Sábado, 19/04/2025 — As principais revistas semanais da França destacaram os efeitos da guerra comercial promovida pelo ex-presidente Donald Trump, apontando impactos estruturais na geopolítica, nas relações econômicas internacionais e nas estratégias de resistência adotadas por China e União Europeia.
As recentes decisões do ex-presidente norte-americano Donald Trump de intensificar a guerra comercial com a China, por meio da imposição de tarifas adicionais, mobilizaram a atenção da imprensa francesa. As revistas L’Express, Le Point e Le Nouvel Observateur dedicaram suas reportagens de capa à análise das implicações econômicas e geopolíticas da atual conjuntura, que sinaliza uma possível transformação na ordem global estabelecida desde o pós-Guerra Fria.
Segundo a L’Express, Pequim possui maior arsenal de resistência econômica a longo prazo, mesmo que os dados comerciais indiquem uma dependência maior da China em relação ao mercado norte-americano. A publicação destaca que o modelo político autoritário chinês confere ao governo central maior controle sobre os danos sistêmicos, ao passo que os Estados Unidos, em um contexto democrático e descentralizado, enfrentam maior dificuldade para mitigar os impactos internos de um conflito prolongado.
China prepara-se há anos para confronto com os EUA
A revista enfatiza que a preparação estratégica da China para um embate com os Estados Unidos inclui diversificação de mercados, fortalecimento de cadeias de suprimento domésticas, investimentos em tecnologia e ampliação de alianças comerciais multilaterais — especialmente por meio da Iniciativa do Cinturão e Rota (BRI). A análise sugere que os chineses estão dispostos a enfrentar os custos de curto prazo para garantir autonomia de longo prazo.
Jean Tirole adverte contra concessões da União Europeia
Em entrevista à L’Express, o economista Jean Tirole, prêmio Nobel de Economia em 2014, alerta sobre os riscos de concessões precipitadas por parte da União Europeia em troca de acordos comerciais com os EUA. Segundo ele, os europeus não devem flexibilizar normas sobre dados pessoais, concorrência econômica e financiamento científico, sob pena de comprometerem sua autonomia estratégica.
Tirole propõe que a União Europeia adote uma postura coesa e resiliente, mesmo diante dos custos decorrentes da resistência ao protecionismo norte-americano. O economista sugere que o bloco europeu deve investir pesadamente em infraestrutura tecnológica, defesa e inovação científica, para reduzir sua dependência de atores externos, especialmente dos Estados Unidos.
Le Point: protecionismo de Trump isola os EUA e fortalece a China
A revista Le Point critica a política econômica do ex-presidente Trump, classificando-a como inadequada à realidade econômica atual. A publicação destaca que os eleitores americanos não perceberam a ineficácia das medidas protecionistas em um mundo globalizado, e argumenta que o isolamento internacional dos Estados Unidos tem fragilizado sua posição geopolítica e fortalecido o papel da China como potência alternativa.
Ainda segundo a revista, a União Europeia precisa acelerar investimentos em tecnologia e defesa, de forma a superar o atraso estrutural que a impede de competir com os grandes polos globais. A análise sugere que o conflito comercial entre as duas maiores potências econômicas abre uma janela de oportunidade para o fortalecimento da Europa como ator global autônomo.
Le Nouvel Observateur: negociações substituem confronto direto
A Le Nouvel Obs adota tom mais cauteloso, sugerindo que, apesar das ações unilaterais dos EUA, Trump estaria aberto a negociações multilaterais. A publicação destaca que, embora o impacto imediato da guerra tarifária tenha sido a volatilidade nos mercados e a desaceleração da economia global, há sinais de que o objetivo do ex-presidente não seria o confronto permanente, mas sim a reconfiguração das relações comerciais por meio de pressão econômica.
A revista também observa que, apesar do aumento nos preços em alguns setores, a inflação global permanece controlada, o que reduz o risco de uma crise de preços no curto prazo. Contudo, o enfraquecimento da economia europeia e a desaceleração da economia chinesa indicam que os efeitos da guerra comercial podem perdurar.
Trump e Meloni sinalizam possível acordo tarifário entre EUA e União Europeia
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou nesta quinta-feira (17/04/2025), em Washington, estar “100%” certo de que será alcançado um acordo tarifário com a União Europeia, durante reunião oficial com a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, na Casa Branca. O encontro ocorreu sob pressão de Bruxelas, diante da crescente tensão comercial entre Estados Unidos e Europa, agravada pelas medidas protecionistas da nova gestão norte-americana.
Contexto do encontro
A líder italiana, à frente de uma coalizão de direita em Roma, foi a única representante da União Europeia convidada para a posse de Trump. Em Washington, reiterou confiança em um desfecho positivo nas negociações, embora tenha reconhecido que não tem mandato para negociar em nome dos 27 Estados-membros da UE. Ainda assim, se comprometeu a tentar organizar uma futura reunião entre Trump e lideranças europeias, além de tê-lo convidado para uma visita oficial à Itália.
Cenário econômico e tensões tarifárias
O encontro ocorre em meio à guerra comercial reacendida por Trump. Desde 5 de abril de 2025, os Estados Unidos impuseram tarifas de pelo menos 10% sobre todas as importações, além de medidas específicas contra produtos chineses, que podem chegar a 145%. As políticas tarifárias norte-americanas preocupam diretamente as principais economias exportadoras da Europa, como Itália, Alemanha e França.
O Banco Central Europeu (BCE), em resposta ao cenário de incerteza, anunciou um corte de 0,25 ponto percentual nas taxas de juros nesta mesma quinta-feira (17/04), com o objetivo de estimular a economia da zona do euro. A presidente do BCE, Christine Lagarde, afirmou que a instituição precisa “enfrentar o imprevisível” com agilidade diante do cenário global instável.
Papel estratégico de Giorgia Meloni
Autoridades da Casa Branca destacaram o “relacionamento especial” entre Meloni e Trump, indicando que a premiê italiana poderia atuar como intermediária nas tratativas entre o governo norte-americano e os países europeus. O ministro da Indústria da Itália, Adolfo Urso, defendeu que sejam evitadas retaliações por parte da União Europeia, afirmando que “uma guerra tarifária deve ser evitada a todo custo”.
Reações do setor privado europeu
Empresas europeias já sentem os reflexos das novas tarifas. A francesa L’Oréal, que gera 27% de seu faturamento nos EUA e Canadá, afirmou que poderá realocar parte da produção ou aumentar preços, caso as tarifas permaneçam em vigor. Segundo o CEO da empresa, Nicolas Hieronimus, cerca de 50% dos produtos vendidos pela companhia nos EUA já são produzidos localmente. Ainda assim, cerca de 30% vêm da Europa, tornando o grupo vulnerável às medidas protecionistas.
“Estamos avaliando o cenário e, caso necessário, tomaremos medidas para mitigar os impactos sobre as margens no segundo semestre”, afirmou Hieronimus a analistas.
Contexto geopolítico: rumo a uma nova ordem internacional?
A crescente tensão entre os Estados Unidos e a China, amplificada pela política tarifária de Donald Trump, reforça a hipótese de que o mundo caminha para uma nova ordem internacional multipolar. A escalada tarifária é apenas um dos aspectos do conflito sistêmico entre modelos distintos de desenvolvimento, governança e inserção internacional, com a China buscando ampliar sua influência global e os EUA tentando preservar a primazia econômica.
O reposicionamento da União Europeia, pressionada a escolher entre alianças tradicionais e a busca por soberania estratégica, revela os desafios de adaptação dos atores globais diante de um cenário em rápida transformação.
Segundo estudos recentes, a França poderá perder 0,5% do PIB em decorrência das tarifas norte-americanas, embora analistas indiquem que o cenário pode melhorar a partir de 2026, dependendo do andamento das negociações comerciais e de possíveis mudanças no Congresso dos EUA.
Apesar das declarações otimistas, Trump não apresentou detalhes sobre como seria um eventual acordo com a UE, nem especificou prazos. Em relação à China, afirmou apenas que “as duas maiores potências do mundo concluirão um bom acordo”, sem divulgar condições ou termos concretos. A sinalização positiva por parte de Meloni e a postura diplomática da Itália, no entanto, podem abrir espaço para uma reaproximação gradual entre Washington e Bruxelas.
*Com informações da RFI.











Deixe um comentário