A condução do ex-presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, para julgamento em Nova Iorque, sob custódia do governo dos Estados Unidos, marca um dos episódios mais emblemáticos da política internacional recente. O caso recoloca no centro do debate global a intolerância a líderes, ministros, juízes e servidores públicos que utilizam funções estatais para enriquecer por meio do apoio direto ou indireto ao narcotráfico. Apresentada pela administração do presidente Donald Trump como resposta institucional a crimes transnacionais, a prisão simboliza a rejeição internacional à consolidação de narcoestados, associados à destruição da família, ao colapso do tecido social e à supressão sistemática da liberdade de imprensa.
Narcotráfico e captura do Estado
As acusações que recaem sobre o regime venezuelano sustentam que o país atravessou um processo prolongado de captura do Estado por redes criminosas, com infiltração do narcotráfico em estruturas políticas, militares e judiciais. Esse fenômeno, segundo autoridades norte-americanas e relatórios internacionais, teria corroído mecanismos de controle institucional, comprometido a soberania legal e transformado o aparato estatal em instrumento de proteção a atividades ilícitas.
No plano interno, os efeitos desse modelo são amplamente documentados: colapso econômico, hiperinflação, crise humanitária, repressão a opositores, censura e perseguição sistemática a jornalistas. A violência política e o silenciamento da imprensa passaram a operar como mecanismos de autopreservação de um regime associado a economias criminosas, reforçando o diagnóstico de um Estado funcionalmente degradado.
A resposta dos Estados Unidos e o precedente internacional
A decisão de submeter Maduro a julgamento em Nova Iorque é apresentada por Washington como aplicação extraterritorial de instrumentos legais contra crimes transnacionais, especialmente tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e violações de direitos humanos. O governo norte-americano sustenta que a medida não constitui ingerência arbitrária, mas resposta a um regime incapaz de promover qualquer forma de responsabilização interna.
Do ponto de vista simbólico e político, o gesto reforça a tese de que nenhuma autoridade está acima da lei quando há evidências de que o poder público foi convertido em engrenagem de uma economia criminosa. Ao atingir o topo do poder estatal, os Estados Unidos enviam uma mensagem clara à comunidade internacional: narcoestados não são compatíveis com a ordem democrática contemporânea.
Drogas, desintegração social e destruição da família
O narcotráfico não se limita a uma questão de segurança pública ou política externa. Trata-se de um fenômeno com impactos profundos sobre as relações interpessoais, familiares e comunitárias. A expansão do consumo e da circulação de drogas ilícitas produz ciclos de dependência, violência doméstica, abandono, encarceramento em massa e ruptura dos laços sociais mais elementares.
Nos Estados Unidos, a crise dos opioides expôs de forma dramática a extensão do problema no coração do capitalismo avançado, com milhões de famílias afetadas, comunidades inteiras devastadas e custos sociais bilionários. No Brasil, o narcotráfico impõe controle territorial, recruta jovens, alimenta homicídios e desestrutura lares, especialmente nas periferias urbanas, aprofundando desigualdades e fragilizando a autoridade do Estado.
Em ambos os países, o padrão se repete: lucros privados concentrados e danos sociais amplamente distribuídos, corroendo a confiança, a estabilidade familiar e a coesão comunitária.
Leitura marxista do narcotráfico e do colapso institucional
A tradição marxista oferece instrumentos analíticos relevantes para compreender o narcotráfico como produto das contradições estruturais do capitalismo. Em Karl Marx, a crítica à acumulação revela como o capital tende a mercantilizar todas as dimensões da vida social. As drogas ilícitas emergem, nesse contexto, como mercadorias extremas, cujo valor deriva da ilegalidade, da violência e da desorganização social.
Friedrich Engels já apontava que a degradação das condições materiais de existência cria ambientes propícios à expansão de economias destrutivas. No século XX, Immanuel Wallerstein interpretou o narcotráfico como parte da lógica da economia-mundo, na qual periferias fornecem produtos ilícitos enquanto centros concentram capital financeiro e mecanismos repressivos seletivos. David Harvey, por sua vez, destaca que a financeirização e a desregulação ampliam circuitos ilegais de acumulação, transferindo os custos sociais — violência, dependência química e colapso familiar — para os mais vulneráveis.
Sob essa ótica, o narcotráfico representa uma forma extrema de acumulação por espoliação, que destrói comunidades, captura Estados frágeis e transforma o sofrimento humano em fonte de lucro.
Prisão de líderes e restauração de valores
À luz desse quadro, a prisão de um líder que transforma a nação em apoiadora do narcotráfico assume significado que ultrapassa o campo jurídico. Trata-se de romper a simbiose entre Estado e economia criminosa, condição mínima para qualquer processo de reconstrução institucional.
Do ponto de vista social e moral, o episódio é apresentado como um primeiro passo para restabelecer valores fundamentais: proteção da família, preservação da vida, liberdade de imprensa, responsabilidade pública e limitação ética do poder. Ainda que não resolva, por si só, as contradições estruturais do sistema, a responsabilização do topo do poder sinaliza que há limites internacionais para a degradação institucional.
Ética do poder, marxismo e limites da tolerância global
A queda de Nicolás Maduro, sob a narrativa apresentada pelos Estados Unidos, insere-se em um marco ético que rejeita a normalização do narcotráfico como política de Estado. Ao afirmar que funções públicas não podem servir ao enriquecimento ilícito, o caso reforça padrões mínimos de governança e responsabilidade internacional.
Persistem, contudo, tensões relevantes, especialmente quanto à soberania e à seletividade da justiça internacional. Ainda assim, a gravidade das acusações — envolvendo violência, repressão e assassinato de jornalistas — amplia a legitimidade política da resposta, sobretudo quando instituições internas se mostram incapazes de produzir accountability.
Em termos marxistas, a responsabilização de lideranças não elimina as bases materiais do problema, mas interrompe um ciclo de captura estatal que converte o poder público em instrumento direto da acumulação criminosa. É um começo institucional necessário, ainda que insuficiente, para a reconstrução social.
*Carlos Augusto, jornalista, cientista social e editor do Jornal Grande Bahia.
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