O lançamento do livro “Por que a esquerda morreu? e o que devemos fazer para ressuscitá-la”, do sociólogo Jessé Souza, reacendeu o debate público sobre o futuro do campo progressista no Brasil, especialmente diante da aproximação do ciclo eleitoral de 2026. Publicada em 10 de novembro de 2025, a obra propõe uma leitura crítica da crise da esquerda brasileira, associando-a às transformações estruturais do capitalismo contemporâneo e à incapacidade das forças progressistas de formular uma narrativa política e simbólica capaz de dialogar com as maiorias sociais.
A tese central sustenta que a esquerda perdeu centralidade não por falhas pontuais de gestão ou comunicação, mas por desalinhamento histórico diante de um capitalismo reconfigurado, marcado por novas formas de exploração econômica, precarização do trabalho e enfraquecimento dos mecanismos tradicionais de regulação estatal. Nesse cenário, segundo o autor, a política progressista passou a reagir de forma lenta e fragmentada a mudanças que exigiriam reorganização profunda e estratégica.
Capitalismo, pacto social e cultura política
Ao longo do livro, Jessé Souza argumenta que parte significativa da economia assumiu um caráter ultraliberal com apelo popular, dificultando a atuação reguladora do Estado e corroendo o pacto social construído ao longo do século XX. Esse processo teria efeitos diretos sobre a cultura política, favorecendo valores conservadores e individualistas, mesmo entre segmentos historicamente associados à esquerda.
Nesse contexto, o autor afirma que a crise da esquerda é, antes de tudo, cultural e simbólica, não apenas eleitoral. A ausência de uma narrativa capaz de explicar as novas formas de exploração e de oferecer horizonte coletivo teria permitido que forças conservadoras ocupassem o espaço discursivo junto às camadas populares, traduzindo frustrações sociais em pautas morais e identitárias dissociadas de conflitos econômicos estruturais.
O livro se insere em uma trajetória intelectual marcada por críticas consistentes às interpretações que atribuem à corrupção o papel de eixo explicativo central da política brasileira. Em obras anteriores, Jessé Souza enfatizou a permanência da herança escravocrata, do racismo estrutural e das hierarquias sociais como elementos fundantes da desigualdade e da exclusão no país.
A entrevista e a “autópsia” antes de 2026
Em entrevistas concedidas por ocasião do lançamento, o sociólogo afirma que escreveu o livro movido por um sentimento de urgência diante do que descreve como esvaziamento estratégico da esquerda. Para ele, o campo progressista entra em 2026 sem uma direção clara, excessivamente dependente do capital simbólico do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pouco preparado para enfrentar o cenário político pós-Lula.
Segundo essa leitura, a força pessoal do presidente — especialmente sua capacidade de dialogar simbolicamente com os pobres — acaba mascarando fragilidades estruturais, como a baixa capilaridade ideológica da esquerda, a dificuldade de disputar valores no cotidiano e o desempenho limitado em eleições legislativas e estaduais.
Justiça tributária e soberania nacional como eixos centrais
Entre as propostas apresentadas no livro e reforçadas nas entrevistas, destacam-se justiça tributária e soberania nacional como eixos centrais para a reconstrução do campo progressista. O autor sustenta que esses temas possuem potencial mobilizador amplo, desde que tratados não apenas como agendas técnicas, mas como narrativas políticas capazes de gerar pertencimento.
No caso da justiça tributária, o desafio seria traduzir a desigualdade fiscal em linguagem concreta, conectada à vida cotidiana dos trabalhadores. Já a soberania nacional aparece associada a disputas contemporâneas por recursos estratégicos, autonomia econômica e capacidade do Estado de proteger interesses nacionais frente a pressões externas.
O “pobre de direita” e a disputa simbólica
Um dos pontos mais sensíveis da análise de Jessé Souza diz respeito ao chamado “pobre de direita”, segmento de baixa renda que aderiu a pautas conservadoras e à extrema direita nos últimos anos. Para o autor, a esquerda falhou ao abandonar a disputa por esse eleitorado, permitindo que narrativas individualistas e morais ocupassem o espaço deixado vazio.
Segundo essa interpretação, a direita foi bem-sucedida ao oferecer uma promessa simbólica de autonomia individual e superioridade moral, enquanto a esquerda se limitou a respostas fragmentadas ou excessivamente técnicas. A reconstrução passaria, portanto, por reconectar desigualdade econômica, herança escravocrata e exploração contemporânea em uma narrativa compreensível e politicamente eficaz.
Segurança pública: o maior desafio
A segurança pública é apontada como o tema mais complexo para a chamada “ressurreição” da esquerda. O autor defende que o campo progressista precisa enfrentar o problema sem negar a sensação real de insegurança vivida pela população, mas também sem aderir a um punitivismo genérico.
O desafio seria equilibrar defesa de direitos individuais, reconhecimento do racismo estrutural e endurecimento seletivo contra crimes específicos, como estupro e feminicídio, ao mesmo tempo em que se busca fortalecer a confiança nas instituições policiais e no sistema de Justiça.
Amazônia e projeto nacional de longo prazo
A agenda ambiental, especialmente a Amazônia, também ocupa papel estratégico no diagnóstico do autor. Para Jessé Souza, a esquerda precisa evitar tanto a demonização dos agentes locais mais vulneráveis quanto a omissão diante da expansão predatória. A disputa pelo futuro da região exigiria presença política concreta, investimento contínuo e construção de alternativas econômicas viáveis para as populações amazônidas.
Nesse ponto, o autor reforça a necessidade de política de base, com atuação territorial prolongada, algo incompatível com soluções imediatistas ou meramente eleitorais.
Entre diagnóstico estrutural e desafio político imediato
O livro de Jessé Souza apresenta um diagnóstico consistente ao recolocar a dimensão simbólica da política no centro do debate. Ao associar a crise da esquerda às transformações do capitalismo e à perda de capacidade narrativa, o autor aponta limites reais da atuação progressista nas últimas décadas.
No entanto, a própria proposta de reconstrução enfrenta tensões evidentes. A reorganização cultural e política necessária é, por definição, mais lenta do que o calendário eleitoral. Justiça tributária e soberania nacional têm potencial mobilizador, mas exigem tradução concreta em renda, emprego, segurança e serviços públicos para se converterem em votos e sustentação institucional.
A análise também evidencia um risco recorrente da política brasileira: a dependência excessiva de lideranças carismáticas. Caso a esquerda chegue competitiva a 2026, permanecerá a questão central levantada pelo livro — se isso será resultado de uma recomposição estrutural duradoura ou apenas da força circunstancial de figuras capazes de vencer apesar das fragilidades do campo progressista.








Deixe um comentário