No momento em que organizações de direitos humanos estimam mais de 600 mortos na repressão a protestos iniciados em 28 de dezembro, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou a imposição de tarifas de 25% contra países que mantenham relações comerciais com o Irã, com efeito imediato, elevando a pressão econômica sobre Teerã e ampliando o risco de atrito com a China, maior parceira comercial do país persa. O cenário é agravado por um apagão nacional de internet iniciado em 8 de janeiro, denúncias de prisões em massa e relatos de manipulação informativa por meios estatais, enquanto o governo iraniano afirma estar “plenamente preparado” para a guerra, embora mantenha a possibilidade de negociação.
Escalada da repressão: mortos, prisões e bloqueio informacional
Organizações independentes divergem sobre a extensão exata da violência, mas convergem na tendência de agravamento. A Iran Human Rights (IHR) afirma que ao menos 648 manifestantes teriam sido mortos desde o início da contestação, em 28 de dezembro, admitindo a possibilidade de subnotificação e mencionando relatos não confirmados que falam em números muito superiores. Outra organização, a HRANA, contabiliza centenas de mortes e informa mais de 10 mil prisões.
Além do custo humano, o controle das comunicações tornou-se eixo central da crise. A ONG NetBlocks informou que o corte nacional de internet, iniciado em 8 de janeiro, ultrapassou quatro dias e isola a população “do resto do mundo” e entre si. Mesmo com a retomada de ligações telefônicas internacionais interrompidas desde sexta-feira (9), a circulação de informação independente permanece limitada e irregular, com relatos chegando ao exterior com atraso.
Em meio ao bloqueio, entidades apontam que as únicas versões amplamente disseminadas dentro do país tendem a ser aquelas de veículos alinhados ao Estado. A Repórteres sem Fronteiras sustenta que a imprensa estatal opera como difusora de propaganda oficial. A Anistia Internacional, por sua vez, afirma que o regime tem coagido famílias de vítimas a aparecerem em meios estatais para atribuir mortes a acidentes ou aos próprios manifestantes — um padrão que, segundo registros históricos de entidades internacionais, já teria sido usado para silenciar dissidências e justificar repressão.
A decisão de Trump: tarifa de 25% e pressão sobre parceiros do Irã
Na segunda-feira (12), Trump declarou que qualquer país que comercializar com o Irã será atingido por tarifas de 25% em suas transações com os Estados Unidos, descrevendo a medida como “definitiva” e “imediata”, em publicação na rede Truth Social. A iniciativa é apresentada como resposta ao quadro de repressão interna no Irã e ocorre em paralelo a declarações de que Washington considera “opções muito fortes”, incluindo medidas militares, caso a violência contra manifestantes continue.
O anúncio atinge, no mínimo em tese, um conjunto amplo de economias com vínculos comerciais e energéticos com Teerã. O petróleo permanece no centro da equação: apesar de sanções anteriores, o Irã continua exportando, e a China é apontada no próprio material de referência como seu principal destino comercial, com destaque também para Iraque, Emirados Árabes Unidos, Turquia e Índia. A ameaça tarifária cria um instrumento indireto: em vez de apenas punir Teerã, pune-se o entorno que mantém o fluxo econômico do regime.
Em termos operacionais, a Casa Branca ainda não detalhou a implementação, critérios, exceções e mecanismos de fiscalização. Esse ponto é decisivo: sem regras claras e enforcement consistente, tarifas “extraterritoriais” podem virar sinalização política mais do que política comercial efetiva — ou podem se transformar em gatilho de retaliações em cadeia, a depender de quem for efetivamente atingido.
China reage e rejeita escalada: “não há vencedores em guerra comercial”
A resposta chinesa veio nesta terça-feira (13). A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Mao Ning, declarou que Pequim defenderá “com firmeza” seus interesses e reiterou a posição de que “não há vencedores” em guerras comerciais, sinalizando disposição para proteger direitos e interesses “legítimos”.
A reação ocorre num contexto de atrito recente: em 2025, após o retorno de Trump à Casa Branca, EUA e China protagonizaram uma guerra comercial, com tarifas e retaliações, seguida por uma trégua firmada em outubro. A medida anunciada agora, por tocar a relação sino-iraniana, reabre um flanco sensível: o Irã é simultaneamente fornecedor energético e peça geopolítica numa disputa maior sobre rotas, influência regional e capacidade de Washington de restringir alternativas econômicas a regimes sancionados.
Pequim também reafirmou oposição a operações militares dos EUA no Irã e disse acompanhar a segurança de cidadãos chineses no país. O posicionamento reforça a leitura de que a China tentará separar o tema humanitário (mortes e repressão) do tema estratégico (sanções e coerção econômica), resistindo a decisões unilaterais que possam aumentar custos para sua economia.
Teerã endurece retórica, organiza atos pró-regime e acusa “terrorismo” e ingerência
Enquanto denúncias de repressão circulam no exterior, o governo iraniano buscou demonstrar controle interno. Nos últimos dias, as autoridades organizaram manifestações pró-regime em várias partes do país, com grande concentração na Praça da Revolução, em Teerã, atendendo a um chamado do presidente Massoud Pezeshkian. Em imagens divulgadas por veículos estatais, a mobilização exibe bandeiras do regime e palavras de ordem antiamericanas.
O líder supremo, Ali Khamenei, classificou as manifestações como “aviso” aos Estados Unidos. O presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, afirmou que o país trava guerra contra “terroristas” e ameaçou responder de forma dura a eventual ataque.
No plano diplomático, Teerã convocou representantes de Alemanha, França, Itália e Reino Unido após manifestações de apoio a protestos. Fontes indicaram que parte do pessoal diplomático não essencial da embaixada francesa deixou o país. Em paralelo, o chanceler Abbas Araghchi afirmou que o Irã não busca a guerra, mas está “plenamente preparado” para ela, mantendo aberta a via de negociação.
Pressão internacional: Europa condena violência, Rússia denuncia ingerência
A reação europeia foi de condenação. O presidente francês Emmanuel Macron criticou a “violência de Estado” contra manifestantes; Londres classificou a repressão como “horrível” e cobrou cessação imediata. A União Europeia indicou avaliar novas sanções, mais severas.
No sentido oposto, a Rússia denunciou “ingerência externa” e classificou como inaceitáveis ameaças de novos ataques militares ao Irã, alertando para consequências regionais e globais. O contraste evidencia um padrão clássico de crises internacionais: a disputa não é apenas sobre fatos no terreno, mas sobre quem tem legitimidade para reagir, punir e intervir.
Economia doméstica e faísca social: protestos começam pelo custo de vida e viram crise política
O material aponta que as manifestações teriam sido desencadeadas por crise econômica, incluindo inflação e deterioração do poder de compra, com referência a choques no custo de vida após mudanças em subsídios e preços. A leitura de analistas citados sustenta que o que começou como protesto econômico evoluiu para desafio direto ao regime, agravado por violência nas ruas, repressão e narrativas de ameaça externa.
A Reuters, em outro recorte incorporado ao conteúdo, descreve um componente simbólico relevante: comerciantes do bazar, historicamente associados ao tecido social e econômico que sustentou a Revolução de 1979, teriam se voltado contra os clérigos, em meio a queixas sobre sanções, volatilidade e o peso da Guarda Revolucionária na economia. Essa dinâmica é importante porque sugere tensão não só entre Estado e jovens urbanos, mas entre Estado e setores tradicionais de comércio — o que, em regimes de longa duração, costuma ser indicador de estresse sistêmico.
Repressão interna, coerção externa e a disputa pela narrativa
A crise iraniana, tal como descrita nas fontes, é um caso exemplar de como colapsos econômicos, repressão estatal e isolamento informacional se retroalimentam: quanto maior a violência, maior a necessidade do regime de controlar comunicação; quanto maior o bloqueio, mais difícil é verificar números; e quanto mais opaco o cenário, maior o espaço para disputas de propaganda e para decisões externas baseadas em sinais políticos, não em auditoria factual independente.
Do lado dos EUA, a tarifa anunciada por Trump representa uma estratégia de coerção indireta, mirando parceiros do Irã para reduzir sua oxigenação econômica — mas com custo potencial de reabrir fraturas com a China e tensionar o sistema comercial global. A ausência de detalhes operacionais (escopo, critérios e enforcement) é um ponto crítico: sem transparência, cresce o risco de uso seletivo da medida como ferramenta de barganha geopolítica, e não como política consistente.
Há ainda um elemento institucional delicado: declarações públicas de incentivo a protestos e a menções a “ajuda a caminho”, combinadas com discussões de operações militares e ações secretas, elevam o risco de que o regime iraniano reclassifique contestação interna como ameaça externa, justificando escalada repressiva. Em crises desse tipo, a disputa não é apenas pelo controle do Estado, mas pela legitimidade internacional do que está sendo feito — e por quem.
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