No sábado, 25 de janeiro de 2026, um movimento político de grandes proporções começa a se consolidar no cenário eleitoral brasileiro: governadores em fim de mandato despontam como favoritos absolutos na disputa pelo Senado, aproveitando a visibilidade acumulada, o controle da máquina administrativa e a capilaridade política construída ao longo de até oito anos à frente dos Executivos estaduais. Dos dezoito governadores que encerram seus mandatos, doze já admitem disputar uma vaga, em um processo que pode resultar na maior bancada de ex-governadores já vista na história da Casa, com impactos diretos sobre o equilíbrio de forças no Congresso Nacional a partir de 2027.
A migração de governadores para o Senado não é novidade na política brasileira. Trata-se de uma rota tradicional de preservação de poder, utilizada por chefes do Executivo estadual que, impedidos de um terceiro mandato consecutivo, buscam manter protagonismo institucional em Brasília.
O que diferencia o pleito de 2026 é a escala do fenômeno. Nas eleições de 2022, quatro governadores renunciaram antes do fim do mandato para disputar o Senado — e todos foram eleitos. Agora, o movimento tende a se repetir de forma ampliada. Dos doze governadores que precisam deixar o cargo até abril para concorrer, sete já confirmaram a candidatura, três avaliam a possibilidade e apenas dois, até o momento, descartaram oficialmente a disputa.
A lógica é simples e brutalmente eficiente: governadores são mais conhecidos, controlam orçamentos robustos, acumulam entregas concretas e contam com redes políticas consolidadas nos municípios, o que lhes garante vantagem competitiva significativa desde a largada.
A força da máquina administrativa como ativo eleitoral
O controle da máquina pública segue sendo o principal diferencial eleitoral. No Rio de Janeiro, o governador Cláudio Castro lidera as pesquisas para o Senado, apesar de responder a ações de cassação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por suposto uso indevido da estrutura estadual em 2022.
Segundo levantamento do Instituto Real Time, Castro aparece 15 pontos percentuais à frente do segundo colocado. Até meados de 2025, sua gestão enfrentava alta rejeição, mas uma operação policial de grande impacto contra o crime organizado, que resultou em 122 mortos, reposicionou sua imagem junto ao eleitorado, em um contexto em que segurança pública figura como principal preocupação nacional.
Para o deputado federal Otoni de Paula, também candidato ao Senado, “vencer um governador é uma das tarefas mais difíceis da política brasileira, porque a força administrativa tende a compensar até níveis elevados de rejeição”.
Distrito Federal, Pará e o peso do orçamento
No Distrito Federal, Ibaneis Rocha mantém liderança confortável, apesar de episódios controversos, como o afastamento temporário após os atos de 8 de Janeiro e investigações relacionadas ao escândalo do Banco Master. Seu trunfo foi o uso intensivo de um orçamento bilionário, com obras, regularização fundiária, expansão de benefícios sociais e investimentos em infraestrutura.
Mesmo adversários reconhecem o peso da posição. Ricardo Cappelli, presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), admite que estar no governo não garante eleição, mas amplia consideravelmente as chances.
No Pará, o governador Helder Barbalho aparece como um dos casos mais emblemáticos. Com forte protagonismo na organização da COP30 em Belém, Barbalho lidera as pesquisas com 50,8% das intenções de voto, segundo o instituto Paraná Pesquisas. O MDB ainda cogita lançá-lo como vice em uma chapa presidencial, mas, caso a articulação fracasse, o Senado surge como caminho natural e seguro.
Presidenciáveis que podem migrar para o Congresso
A projeção de uma bancada ainda mais robusta se fortalece com governadores que, hoje, ensaiam candidaturas ao Planalto. Ratinho Jr., Ronaldo Caiado e Romeu Zema figuram como pré-candidatos à Presidência, mas enfrentam dificuldades para romper a polarização nacional.
Nas simulações presidenciais, os três não ultrapassam a casa dos 3%, enquanto, nas pesquisas para o Senado, largam acima dos 20 pontos percentuais, com cenário amplamente favorável. No Paraná, até adversários reconhecem que Ratinho Jr., com alta aprovação, apoio parlamentar e controle da máquina, seria praticamente imbatível na disputa senatorial.
As exceções: medo de traição dos vices
Apesar do favoritismo generalizado, duas exceções chamam atenção. No Maranhão, o governador Carlos Brandão lidera as pesquisas para o Senado, mas resiste à candidatura por um motivo central: não quer entregar o comando do Estado ao vice, Felipe Camarão, com quem rompeu politicamente.
Situação semelhante ocorre em Rondônia. O governador Marcos Rocha também aparece como favorito, mas hesita em renunciar após conflito aberto com o vice, Sérgio Gonçalves, que acionou a Justiça durante a ausência do titular em viagem ao exterior.
Ambos os casos evidenciam que o controle da máquina não é apenas um trunfo eleitoral, mas também um ativo político que poucos estão dispostos a transferir a adversários internos.
O silêncio legislativo diante do desequilíbrio
Embora o fenômeno seja amplamente conhecido, são raras as iniciativas legislativas para reduzir a vantagem estrutural dos governadores. Para a cientista política Maria do Socorro Braga, o sistema eleitoral favorece quem ocupa o Executivo, e qualquer tentativa de correção esbarra no oportunismo da própria classe política, que evita mexer em regras das quais pode se beneficiar no futuro.
O Senado como refúgio natural do poder estadual
A ofensiva dos governadores rumo ao Senado em 2026 revela uma distorção estrutural persistente no sistema político brasileiro, em que o controle do Executivo se converte quase automaticamente em vantagem eleitoral desproporcional. O fenômeno reforça a lógica de continuidade do poder, reduzindo a competitividade e limitando a renovação real da representação parlamentar.
Ao mesmo tempo, a possível formação da maior bancada de ex-governadores da história tende a alterar o funcionamento interno do Senado, fortalecendo interesses regionais organizados e ampliando a capacidade de pressão sobre o Executivo federal. A Casa, já conhecida por sua atuação corporativa, pode se tornar ainda mais resistente a reformas que afetem o pacto federativo ou o uso das máquinas estaduais.
Por fim, as exceções do Maranhão e de Rondônia expõem uma contradição central: o mesmo instrumento que impulsiona candidaturas — o controle do governo — também se transforma em obstáculo quando há risco de perda política interna, revelando o caráter essencialmente pragmático da decisão de concorrer.
*Com informações da Revista Veja.











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