O governo do presidente Donald Trump iniciou nesta segunda-feira (05/01/2026) articulações para se reunir com executivos das principais empresas petrolíferas dos Estados Unidos com o objetivo de discutir a retomada e a ampliação da produção de petróleo na Venezuela, poucos dias após a prisão do ex-presidente Nicolás Maduro por forças americanas. A estratégia envolve a reabertura do setor energético venezuelano ao capital privado estrangeiro, a manutenção temporária de sanções, o possível subsídio estatal à reconstrução da infraestrutura e um reposicionamento geopolítico que pode alterar fluxos globais de petróleo, afetando diretamente China, refinarias norte-americanas e o mercado internacional de energia.
O plano da Casa Branca prevê reuniões ainda nesta semana entre representantes do governo Trump e executivos do setor petrolífero, em um movimento considerado central para viabilizar a volta de grandes companhias americanas à Venezuela, quase duas décadas após a perda do controle de operações energéticas no país. Fontes do setor afirmam que essas conversas não ocorreram previamente à operação militar que resultou na captura de Maduro, contrariando declarações públicas do presidente dos EUA.
Executivos das três maiores petroleiras americanas — Exxon Mobil, Chevron e ConocoPhillips — relataram à Reuters que não foram consultados antes ou imediatamente após a destituição do líder venezuelano. Segundo uma das fontes, nenhuma dessas companhias havia discutido oficialmente com a Casa Branca a possibilidade de operar na Venezuela até o momento, o que expõe uma discrepância entre o discurso político e a articulação prática com o setor privado.
A Casa Branca, por sua vez, sustenta que a indústria petrolífera americana estaria pronta para realizar grandes investimentos no país sul-americano, alegando que a infraestrutura energética venezuelana foi severamente degradada durante o governo Maduro. O governo também admite a possibilidade de subsídios públicos para viabilizar a reconstrução do setor.
Produção, reservas e obstáculos estruturais
A Venezuela detém as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, estimadas em cerca de 303 bilhões de barris, concentradas principalmente na Faixa do Orinoco. Apesar desse potencial, a produção venezuelana caiu drasticamente nas últimas décadas, passando de um pico de 3,7 milhões de barris por dia em 1970 para cerca de 900 mil barris diários em 2024, menos de 1% da oferta global.
Analistas do setor afirmam que qualquer recuperação significativa exigirá anos de trabalho e investimentos de bilhões de dólares, além de estabilidade política, segurança jurídica e revisão de passivos acumulados. A Venezuela deve bilhões de dólares em disputas e custos não pagos a empresas como Exxon, Chevron e ConocoPhillips, o que representa um entrave adicional para novos aportes.
Mesmo em cenários considerados otimistas por consultorias como a Rapidan Energy, a produção venezuelana poderia crescer cerca de 200 mil barris por dia no primeiro ano após a saída de Maduro e alcançar 2 milhões de barris diários apenas ao longo de uma década, o que afasta expectativas de resultados imediatos.
Bloqueio, exportações e manobras no transporte marítimo
Apesar do bloqueio imposto pelos Estados Unidos às exportações de petróleo venezuelano sancionado, cerca de uma dúzia de petroleiros carregados com petróleo e derivados deixaram águas venezuelanas desde o início de 2026. Documentos e dados de monitoramento marítimo indicam que parte dessas embarcações navegou sem bandeira conhecida ou com sistemas de rastreamento desligados, prática recorrente no transporte de petróleo sujeito a sanções.
Esses navios transportariam aproximadamente 12 milhões de barris de petróleo bruto pesado e óleo combustível, com destino ainda incerto, embora carregamentos anteriores tivessem como foco a Ásia. As exportações da estatal PDVSA chegaram a ser praticamente interrompidas, forçando a redução da produção devido à superlotação dos estoques.
Em contraste, a Chevron, única empresa autorizada por Washington a exportar petróleo venezuelano, retomou as remessas aos Estados Unidos após breve pausa, enviando cerca de 300 mil barris de petróleo pesado para refinarias da costa do Golfo. A empresa se tornou, nos últimos anos, a principal parceira operacional da PDVSA em meio à crise política e econômica do país.
Impacto nos mercados e aposta milionária
A prisão de Maduro teve reflexos imediatos nos mercados financeiros. Ações do setor de energia avançaram, os preços do petróleo subiram moderadamente e títulos da dívida venezuelana registraram forte valorização, impulsionados pela expectativa de um acordo político mais amplo.
Nesse contexto, um investidor anônimo lucrou cerca de US$ 410 mil ao apostar, por meio da plataforma Polymarket, na destituição do presidente venezuelano. As apostas, realizadas semanas antes da operação militar, levantaram questionamentos sobre possível uso de informações privilegiadas e reacenderam o debate no Congresso dos EUA sobre a necessidade de regras mais rígidas para mercados de previsão e apostas financeiras.
Redirecionamento das exportações e impacto geopolítico
Especialistas avaliam que uma transição política alinhada aos interesses de Washington deve provocar um redirecionamento rápido das exportações venezuelanas de petróleo para os Estados Unidos, em detrimento da China, hoje principal compradora do produto venezuelano. Refinarias americanas da costa do Golfo, projetadas historicamente para processar petróleo pesado, tendem a ser as maiores beneficiadas.
A China, que absorveu mais da metade das exportações venezuelanas nos últimos anos — muitas vezes com grandes descontos —, pode perder espaço caso as sanções sejam flexibilizadas e o petróleo passe a ser comercializado a preços internacionais. Parte relevante dessas exportações também está vinculada ao pagamento de dívidas de Caracas com Pequim, o que adiciona incerteza ao futuro desses fluxos.
Energia, poder e incerteza institucional
A ofensiva dos Estados Unidos sobre a Venezuela evidencia como o petróleo permanece um instrumento central de poder geopolítico, capaz de redefinir alianças, mercados e estratégias industriais em curto espaço de tempo. A tentativa de reabrir o setor venezuelano ao capital americano reforça uma lógica histórica de integração energética hemisférica, interrompida por décadas de nacionalizações e instabilidade política.
Entretanto, o discurso político contrasta com a realidade operacional. A ausência de consultas prévias às grandes petroleiras, os passivos financeiros acumulados, as restrições legais e a necessidade de estabilidade institucional indicam que a reconstrução do setor será lenta e complexa, mesmo sob um governo provisório alinhado a Washington.
Além disso, a manutenção simultânea de sanções, bloqueios seletivos e ameaças militares cria um ambiente de incerteza que pode inibir investimentos de longo prazo. O episódio sinaliza que, embora as regras do jogo energético global estejam em transformação, o risco político continua sendo o principal fator de contenção para a retomada plena da indústria petrolífera venezuelana.
*Com informações da Agência Reuters e BBC Brasil.
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