O espetáculo “Akoko Lati Wa Ni – Tempo de Ser”, da CIA ÚNICA de Teatro, sediada em Feira de Santana, foi indicado ao Prêmio Shell de Teatro 2025, na categoria Destaque Nacional, tornando-se o único representante da Bahia na edição deste ano de uma das mais relevantes premiações das artes cênicas brasileiras. A cerimônia de entrega ocorrerá em 18 de março, no Sesc Pinheiros, em São Paulo. A indicação marca a primeira vez que a companhia feirense concorre a um prêmio nacional e projeta o teatro produzido fora do eixo Rio–São Paulo no cenário artístico do país.
Com estreia em 2024, a montagem alcança um feito inédito para a cena teatral de Feira de Santana ao figurar entre os indicados ao Prêmio Shell, historicamente concentrado nas capitais do Sudeste. O reconhecimento amplia a visibilidade da produção cultural do interior da Bahia e reforça a diversidade geográfica e estética do teatro brasileiro contemporâneo.
A indicação também representa um ganho simbólico para a cultura baiana, ao evidenciar que narrativas, linguagens e processos criativos desenvolvidos fora dos grandes centros possuem densidade artística e relevância nacional. Para a CIA ÚNICA, trata-se da consolidação de um percurso construído a partir da pesquisa cênica, do diálogo com as tradições afro-brasileiras e da afirmação de identidades historicamente marginalizadas.
Linguagem cênica e proposta estética
Definido por seus criadores como um macumdrama, o espetáculo articula teatro, música, dança, poesia e espiritualidade afro-brasileira em uma linguagem híbrida e autoral. A obra acompanha três jovens negros, yawôs e estudantes de teatro, que recorrem ao orixá Iroko, senhor do tempo, para refletir sobre o direito de existir, envelhecer e viver em uma sociedade marcada pelo racismo estrutural.
A encenação propõe uma experiência cênica que transcende a narrativa convencional, convocando o público a um contato direto com símbolos, ritos e saberes de matriz africana. O tempo, enquanto dimensão política e espiritual, é apresentado como elemento central da dramaturgia.
Direção, dramaturgia e temas centrais
Com direção e dramaturgia de Onisajé, a montagem dialoga com temas considerados urgentes no debate público contemporâneo, como juventude negra, intolerância religiosa, ancestralidade e resistência cultural. A criadora define o trabalho como parte do Teatro Preto de Candomblé, abordagem estética e política que reivindica o protagonismo negro nas artes cênicas e valoriza epistemologias afro-diaspóricas.
A proposta se insere em um movimento mais amplo de reconfiguração do teatro brasileiro, ao deslocar o olhar hegemônico e incorporar perspectivas historicamente silenciadas, sem recorrer a estereótipos ou simplificações narrativas.
Impacto para Feira de Santana e a Bahia
Para a CIA ÚNICA, a indicação extrapola a dimensão artística e assume caráter institucional e territorial. Segundo Júlia Lorrana, atriz e uma das fundadoras da companhia, o reconhecimento “coloca Feira de Santana no mapa do teatro nacional e reafirma que a arte produzida no interior tem valor, potência e alcance”.
A presença da companhia no Prêmio Shell reforça a importância de políticas culturais descentralizadas e do fortalecimento de grupos artísticos fora das capitais, contribuindo para a democratização do acesso à produção e à circulação cultural.
Mobilização local e temporada especial
A participação na cerimônia em São Paulo impõe desafios logísticos e financeiros à companhia. Como estratégia de mobilização de público e captação de recursos para despesas de viagem e hospedagem, a CIA ÚNICA anunciou a realização de uma temporada especial do espetáculo em Feira de Santana, prevista para março, uma semana após o Carnaval.
A iniciativa busca fortalecer o vínculo com a cidade de origem e envolver o público local neste momento decisivo da trajetória do grupo. As informações sobre datas, local e venda de ingressos serão divulgadas nos próximos dias, juntamente com a continuidade da busca por patrocínios e apoios culturais.
Ficha técnica
- Companhia: CIA ÚNICA de Teatro
- Gênero/Linguagem: Macumdrama
- Duração: 55 minutos
- Classificação indicativa: 14 anos
- Ano de estreia: 2024
- Cidade de origem: Feira de Santana – BA
- Direção: Onisajé
- Dramaturgia / Texto: Onisajé
- Elenco: Júlia Lorrana (Dofona), Ofámiro (Dofonitinho), Aninha Pinheiro (Famo)
- Direção musical / Trilha sonora: Jarbas Bittencourt
- Direção de arte: Guilherme Hunder
- Iluminação: Nando Zâmbia
- Operação de som: Liu Silva
- Operação de luz: Lion Guimarães e Ângelo Máximo
- Produção: Luiz Antônio Sena Jr. e Gabriela Marques











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