EUA capturam presidente Nicolás Maduro, anunciam tutela sobre a Venezuela e abalam a ordem internacional: soberania, petróleo e o risco de uma nova era de intervenções na América Latina

Ilustração das explosões na capital venezuelana, a captura do presidente Nicolás Maduro por forças norte-americanas e sua transferência para os Estados Unidos desencadearam a mais grave crise geopolítica regional desde a invasão do Panamá, em 1989.
Captura do presidente Nicolás Maduro pelos EUA, tutela sobre a Venezuela e disputa pelo petróleo expõem crise do direito internacional e elevam riscos para a América Latina.

A operação militar conduzida pelos Estados Unidos na Venezuela, na madrugada de sábado (03/01/2025), culminou na retirada forçada do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, do território venezuelano, na morte de agentes de segurança, em explosões em Caracas e na condução do chefe de Estado para custódia federal em Nova York. A ação, determinada pelo presidente Donald Trump, foi acompanhada do anúncio de que Washington pretende administrar provisoriamente o país e assumir o controle de setores estratégicos, especialmente o petróleo. Especialistas, governos e organismos multilaterais avaliam que o episódio viola frontalmente o direito internacional, compromete a arquitetura institucional do pós-Segunda Guerra Mundial e inaugura um precedente de alto risco para a soberania e a estabilidade da América Latina.

A operação militar e seus desdobramentos imediatos

Relatos confirmados por agências internacionais indicam que forças especiais norte-americanas atuaram em pontos estratégicos de Caracas, com confrontos armados e explosões em áreas urbanas. A ação resultou na captura de Maduro e de sua esposa, levados inicialmente a instalações federais ligadas à Administração de Repressão às Drogas (DEA) e, posteriormente, ao Centro de Detenção Metropolitano, no Brooklyn.

O governo dos Estados Unidos sustenta que Maduro responderá a acusações de narcoterrorismo e conspiração para o tráfico internacional de drogas, com base em investigações iniciadas em 2020. As acusações se apoiam na suposta existência do chamado “Cartel de Los Soles”, alegadamente integrado por altas autoridades venezuelanas. Especialistas em segurança e tráfico internacional, contudo, questionam a consistência das provas e a própria materialidade do cartel, apontando lacunas investigativas e fragilidade jurídica.

Tutela anunciada e disputa pelos recursos energéticos

Além da captura do presidente venezuelano, a Casa Branca declarou que os Estados Unidos pretendem administrar a Venezuela até a consolidação de uma transição política considerada “segura”. O próprio Trump afirmou que empresas norte-americanas passarão a controlar o setor petrolífero do país, que concentra as maiores reservas comprovadas de petróleo do planeta.

Analistas veem na declaração a confirmação de que o componente energético ocupa posição central na decisão estratégica. A Venezuela, além de potência petrolífera, possui reservas minerais estratégicas e localização geopolítica sensível, fatores que ampliam o interesse de Washington em um contexto de crescente presença econômica e política da China e da Rússia na América do Sul.

Direito internacional sob tensão

Juristas e professores de relações internacionais classificaram a operação como uma violação direta da soberania venezuelana e da Carta da Organização das Nações Unidas. Não houve autorização do Conselho de Segurança nem aprovação formal do Congresso dos Estados Unidos para o emprego de força militar ou para a captura de um chefe de Estado estrangeiro em exercício.

Para especialistas, o episódio simboliza a corrosão do sistema multilateral concebido após 1945, baseado na resolução pacífica de conflitos, na não intervenção e no respeito à integridade territorial dos Estados. A leitura predominante é de que a ação norte-americana reforça a lógica da força em detrimento das normas, com impactos estruturais sobre a governança global.

América Latina: vulnerabilidade estratégica e precedentes históricos

Pesquisadores alertam que a intervenção na Venezuela expõe toda a América Latina a um cenário de maior vulnerabilidade. Países com grandes reservas de petróleo, minerais críticos ou biodiversidade estratégica passam a ser vistos como potenciais alvos de pressão política, econômica ou mesmo militar.

O episódio remete a intervenções históricas dos Estados Unidos na região, como a invasão do Panamá, em 1989, quando o então presidente Manuel Noriega foi sequestrado sob acusações de narcotráfico. A diferença, segundo analistas, é que a ação atual ocorre em um ambiente internacional mais fragmentado, com múltiplos polos de poder e maior risco de escaladas indiretas.

A posição do Brasil e a tradição diplomática

O governo brasileiro reagiu reafirmando sua posição histórica em defesa do direito internacional, da soberania dos Estados e da solução pacífica de controvérsias. O Itamaraty reconheceu a vice-presidente Delcy Rodríguez como presidente interina, conforme decisão do Supremo Tribunal de Justiça venezuelano, e passou a atuar em articulações regionais e multilaterais.

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, participou de reuniões emergenciais da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos, enquanto o Brasil também levou o tema ao Conselho de Segurança da ONU. Autoridades brasileiras destacaram preocupação com a segurança regional e com a situação de cidadãos brasileiros em território venezuelano.

Reações regionais e internacionais

Brasil, Chile, Colômbia, Espanha, México e Uruguai divulgaram comunicado conjunto condenando a ação militar dos Estados Unidos e alertando para o “precedente extremamente perigoso” criado pela intervenção. A nota reafirma a América Latina e o Caribe como zona de paz e rejeita qualquer tentativa de apropriação externa de recursos naturais.

Na Europa, a União Europeia pediu moderação, respeito à vontade do povo venezuelano e uma solução pacífica, destacando que apenas um processo político inclusivo pode restaurar a estabilidade institucional. A China condenou veementemente a ação e exigiu a libertação imediata de Maduro, classificando o episódio como violação clara das normas básicas das relações internacionais.

Dissenso interno nos Estados Unidos

A operação também provocou críticas dentro dos próprios Estados Unidos. O senador Bernie Sanders afirmou que o presidente não tem autoridade constitucional para levar o país à guerra sem aprovação do Congresso e alertou para os riscos de uma escalada ilegal. A ex-vice-presidente Kamala Harris classificou a ação como mais um exemplo de guerras por mudança de regime travestidas de defesa da democracia.

O prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, definiu a incursão como “ato de guerra” e ressaltou impactos diretos sobre comunidades de imigrantes venezuelanos que vivem na cidade, além de possíveis consequências jurídicas internas.

Impacto social, diáspora e polarização

A captura de Maduro dividiu a diáspora venezuelana. Em diversas cidades da América Latina, da Europa e dos Estados Unidos, houve manifestações tanto de celebração quanto de repúdio à ação norte-americana. Organismos internacionais lembram que cerca de 20% da população venezuelana deixou o país desde 2014, o que amplia a dimensão humanitária da crise.

Na própria Venezuela, protestos contra a intervenção foram registrados, enquanto setores opositores no exterior manifestaram expectativa de mudança política. Analistas observam, contudo, que a retirada forçada do presidente não garante, por si só, estabilidade institucional nem reconstrução democrática.

O colapso das regras e a lógica da força

A intervenção dos Estados Unidos na Venezuela sinaliza um enfraquecimento profundo da ordem internacional baseada em regras. Ao capturar um chefe de Estado estrangeiro sem respaldo jurídico multilateral, Washington reabre um ciclo de excepcionalidade que havia sido parcialmente contido no pós-Guerra Fria.

Os desdobramentos revelam uma convergência entre interesses geopolíticos, energéticos e estratégicos, em um contexto de competição global acelerada. A ausência de mandato internacional, a indefinição sobre a tutela anunciada e a retórica de controle de recursos ampliam a percepção de que princípios históricos como soberania e não intervenção estão sendo relativizados.

Para a América Latina, o episódio representa um alerta estrutural. A capacidade de resposta regional, a coesão diplomática e o fortalecimento das instituições multilaterais serão determinantes para evitar a consolidação de um precedente que fragiliza Estados nacionais e reintroduz a força como instrumento central de política externa.


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