Na Solenidade da Epifania do Senhor, de terça-feira, 6 de janeiro de 2026, data que também marcou o fechamento da Porta Santa da Basílica de São Pedro, o Papa Leão XIV utilizou publicamente uma nova cruz pastoral. Segundo o Departamento das Celebrações Litúrgicas, o báculo insere-se em continuidade simbólica e teológica com os utilizados por seus predecessores, articulando o anúncio do mistério da cruz com a glória da Ressurreição, eixo central do querigma cristão. A informação foi divulgada pela Vatican News.
Continuidade teológica e centralidade do mistério pascal
O Departamento das Celebrações Litúrgicas esclarece que a nova cruz pastoral “une a missão de anunciar o mistério de amor expresso por Cristo na cruz com a sua manifestação gloriosa na Ressurreição”. A opção estética e simbólica não representa ruptura, mas desdobramento coerente de uma tradição recente do uso do báculo pastoral pelos pontífices, sempre com forte densidade catequética.
Em nota oficial, o organismo litúrgico afirma que o mistério pascal, núcleo do anúncio apostólico, “torna-se motivo de esperança para a humanidade”, uma vez que, à luz da fé cristã, a morte perde seu poder definitivo sobre o homem. A Ressurreição é apresentada como chave interpretativa da história humana e como fundamento da esperança cristã.
Nesse sentido, o novo báculo de Leão XIV representa Cristo não mais preso aos cravos da Paixão, mas com o corpo glorificado, em atitude de ascensão ao Pai. As chagas da cruz permanecem visíveis, descritas como “sinais luminosos de vitória” que não negam a dor humana, mas a transfiguram numa perspectiva de vida divina.
A distinção histórica entre férula e báculo pastoral
O Departamento recorda que o báculo pastoral, como insígnia episcopal, não integrava originalmente as insígnias próprias do Romano Pontífice. Desde a Alta Idade Média, os Papas utilizavam a férula pontifical, símbolo de autoridade espiritual e de governo, geralmente um bastão encimado por uma cruz simples.
Tradicionalmente, os pontífices recebiam a férula após a eleição, durante a posse da Cátedra na Basílica de São João de Latrão. Seu uso, porém, não era litúrgico, restringindo-se a ocasiões específicas, como a abertura da Porta Santa — quando o Papa batia três vezes nos batentes — ou a consagração de igrejas, rito em que se traça no chão o alfabeto latino e grego.
Essa distinção ajuda a compreender a evolução simbólica ocorrida no século XX, quando o báculo pastoral passa a ser incorporado com maior frequência às celebrações papais, assumindo um papel catequético mais explícito.
De Paulo VI a Bento XVI: a evolução recente do símbolo
A mudança decisiva ocorre em 8 de dezembro de 1965, quando São Paulo VI, no encerramento do Concílio Vaticano II, utiliza um báculo pastoral de prata com a figura do Crucificado. A obra foi encomendada ao escultor Lello Scorzelli, que buscou expressar a vocação apostólica de Paulo: ser testemunha de Cristo crucificado.
A partir de então, Paulo VI passa a empregar o báculo pastoral com regularidade, prática mantida por seus sucessores. São João Paulo II marcou o início de seu pontificado ao elevar a cruz pastoral, gesto que sintetizou o programa anunciado em sua homilia inaugural: “Abrir as portas a Cristo”.
Já Bento XVI optou inicialmente por um báculo encimado por cruz dourada, anteriormente utilizado pelo Pio IX. Posteriormente, passou a usar outro báculo, no qual se destacavam o Cordeiro Pascal e o monograma de Cristo, sublinhando a unidade indissociável entre cruz e Ressurreição, centro da proclamação apostólica.
Simbolismo, tradição e comunicação pastoral
A adoção da nova cruz pastoral por Leão XIV insere-se num contexto de reafirmação da continuidade litúrgica do papado contemporâneo, em linha com o caminho iniciado no pós-Concílio Vaticano II. O gesto reforça a centralidade do mistério pascal como eixo da ação pastoral e do discurso público da Igreja.
Do ponto de vista institucional, o símbolo atua como instrumento de comunicação teológica, condensando em imagem conceitos centrais da fé cristã — sofrimento, redenção e esperança — sem recorrer a rupturas estéticas ou doutrinais. A opção por um Cristo glorificado, que mantém visíveis as chagas, dialoga com uma leitura que reconhece a dor humana sem absolutizá-la.
Ao mesmo tempo, a iniciativa evidencia como a liturgia papal continua a desempenhar papel estratégico na transmissão de mensagens doutrinais, especialmente num contexto global marcado por incertezas, conflitos e crises de sentido. O báculo pastoral, nesse cenário, funciona como síntese visual do conteúdo que a Igreja pretende comunicar ao mundo.
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