O governo dos Estados Unidos confirmou, nesta terça-feira (07/01/2026), que o presidente Donald Trump discute alternativas para adquirir a Groenlândia, incluindo a possibilidade de empregar forças armadas, em uma retomada explícita de uma ambição apresentada ainda em 2019. A sinalização provocou reação imediata de aliados europeus, do Canadá e de lideranças locais, reacendendo tensões no interior da OTAN e levantando questionamentos sobre soberania, segurança no Ártico e estabilidade da aliança ocidental.
Casa Branca confirma debate interno e trata a ilha como prioridade estratégica
A Casa Branca afirmou que Trump considera a Groenlândia uma prioridade de segurança nacional, essencial para “deter adversários na região do Ártico”, em referência direta à presença crescente de Rússia e China no entorno polar. Segundo o governo, diferentes caminhos estão em análise, do diálogo diplomático a mecanismos mais assertivos.
Em declaração oficial, a Presidência ressaltou que “o uso das forças armadas é sempre uma opção à disposição do comandante-em-chefe”, embora tenha reiterado que a diplomacia e a negociação seriam o primeiro instinto do presidente. Um alto funcionário americano, sob condição de anonimato, confirmou que compra direta ou a celebração de um Pacto de Livre Associação (COFA) estão entre as alternativas avaliadas.
Autoridades envolvidas no debate interno reconheceram, contudo, que um acordo do tipo COFA não atenderia plenamente ao objetivo de Trump, que deseja incorporar a ilha, com cerca de 57 mil habitantes, ao território americano. Não foi informado qualquer valor estimado para uma eventual aquisição.
Reações imediatas: soberania, aliados e risco de abalo na OTAN
A resposta internacional foi rápida. A Groenlândia reiterou que não deseja integrar os Estados Unidos, posição respaldada pela Dinamarca, potência soberana responsável pelo território. Líderes europeus e o Canadá divulgaram comunicados conjuntos enfatizando que “a Groenlândia pertence ao seu povo”.
Parlamentares americanos também manifestaram preocupação. Em nota conjunta, a senadora democrata Jeanne Shaheen e o senador republicano Thom Tillis afirmaram que, diante da negativa explícita da Dinamarca e da Groenlândia, os Estados Unidos devem respeitar a soberania e a integridade territorial do Reino da Dinamarca, aliado histórico da OTAN.
Especialistas e diplomatas alertam que uma anexação militar da Groenlândia por Washington causaria “ondas de choque” na aliança atlântica, aprofundando fissuras já existentes entre os EUA e governos europeus, além de colocar em xeque compromissos centrais do tratado de defesa coletiva.
Antecedentes e novo contexto geopolítico
O interesse de Trump pela Groenlândia não é novo. Em 2019, durante seu primeiro mandato, a proposta de compra foi recebida com incredulidade e rejeição por Copenhague. O tema, então, perdeu força, mas voltou ao centro da agenda após recentes movimentos de política externa dos EUA, incluindo uma operação que resultou na prisão do presidente venezuelano Nicolás Maduro, episódio citado por fontes americanas como fator de encorajamento.
Segundo interlocutores da Casa Branca, Trump passou a defender que o “domínio americano no Hemisfério Ocidental” não deve ser questionado, ampliando a pressão diplomática sobre países da região e retomando, paralelamente, a discussão sobre a Groenlândia como peça-chave da estratégia no Ártico.
O secretário de Estado Marco Rubio, em reunião reservada com líderes do Congresso, buscou conter especulações sobre uma invasão iminente, afirmando que o objetivo formal seria comprar a ilha da Dinamarca, e não ocupá-la militarmente.
Europa e Canadá se mobilizam em defesa do território
Em Copenhague, governos da França, Alemanha, Reino Unido, Itália, Polônia, Espanha e Países Baixos divulgaram declaração conjunta reafirmando a autonomia da Groenlândia e defendendo que a segurança no Ártico seja tratada coletivamente, no âmbito da OTAN. O primeiro-ministro polonês Donald Tusk foi direto ao afirmar que nenhum membro da aliança pode ameaçar outro sem comprometer o próprio significado do bloco.
O ministro das Relações Exteriores dinamarquês, Lars Lokke Rasmussen, rejeitou a narrativa americana de que a Groenlândia estaria vulnerável a investimentos ou presença militar chinesa e russa, destacando que os EUA são bem-vindos para investir economicamente, mas não para questionar a soberania local. A Dinamarca anunciou, ainda em 2025, um plano de 42 bilhões de coroas dinamarquesas para reforçar sua presença militar no Ártico.
O primeiro-ministro canadense Mark Carney, por sua vez, declarou que apenas a Dinamarca e a Groenlândia podem decidir sobre o futuro da ilha, ressaltando o respeito ao direito internacional e à integridade territorial de aliados.
Groenlândia entre segurança, minerais e identidade política
Do ponto de vista estratégico, a Groenlândia ocupa posição central entre a Europa e a América do Norte, sendo considerada há décadas um ponto crítico para sistemas de defesa antimísseis dos EUA. Além disso, autoridades americanas apontam a riqueza mineral do território — incluindo recursos essenciais para aplicações militares e de alta tecnologia — como elemento central para reduzir a dependência de cadeias controladas pela China.
Apesar disso, muitos desses recursos permanecem inexplorados, em razão de limitações de infraestrutura, escassez de mão de obra e desafios ambientais. No plano político interno, cresce na Groenlândia um sentimento de afirmação identitária inuit e de defesa da autodeterminação, especialmente em períodos eleitorais.
O primeiro-ministro groenlandês Jens-Frederik Nielsen reiterou o apelo por um “diálogo respeitoso” com Washington, enquanto autoridades locais e dinamarquesas solicitaram reuniões urgentes com Rubio para reduzir a escalada retórica.
Groenlândia, poder e limites da força
A retomada explícita da ambição americana sobre a Groenlândia revela a centralidade crescente do Ártico na disputa geopolítica global, mas também expõe tensões profundas entre poder militar, soberania nacional e alianças históricas. Ao tratar a possibilidade de uso da força como opção legítima, Washington tensiona princípios básicos que sustentam a OTAN desde o pós-guerra.
Embora os argumentos de segurança e acesso a minerais estratégicos tenham peso real, a reação coordenada de europeus e canadenses indica que há limites políticos claros para iniciativas unilaterais, sobretudo quando envolvem territórios de aliados. O episódio também evidencia contradições internas nos EUA, entre o discurso assertivo da Casa Branca e os esforços diplomáticos para conter danos institucionais.
No médio prazo, a insistência de Trump tende a reforçar debates sobre autonomia estratégica europeia, a governança do Ártico e o equilíbrio entre cooperação e competição entre aliados. A Groenlândia, nesse cenário, deixa de ser apenas uma ilha remota para se tornar símbolo de um teste crucial à ordem atlântica.
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