A ascensão de Delcy Eloína Rodríguez Gómez, conhecida como Delcy Rodríguez à Presidência interina da Venezuela, após a captura de Nicolás Maduro em uma operação militar conduzida pelos Estados Unidos, recolocou no centro do debate internacional uma das figuras mais poderosas, longevas e estratégicas do chavismo. Advogada, ex-chanceler, ex-ministra e atual vice-presidente executiva até a crise de janeiro de 2026, Rodríguez construiu sua trajetória como operadora política de confiança absoluta do regime, com forte atuação interna, protagonismo diplomático e trânsito relevante em ambientes empresariais e geopolíticos sensíveis.
Origem familiar e formação política
Delcy Eloína Rodríguez Gómez nasceu em Caracas, em 1969, em uma família profundamente marcada pela militância política de esquerda. É filha de Jorge Antonio Rodríguez, dirigente guerrilheiro nos anos 1960, morto sob custódia do Estado venezuelano em 1976 após ser preso por envolvimento no sequestro de um executivo norte-americano. O episódio, amplamente denunciado como resultado de tortura, tornou-se um marco fundacional da identidade política da família Rodríguez.
A trajetória pessoal de Delcy foi moldada por esse contexto. Formou-se em Direito pela Universidade Central da Venezuela, com especializações em Direito Trabalhista e Sindical na França. Em entrevistas ao longo dos anos, afirmou que a escolha pela advocacia e pela política foi motivada pela busca de justiça em relação à morte do pai e pela adesão ao projeto bolivariano liderado por Hugo Chávez.
Ascensão no chavismo e consolidação no poder
A carreira política de Delcy Rodríguez ganha projeção nacional durante o governo de Hugo Chávez, quando ocupa cargos técnicos e ministeriais ligados diretamente ao Palácio de Miraflores. No entanto, é sob Nicolás Maduro que sua influência se amplia de forma decisiva.
Ao longo da última década, ela acumulou funções estratégicas:
- Ministra da Comunicação e Informação
- Ministra da Economia
- Ministra das Relações Exteriores (2014–2017)
- Presidente da Assembleia Nacional Constituinte de 2017
- Vice-presidente executiva da República
- Ministra do Petróleo e responsável pela articulação internacional da PDVSA
Esse acúmulo transformou Rodríguez em uma das poucas figuras com visão integral do Estado venezuelano, transitando entre política, economia, setor energético, Forças Armadas e diplomacia.
Perfil operacional e papel como “braço político” do regime
Internamente, Delcy Rodríguez é descrita por aliados e críticos como disciplinada, dogmática e altamente operacional. Diferentemente de quadros ideológicos mais retóricos, sua atuação sempre foi marcada pela execução de tarefas sensíveis, gestão de crises e enfrentamento direto a sanções internacionais.
Ao lado do irmão, Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional, formou um núcleo político central do chavismo, responsável por preencher o vazio administrativo deixado pela saída ou marginalização de quadros técnicos tradicionais do Estado. Cientistas políticos a classificam como peça-chave na preservação do regime em momentos de isolamento internacional extremo.
Protagonismo internacional e episódios controversos
Como chanceler e emissária de Maduro, Delcy Rodríguez tornou-se um rosto conhecido nos fóruns multilaterais. Atuou na defesa do governo venezuelano em organismos internacionais, reforçou alianças com China, Rússia, Irã e Turquia e enfrentou diretamente Estados Unidos e União Europeia.
Sua trajetória internacional inclui episódios emblemáticos:
- Tentativa de participação em reunião do Mercosul em 2016, após a suspensão da Venezuela
- O chamado “Delcygate”, em 2020, quando desembarcou em Madri apesar de sanções europeias que proibiam sua entrada no espaço Schengen
- Reiteradas denúncias contra sanções econômicas, classificadas por ela como “crimes contra a humanidade”
Rodríguez foi sancionada pelos Estados Unidos em 2018, assim como outros membros do alto escalão venezuelano, sob acusações de violação de direitos humanos e erosão democrática.
Trânsito com empresários e canais discretos com Washington
Apesar do discurso público duro, Delcy Rodríguez manteve, nos bastidores, canais de diálogo pragmáticos, inclusive com setores empresariais internacionais e interlocutores norte-americanos. Fontes diplomáticas indicam que, desde o final do governo Joe Biden, ela passou a ser vista em Washington como um nome viável para uma transição controlada, sobretudo pela sua experiência na gestão do setor petrolífero.
Relatórios da imprensa internacional apontam que autoridades dos EUA a consideram capaz de garantir estabilidade mínima e proteção a investimentos estrangeiros, especialmente no setor de energia, desde que alinhada a determinadas condições políticas e econômicas.
A chegada à Presidência interina em 2026
Com a captura de Nicolás Maduro, o Supremo Tribunal de Justiça da Venezuela declarou a existência de “ausência forçada” do presidente e determinou a posse de Delcy Rodríguez como presidente interina, respaldada pelas Forças Armadas Nacionais Bolivarianas.
Em seus primeiros pronunciamentos, Rodríguez adotou uma estratégia dual: condenou a ação dos Estados Unidos como sequestro ilegal e, simultaneamente, divulgou uma carta ao presidente Donald Trump defendendo diálogo, cooperação e convivência pacífica, sinalizando uma inflexão tática diante da pressão internacional.
Pragmatismo sob coerção externa
A trajetória de Delcy Rodríguez revela uma dirigente formada no núcleo duro do chavismo, leal ao projeto bolivariano, mas dotada de elevado pragmatismo político. Sua chegada à Presidência não decorre de um processo eleitoral ou de consenso nacional, mas de uma crise institucional provocada por intervenção externa, o que limita sua legitimidade e amplia sua dependência de negociações internacionais.
Rodríguez representa, ao mesmo tempo, continuidade do regime e possibilidade de rearranjo. Sua habilidade administrativa e diplomática pode assegurar estabilidade de curto prazo, mas seu histórico de sanções, autoritarismo institucional e centralização do poder impõe obstáculos relevantes à reconstrução democrática do país.
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