A Oferenda Musical à Rainha do Mar, realizada no dia 2 de fevereiro de 2026, segunda-feira, no Bairro do Rio Vermelho, em Salvador, reafirma-se como um dos rituais contemporâneos mais expressivos do calendário cultural e religioso da capital baiana. Conduzida pelo Movimento Agbelas, a celebração integra fé, arte, ancestralidade africana e protagonismo feminino em um cortejo sonoro que dialoga diretamente com as tradições do culto a Iemanjá, reunindo cerca de 200 mulheres, brasileiras e estrangeiras, em uma manifestação coletiva de reverência às águas e à memória ancestral.
A mobilização tem início nas primeiras horas da manhã, com concentração às 5h no Largo da Dinha e saída do cortejo às 6h, em direção à Praia da Paciência. O percurso, realizado no coração do Rio Vermelho, combina música percussiva, canto coletivo e gestos simbólicos que evocam a relação histórica entre Salvador, o mar e as religiões de matriz africana.
O cortejo se soma ao Movimento Flores Pra Iemanjá, coordenado pela mestra de capoeira Dandara Baldez, da comunidade do Alto da Sereia, ampliando o caráter comunitário da ação e fortalecendo os vínculos entre tradição popular, território e identidade cultural. O encontro entre os grupos transforma o ritual em uma ocupação simbólica do espaço público, marcada pela presença feminina e pela valorização dos saberes ancestrais.
Liderança feminina e dimensão internacional do Agbelas
Idealizada e conduzida pela maestrina, arte-educadora e luthier Gio Paglia, a Oferenda Musical chega ao terceiro ano consecutivo em Salvador. Do total de participantes, aproximadamente 100 mulheres atuam na capital baiana, enquanto outras 100 participam simultaneamente no Rio de Janeiro, vindas de países como Canadá, Portugal, Argentina, Austrália, Estados Unidos, Chile e Suíça.
Segundo Gio Paglia, a diversidade das participantes é parte central do simbolismo do ritual. A pluralidade de origens, corpos, línguas e trajetórias dialoga com o próprio significado das cabaças, instrumentos centrais da celebração, que representam individualidade, coletividade e conexão espiritual. A oferenda, nesse sentido, extrapola o campo religioso e assume contornos de manifestação cultural e política, ao afirmar a presença feminina negra em espaços historicamente marcados por disputas simbólicas.
Xequerê como corpo, memória e ferramenta pedagógica
O xequerê (agbê) é o elemento estruturante da Oferenda Musical e da pesquisa desenvolvida pelo Movimento Agbelas. Composto por cabaça e miçangas, o instrumento é concebido pelo coletivo como um “corpo-cabaça”, capaz de dançar, cantar e transmitir saberes. A performance musical articula percussão, coral e movimento corporal, criando uma experiência sensorial que conecta tradição e contemporaneidade.
Além do ritual público, o Agbelas mantém uma atuação contínua no campo artístico e pedagógico, utilizando a música como ferramenta de letramento racial, fortalecimento identitário e valorização das culturas de matriz africana. O cortejo, apresentado no Dia de Iemanjá, representa o ponto culminante de um trabalho desenvolvido ao longo do ano, que articula formação, pesquisa e prática coletiva.
Expansão do ritual para o Rio de Janeiro
Em 2026, a Oferenda Musical à Rainha do Mar amplia seu alcance e chega, pela primeira vez, ao Rio de Janeiro. A apresentação está marcada para o dia 07 de fevereiro, no Aterro do Flamengo, com concentração às 6h e cortejo às 7h. Assim como em Salvador, o ritual carioca contará com cerca de 100 mulheres, organizadas em uma grande orquestra de xequerês, coral e grupo de percussionistas.
A expansão do ritual para outro importante centro urbano do país reforça o caráter itinerante e agregador da proposta, além de evidenciar a capacidade do Movimento Agbelas de dialogar com diferentes territórios, mantendo a fidelidade aos fundamentos simbólicos e culturais da celebração.
Trajetória de Gio Paglia e reconhecimento artístico
A consolidação do Movimento Agbelas está diretamente ligada à trajetória de Gio Paglia, que desenvolveu uma metodologia de ensino decolonial voltada à experimentação percussiva. Ao longo de sua carreira, a artista já formou mais de 3 mil alunos em diferentes países, incluindo Japão, Estados Unidos, Austrália e diversas nações europeias.
Com formação na Escola Olodum e parcerias com nomes consagrados da música brasileira, Gio construiu reconhecimento no campo da percussão afro-brasileira. Recentemente, sua atuação ganhou destaque ao assumir um posto de direção na ala de xequerês da bateria da Portela, marco histórico que evidencia a ampliação da presença feminina em espaços tradicionalmente masculinos do carnaval e da música percussiva.
Serviço
Oferenda Musical Agbelas – Salvador
Data: 2 de fevereiro de 2026
Local: Largo da Dinha – Rio Vermelho
Horário: Concentração a partir das 5h; cortejo às 6h
Entrada: Gratuita











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