Os títulos da dívida dos Estados Unidos passaram a ocupar posição central nas tensões diplomáticas e comerciais entre Washington e países europeus, após declarações do presidente Donald Trump e decisões recentes de fundos de pensão do Norte da Europa. O tema ganhou relevância durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, quando Trump sinalizou possíveis retaliações diante de uma eventual venda coordenada desses ativos.
Em entrevista, Trump afirmou que os Estados Unidos responderiam caso países europeus utilizassem a venda de títulos do Tesouro como forma de pressão política. As declarações ocorreram em meio a desentendimentos sobre comércio internacional e questões geopolíticas, incluindo a Groenlândia, e provocaram atenção imediata dos mercados financeiros.
O mercado de títulos americanos passou a ser monitorado com maior cautela, diante do impacto que movimentos de grandes investidores estrangeiros podem gerar sobre taxas de juros, financiamento do Estado e estabilidade econômica.
Fundos europeus reduzem exposição à dívida americana
A discussão ganhou força após o anúncio de que o fundo de pensão sueco Alecta reduziu de forma significativa sua posição em títulos do Tesouro dos Estados Unidos, citando preocupações com as finanças públicas americanas. A decisão foi divulgada na quarta-feira (21/01/2026).
Antes disso, o fundo dinamarquês AkademikerPension informou que venderia 100% de seus títulos da dívida americana, adotando justificativa semelhante. Outro fundo da Dinamarca, o Pædagogernes Pensionskasse (PBU), também comunicou a intenção de se desfazer desses ativos.
Somados, países europeus membros da Otan detêm mais de US$ 2 trilhões em títulos do Tesouro dos EUA. Quando incluído o Canadá, o volume ultrapassa US$ 3 trilhões, reforçando o peso europeu como principal bloco credor de Washington.
Como funcionam os títulos do Tesouro dos EUA
Os títulos do Tesouro americano são instrumentos por meio dos quais o governo dos Estados Unidos financia seu orçamento, captando recursos diretamente nos mercados financeiros. Ao adquirir esses papéis, investidores emprestam dinheiro ao governo, que se compromete a devolver o valor acrescido de juros no vencimento.
Esses títulos possuem prazos variados, com destaque para os de 10 e 30 anos, considerados referências globais de segurança. Essa confiança histórica decorre do fato de que os Estados Unidos nunca deram calote em sua dívida soberana.
O modelo de financiamento americano depende da rolagem constante da dívida, tanto para quitar títulos vencidos quanto para cobrir novos gastos públicos, o que torna o país sensível a mudanças no comportamento dos investidores.
Dependência externa e vulnerabilidade financeira
Cerca de 30% da dívida pública dos Estados Unidos está nas mãos de investidores estrangeiros, incluindo governos, fundos de pensão, seguradoras, bancos e fundos soberanos. Ao contrário de percepções comuns, a China não é o maior credor internacional de Washington.
Essa estrutura cria um cenário em que alterações na confiança internacional podem impactar diretamente o custo de financiamento da economia americana. A Europa, como maior detentora externa, surge como ator relevante nesse contexto.
A simples possibilidade de uso dos títulos como instrumento de pressão política já é suficiente para gerar volatilidade e preocupação entre autoridades econômicas.
Possíveis impactos de uma venda em larga escala
Caso ocorra uma venda significativa de títulos do Tesouro, o efeito imediato tende a ser a queda dos preços desses papéis, acompanhada da alta das taxas de juros. Isso obrigaria os Estados Unidos a captar novos recursos a custos mais elevados, pressionando o orçamento federal.
No entanto, especialistas apontam limitações práticas para essa estratégia, já que grande parte dos títulos está nas mãos de investidores privados, que não respondem diretamente a decisões governamentais.
Além disso, uma movimentação coordenada poderia gerar instabilidade nos mercados globais, aumento da volatilidade e impactos sobre o dólar, motivo pelo qual a cautela prevalece entre governos e gestores.
Finanças como ferramenta geopolítica
O debate marca uma mudança relevante no cenário internacional. Instrumentos tradicionalmente técnicos, como a gestão da dívida pública, passam a ser considerados meios de influência geopolítica em disputas entre aliados históricos.
A reação de Donald Trump evidencia o grau de sensibilidade do tema para a política americana, ao mesmo tempo em que reforça o papel das finanças como elemento central nas relações internacionais contemporâneas.
*Com informações da RFI.











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