em tecnologia de ponta, exploração polar, espaço, ciberinfraestrutura e sistema financeiro internacional. A análise, discutida pela especialista Elizabeth Economy em artigo da revista Foreign Affairs, aponta que a China busca redefinir o equilíbrio do poder global, desafiando a primazia histórica dos Estados Unidos por meio de planejamento estatal, escala industrial e coordenação estratégica.

A ascensão chinesa não se ancora em um único vetor, mas na convergência coordenada de múltiplos domínios de poder. Diferentemente de modelos fragmentados, Pequim estrutura sua política externa e industrial a partir de prioridades nacionais claras, alinhando Estado, empresas e centros de pesquisa. O objetivo declarado é assegurar vantagem competitiva em setores considerados críticos para a segurança nacional e a liderança econômica futura.

Essa abordagem sistêmica sustenta a expansão simultânea da China em áreas como tecnologia avançada, recursos naturais estratégicos, logística global e governança internacional, consolidando uma presença que vai do fundo dos oceanos ao espaço sideral.

Domínio tecnológico e inovação orientada pelo Estado

No centro da estratégia chinesa está a liderança tecnológica, especialmente em inteligência artificial, biotecnologia e genômica. O país ampliou de forma consistente os investimentos em pesquisa e desenvolvimento, superando diversas economias ocidentais tanto em volume absoluto quanto em participação no PIB.

A política industrial chinesa vai além do financiamento: estabelece metas nacionais explícitas, prazos definidos e setores prioritários, mobilizando universidades, laboratórios estatais e empresas privadas em torno de objetivos comuns. Esse modelo impulsionou aplicações práticas em vigilância digital, transporte autônomo, saúde, indústria avançada e sistemas militares de uso dual.

Expansão geoestratégica e novas rotas comerciais

A projeção internacional chinesa extrapola o campo tecnológico. A Iniciativa do Cinturão e Rota permanece como eixo estruturante da expansão econômica, mas Pequim passou a investir também em normas técnicas globais, segurança cibernética e infraestrutura crítica.

A travessia do Istanbul Bridge pela Rota do Mar do Norte integra um projeto mais amplo de inserção chinesa no Ártico. Embora não seja um país ártico, a China se autodefine como “Estado quase ártico” e investe em ciência polar, quebra-gelos e diplomacia regional. Parcerias com a Rússia ampliam o acesso a recursos energéticos e minerais, ao mesmo tempo em que Pequim busca influência em fóruns multilaterais da região.

Espaço: tecnologia, prestígio e poder simbólico

O programa espacial chinês reflete a fusão entre ambição tecnológica e projeção geopolítica. Missões lunares bem-sucedidas, a estação espacial Tiangong e o projeto da Estação Internacional de Pesquisa Lunar, em cooperação com Moscou, colocam a China em posição de rivalidade direta com iniciativas lideradas pela NASA, como o programa Artemis.

Além do valor científico, o espaço funciona como instrumento de soft power, oferecendo cooperação tecnológica a países em desenvolvimento e reforçando a imagem da China como potência capaz de conduzir projetos de escala histórica.

Ciberespaço, padrões tecnológicos e influência normativa

A chamada Rota da Seda Digital ampliou a presença internacional de empresas como Huawei e ZTE, especialmente em infraestrutura de telecomunicações. Paralelamente, Pequim defende novos protocolos de internet que reforçam o controle estatal sobre redes digitais, proposta que enfrenta resistência no Ocidente, mas encontra apoio em países da África e em membros do BRICS.

Sistema financeiro e internacionalização do yuan

No campo financeiro, a China expande o uso do renminbi em contratos comerciais e desenvolve sistemas alternativos ao SWIFT. Em 2025, cerca de 29% do comércio bilateral chinês já era liquidado em moeda local. Ainda assim, o yuan permanece com participação limitada nas transações globais, evidenciando os limites atuais da desdolarização.

Ambição global, limites e tensões

A estratégia chinesa reflete a percepção de que liderança tecnológica equivale a liderança geopolítica. Ao buscar deixar de ser apenas a “fábrica do mundo” para tornar-se centro de inovação, normas e financiamento, Pequim desafia diretamente a ordem internacional construída sob liderança norte-americana desde o pós-guerra.

Apesar dos avanços, o modelo apresenta contradições. A inovação fortemente centralizada pode alcançar metas específicas com eficiência, mas levanta dúvidas sobre sua capacidade de gerar rupturas criativas comparáveis às observadas em ecossistemas mais descentralizados. Além disso, os investimentos externos e programas de prestígio coexistem com desafios internos relevantes, como envelhecimento populacional, crise imobiliária e reequilíbrio econômico.

A expansão chinesa provoca contrarreação estratégica. Estados Unidos, União Europeia, Índia e aliados regionais reforçam políticas de contenção, controle tecnológico e reorganização de cadeias produtivas. O resultado é um cenário de competição sistêmica prolongada, com cadeias de suprimento mais regionalizadas e sistemas tecnológicos parcialmente incompatíveis.

*A reportagem é baseada no artigo “Como a China Conquistará o Futuro: A Estratégia de Pequim para Apoderar-se das Novas Fronteiras do Poder”, de autoria de Elizabeth Economy, publicado na revista Foreign Affairs, em 9 de dezembro de 2025.

*Elizabeth Economy é codiretora do Projeto EUA, China e o Mundo e pesquisadora sênior Hargrove na Hoover Institution da Universidade Stanford. de 2021 a 2023, foi assessora sênior para a China no Departamento de Comércio dos EUA e é autora de ” O Mundo Segundo a China” .


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