Governo Trump veem controle da Groenlândia como peça-chave para EUA conter a China no Ártico, avaliam especialistas

O interesse dos Estados Unidos na Groenlândia está ligado ao controle das futuras rotas marítimas do Ártico, que devem ganhar relevância com o derretimento das calotas polares. Especialistas apontam que Washington busca conter a expansão da China e equilibrar a vantagem estratégica da Rússia. A postura do governo Trump, marcada por ameaças de anexação, gera críticas de aliados e reacende debates sobre soberania, direito internacional e estabilidade geopolítica.
Mapa estratégico do Oceano Ártico destaca a Groenlândia no centro das novas rotas marítimas globais, em meio à disputa geopolítica entre Estados Unidos, China e Rússia, em 2026.

Especialistas em relações internacionais e geopolítica avaliam que o interesse dos Estados Unidos na Groenlândia está diretamente ligado à estratégia de controle das rotas marítimas do Oceano Ártico como forma de conter a expansão comercial e estratégica da China. O avanço do derretimento das calotas polares, acelerado pelas mudanças climáticas, tende a reduzir custos logísticos e reposicionar o Ártico como corredor vital entre Ásia, Europa e América do Norte, ampliando disputas de poder no cenário internacional.

O Ártico como nova fronteira do comércio global

O Oceano Ártico conecta três dos principais polos econômicos do planeta. Com o aquecimento global, projeções indicam que o derretimento do gelo marinho poderá reduzir significativamente o tempo e o custo do transporte marítimo, tornando a região uma alternativa estratégica às rotas tradicionais.

Dados de observação por satélite da NASA apontam que o gelo marinho do Ártico diminui cerca de 13% por década. Já o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) estima que o oceano poderá ficar praticamente livre de gelo entre 2050 e 2070, cenário que altera profundamente o equilíbrio logístico e geopolítico global.

Segundo analistas, cerca de 80% do comércio mundial é realizado por vias marítimas, o que reforça a centralidade do Ártico no cálculo estratégico das grandes potências.

Estratégia dos EUA e a lógica do controle marítimo

Para o major-general português Agostinho Costa, especialista em segurança e geopolítica, a intenção norte-americana de anexar a Groenlândia se insere em uma política clássica de domínio das rotas marítimas globais.

Na avaliação do militar, os Estados Unidos já exercem forte controle sobre o Pacífico e o Atlântico, mas mantêm presença limitada no Ártico. A Groenlândia, localizada em posição estratégica, permitiria a Washington reduzir a influência de concorrentes, especialmente a China, em um oceano que tende a ganhar importância econômica crescente.

Essa leitura é reforçada pela percepção de que o Ártico representa hoje a última grande fronteira marítima fora da hegemonia direta norte-americana.

China, Rússia e a corrida pelo Norte

Em 2018, a China publicou documento no qual se define como um país “quase-ártico”, sinalizando interesse explícito na região. Desde então, Pequim tem ampliado a cooperação com a Rússia para fortalecer sua presença econômica e científica no Ártico.

O cientista político Ali Ramos observa que o derretimento das calotas polares pode baratear o frete marítimo em mais de um terço na chamada Rota Marítima do Norte, encurtando o caminho entre a China e a Europa.

Ramos destaca ainda que a Rússia possui mais que o dobro de bases militares da OTAN na região ártica, o que amplia sua capacidade de dissuasão e controle logístico. Nesse contexto, Groenlândia e Canadá assumem papel central para os planos estratégicos de Washington, envolvendo bases militares, sistemas de mísseis e vigilância avançada.

Documentos oficiais e o reposicionamento estratégico

Em documento publicado em 2024, ainda durante o governo Joe Biden, o Departamento de Defesa dos EUA reconheceu o Ártico como área vital para frear concorrentes estratégicos dos Estados Unidos.

O texto cita fatores como a guerra na Ucrânia, a entrada de Finlândia e Suécia na OTAN, o aprofundamento da cooperação sino-russa e os impactos acelerados das mudanças climáticas como elementos que exigem uma nova abordagem estratégica para a região.

A Rússia, que detém cerca de 54% do litoral ártico, encontra-se em posição privilegiada para influenciar o desenho das rotas marítimas futuras, o que, segundo analistas, pode gerar vantagens econômicas e diplomáticas significativas.

A Groenlândia no centro da tensão internacional

Com cerca de 56 mil habitantes, a Groenlândia é um território semiautônomo ligado ao Reino da Dinamarca. Desde o início de seu segundo mandato, o presidente Donald Trump tem reiterado publicamente a intenção de invadir e anexar a região, provocando críticas inclusive entre aliados europeus.

Em declarações recentes, Trump justificou a ameaça com argumentos de segurança nacional, alegando presença de navios russos e chineses ao longo da costa groenlandesa. As falas ocorreram em meio a um contexto internacional já tensionado por ações militares dos EUA em outras regiões.

Leitura histórica e crítica militar

Agostinho Costa avalia que a postura do governo Trump remete a estratégias de séculos passados, baseadas na força e no controle direto de territórios estratégicos. Para o general, declarações sobre o Canal do Panamá, o Canadá como 51º estado e a própria Groenlândia revelam uma visão de poder associada à dominação dos mares, típica dos séculos XV e XVI.

Essa abordagem, segundo ele, ignora os marcos do direito internacional contemporâneo e tende a aumentar tensões institucionais e diplomáticas em um cenário global já instável.

Geopolítica do Ártico e riscos institucionais

A disputa pela Groenlândia expõe a reconfiguração do poder global em um contexto de mudanças climáticas aceleradas. O Ártico deixa de ser periferia geográfica para se tornar eixo central da logística internacional, atraindo interesses militares, econômicos e tecnológicos.

A estratégia dos Estados Unidos revela uma tentativa de antecipação geopolítica, buscando impedir que China e Rússia convertam vantagens geográficas em influência estrutural. No entanto, o discurso de anexação territorial reabre debates sensíveis sobre soberania, legalidade internacional e estabilidade entre aliados ocidentais.

Há, ainda, uma tensão evidente entre a retórica de segurança e os impactos diplomáticos dessa postura. A ausência de soluções multilaterais e o recurso a ameaças unilaterais podem aprofundar divisões no sistema internacional e fragilizar mecanismos tradicionais de governança global.

*Com informações dos jornais O Globo, Folha de S.Paulo, Estadão, Revista Veja, site Metrópoles e Agência Brasil.


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