A captura do presidente Nicolás Maduro neste sábado (03/01/2026) durante Operação Resolução Absoluta (Operation Absolute Resolve) sua transferência neste domingo (04/01) para Nova Iorque e o início de processos judiciais por narcoterrorismo nos Estados Unidos, seguidos do anúncio do presidente Donald Trump de que Washington passaria a administrar provisoriamente a Venezuela, representam um dos episódios mais disruptivos da história recente da América Latina. Para além da dimensão jurídica e diplomática imediata, o acontecimento reacende debates clássicos sobre imperialismo, soberania, dependência econômica e hegemonia, especialmente quando analisado a partir de uma perspectiva marxista.
O episódio ocorre em um contexto marcado pela aproximação estratégica da Venezuela com China e Rússia, pela centralidade do petróleo venezuelano na economia global e pela crescente competição entre grandes potências em um sistema internacional em transição. A leitura marxista permite ir além da narrativa oficial de “combate ao crime” ou “restauração democrática”, buscando compreender quais interesses estruturais moldam a ação dos Estados Unidos e quais são suas implicações de longo prazo para a região.
Estado, imperialismo e poder: a chave marxista de interpretação
No pensamento marxista clássico, o Estado não atua como ente neutro. Em Karl Marx, o Estado moderno é compreendido como o instrumento político que organiza as condições gerais de reprodução do capital, garantindo estabilidade institucional, propriedade privada e previsibilidade para a acumulação. No plano internacional, essa função se traduz na defesa de interesses econômicos estratégicos e na projeção de poder.
Vladimir Lenin, ao analisar o imperialismo como fase superior do capitalismo, descreveu um sistema marcado pela concentração de capitais, pela exportação de investimentos e pela disputa entre potências por esferas de influência. Nesse sentido, intervenções diretas ou indiretas em países periféricos não seriam desvios morais, mas expressões estruturais da lógica do capital monopolista e financeiro.
A captura de Maduro e a reorganização forçada do Estado venezuelano se encaixam nesse quadro teórico: não como evento isolado, mas como tentativa de reordenar um território estratégico que havia escapado, ainda que parcialmente, ao controle político-econômico de Washington.
Petróleo e excedente: o núcleo material do conflito
Uma análise marxista rigorosa evita reducionismos, mas reconhece que energia é base material do poder. A Venezuela detém uma das maiores reservas provadas de petróleo do mundo, ativo central não apenas para geração de lucro, mas para o controle de preços, cadeias produtivas, logística global e segurança energética.
Ao anunciar a abertura do setor petrolífero venezuelano a empresas norte-americanas, o governo dos EUA sinalizou uma intenção clara de reorganizar o regime de propriedade e de apropriação do excedente econômico. Trata-se menos de “explorar petróleo” e mais de redefinir quem controla contratos, fluxos financeiros, tecnologia e decisões estratégicas.
Na linguagem marxista, isso corresponde a um processo de reintegração subordinada de um país periférico ao circuito global de acumulação, sob regras ditadas pelo centro do sistema.
Objetivos estratégicos de longo prazo dos Estados Unidos
Do ponto de vista estrutural, a intervenção na Venezuela atende a objetivos que extrapolam a conjuntura política:
- Recolocar a Venezuela no sistema financeiro e energético internacional sob padrões favoráveis ao capital ocidental;
- Neutralizar a presença chinesa e russa no hemisfério, especialmente em setores sensíveis como energia, defesa e telecomunicações;
- Reafirmar a hegemonia norte-americana na América Latina, enviando sinal dissuasório a governos que busquem maior autonomia estratégica;
- Reconfigurar o Estado venezuelano para torná-lo previsível, disciplinado e compatível com interesses de investidores internacionais.
Essa lógica dialoga com a tradição da Doutrina Monroe, reinterpretada ao longo dos séculos como justificativa para intervenções destinadas a preservar a primazia dos EUA no continente.
Intervenções na América Latina: continuidade histórica
A história latino-americana fornece amplo repertório para compreender o episódio venezuelano. Do Chile em 1973 às intervenções diretas e indiretas na América Central nos anos 1980, passando pelo Panamá em 1989, o padrão se repete: pressão econômica, isolamento diplomático, guerra de narrativas, apoio a forças internas e posterior reestruturação econômica.
O marxismo destaca que, embora os métodos variem, o objetivo recorrente é o mesmo: garantir governos alinhados e economias abertas ao capital internacional, ainda que sob o discurso de democracia, segurança ou combate ao crime.
Venezuela, China e Rússia: a disputa pela multipolaridade
A aproximação da Venezuela com China e Rússia elevou significativamente o custo estratégico de sua permanência fora da órbita norte-americana. Pequim ofereceu financiamento, infraestrutura e mercados alternativos; Moscou fortaleceu cooperação militar, diplomática e energética.
Sob a ótica do sistema-mundo, conforme analisado por Immanuel Wallerstein e Giovanni Arrighi, a Venezuela tornou-se ponto de atrito em uma ordem internacional em transição, na qual potências emergentes desafiam a hegemonia tradicional. Para os EUA, permitir esse tipo de penetração estratégica no hemisfério significaria erosão de poder estrutural.
O governo “de esquerda” e suas contradições internas
Uma leitura marxista crítica não idealiza o chavismo. Autores da teoria da dependência, como Ruy Mauro Marini e Theotonio dos Santos, apontam que políticas redistributivas baseadas em renda de commodities, sem transformação estrutural da economia, tendem a gerar vulnerabilidade externa.
No caso venezuelano, a dependência quase absoluta do petróleo, somada à burocratização estatal, à corrupção e à perda de capacidade produtiva, criou um cenário em que o discurso anti-imperialista convivia com fragilidade material. Essa combinação facilitou a pressão externa e limitou a capacidade real de resistência.
Impactos para o Brasil e a esquerda latino-americana
Para o Brasil, o episódio impõe dilemas profundos. A tradição diplomática da não intervenção entra em choque com a necessidade prática de lidar com instabilidade regional, migração e segurança de fronteira. Ao mesmo tempo, a crise pressiona o governo Lula a equilibrar princípios históricos com pragmatismo geopolítico.
Para a esquerda latino-americana, o caso venezuelano funciona como alerta: retórica soberanista sem base material sólida tende a ruir diante de choques externos. Sem autonomia produtiva, energética, financeira e institucional, a soberania torna-se frágil e dependente de circunstâncias internacionais.
Imperialismo em nova forma: hegemonia, legalidade e o futuro da região
A prisão de Maduro e a administração provisória da Venezuela revelam uma atualização do imperialismo clássico: menos ocupação formal e mais controle jurídico, econômico e institucional, amparado por narrativas de legalidade e segurança.
A centralidade do petróleo confirma que recursos estratégicos continuam sendo o eixo oculto de disputas geopolíticas. A associação entre mudança de regime e reorganização econômica tende a dificultar a legitimação de qualquer transição.
O episódio evidencia a dificuldade histórica da região em sustentar projetos autônomos em um sistema internacional desigual. A crise venezuelana expõe os limites tanto da confrontação ideológica vazia quanto da acomodação passiva.
*Carlos Augusto, jornalista, cientista social e editor do Jornal Grande Bahia.
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