Ex-presidente Nicolás Maduro se declara inocente em tribunal dos EUA após captura ordenada por Trump e Venezuela entra em transição política

O ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro comparece ao tribunal federal de Manhattan após ser capturado em operação dos Estados Unidos; em Caracas, Delcy Rodríguez assume interinamente a Presidência.
Maduro se declara inocente em tribunal dos EUA após captura ordenada por Trump; Venezuela inicia transição com Delcy Rodríguez e crise provoca reação internacional.

O presidente deposto da Venezuela, Nicolás Maduro, declarou-se nesta segunda-feira (05/01/2026) inocente das acusações de tráfico internacional de drogas e narcoterrorismo durante audiência no tribunal federal de Manhattan, horas após uma operação militar autorizada pelo presidente Donald Trump resultar em sua captura em Caracas. O episódio desencadeou uma transição política imediata na Venezuela, com a posse interina de Delcy Rodríguez, reações internacionais no Conselho de Segurança da ONU e questionamentos jurídicos sobre a legalidade da ação americana.

Audiência em Nova York e declaração de inocência

Durante a audiência de custódia, Maduro, de 63 anos, vestindo uniforme de presidiário e algemas nos tornozelos, ouviu as acusações por meio de um intérprete. Ao ser autorizado a falar, afirmou ser “inocente” e declarou-se ainda presidente legítimo da Venezuela, sendo interrompido pelo juiz distrital Alvin Hellerstein. Sua esposa, Cilia Flores, também se declarou inocente. A próxima audiência foi marcada para 17 de março.

Do lado de fora do tribunal, manifestantes pró e anti-Maduro se reuniram em protestos simultâneos. A audiência durou cerca de meia hora e incluiu a comunicação formal dos direitos consulares do casal. Promotores sustentaram que as investigações apontam envolvimento de Maduro com o narcotráfico desde o início de sua carreira política, ainda nos anos 2000, passando por cargos ministeriais até a Presidência, assumida em 2013 após a morte de Hugo Chávez.

Acusações de narcotráfico e conexões internacionais

As denúncias apresentadas pelos Estados Unidos incluem narcoterrorismo, conspiração para importação de cocaína, além de posse de armas de uso restrito. Segundo a acusação, Maduro teria liderado uma rede que manteve alianças com o Cartel de Sinaloa, Los Zetas, as FARC e o grupo venezuelano Tren de Aragua. O ex-presidente nega veementemente as acusações, classificando-as como parte de um plano geopolítico voltado às reservas petrolíferas venezuelanas.

Uma acusação original foi apresentada em 2020, com atualização tornada pública no fim de semana, incluindo novos detalhes e corréus, entre eles Cilia Flores. As autoridades americanas reiteram que consideram Maduro ilegítimo desde as eleições de 2018, marcadas por denúncias de irregularidades.

Operação militar e questionamentos jurídicos

A captura ocorreu no sábado, quando forças especiais dos EUA invadiram Caracas de helicóptero, romperam o esquema de segurança presidencial e retiraram Maduro de um local protegido. Especialistas em direito internacional ouvidos por agências internacionais classificaram a operação como extraordinária e levantaram dúvidas sobre sua compatibilidade com o direito internacional, comparando-a à invasão do Panamá, em 1989.

O advogado de defesa Barry Pollack afirmou que a estratégia jurídica se concentrará na tese de “sequestro militar”, prevendo um litígio prolongado. A defesa de Cilia Flores relatou ferimentos físicos e solicitou exames médicos imediatos.

Transição política em Caracas

Poucas horas após a audiência em Nova York, Delcy Rodríguez tomou posse como presidente interina da Venezuela, discursando em apoio a Maduro, mas sem anunciar contestação direta à ação dos EUA. Relatórios de inteligência americana indicam que Rodríguez seria a figura com maior capacidade de manter a ordem institucional no curto prazo, enquanto lideranças oposicionistas, como Maria Corina Machado e Edmundo González, enfrentariam dificuldades de legitimidade.

No mesmo dia, Jorge Rodríguez, irmão da presidente interina, foi reconduzido à presidência da Assembleia Nacional, de maioria governista, prometendo utilizar “todos os fóruns e procedimentos” para buscar o retorno de Maduro ao poder.

Reação internacional e ONU

O episódio foi levado ao Conselho de Segurança da ONU, onde Rússia, China e aliados do governo venezuelano condenaram a ação americana. O secretário-geral António Guterres manifestou preocupação com a estabilidade regional e com os precedentes abertos pela operação.

Trump, por sua vez, declarou à NBC News que os Estados Unidos “não estão em guerra com a Venezuela, mas com o tráfico de drogas”, descartando eleições imediatas no país e defendendo um período de reconstrução institucional antes de qualquer pleito.

Petróleo, economia e interesses estratégicos

O presidente americano reiterou o interesse em retomar a presença de empresas petrolíferas dos EUA na Venezuela e reconstruir a infraestrutura do setor em até 18 meses. Após as declarações, ações de companhias petrolíferas americanas registraram alta, impulsionadas pela expectativa de acesso às vastas reservas venezuelanas. Segundo a imprensa americana, executivos de empresas como Exxon Mobil, Chevron e ConocoPhillips devem se reunir com o secretário de Energia dos EUA.

Captura de Maduro e ruptura do equilíbrio regional

A prisão de Nicolás Maduro representa um ponto de inflexão na política hemisférica, combinando aplicação extraterritorial da lei penal americana com uma ação militar direta em território estrangeiro. O caso expõe tensões entre o combate ao narcotráfico e os limites do direito internacional, além de fragilizar mecanismos tradicionais de mediação diplomática.

No plano interno venezuelano, a posse interina de Delcy Rodríguez sugere uma transição controlada, preservando o núcleo do poder chavista e afastando, ao menos inicialmente, a oposição do centro decisório. Externamente, a iniciativa dos EUA reabre o debate sobre intervenções unilaterais e seus impactos na ordem internacional baseada em regras.

Por fim, a centralidade do petróleo nas declarações de Trump indica que interesses energéticos permanecem entrelaçados às decisões de segurança, reforçando a leitura de que a crise venezuelana ultrapassa o campo jurídico e se insere em uma disputa estratégica de longo prazo.

*Com informações da Agência Reuters e BBC Btasil.


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