A tormenta no Digimais: A história, os controladores e a guerra bilionária que abala o banco do bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal e Grupo Record

Em meio a uma das maiores crises de sua história, o Banco Digimais, controlado pelo bispo Edir MacEdo, enfrenta uma batalha judicial bilionária com um sócio, a desistência de compradores em potencial e uma vigilância cerrada do Banco Central. Reportagem especial mergulha nos bastidores da instituição, desde sua fundação até o atual imbróglio que envolve créditos podres, acusações de apropriação indébita e a missão de um ex-presidente do Banco do Brasil para salvar o negócio.

Os corredores da Faria Lima, epicentro do mercado financeiro brasileiro, acompanham com apreensão e curiosidade os capítulos da novela envolvendo o Banco Digimais. O que era para ser um processo discreto de reestruturação e venda transformou-se em uma disputa judicial pública e agressiva. De um lado, Roberto Campos Marinho Filho, sócio e dono da gestora Yards Capital. Do outro, o Digimais, instituição financeira pertencente ao bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus e proprietário da TV Record. O pomo da discórdia: um rombo que já ultrapassa a cifra de quase meio bilhão de reais .

Das Origens Renner ao Controle de Macedo

A história do Digimais remonta a um passado não muito distante e a um nome familiar para os brasileiros. O banco é, na verdade, o antigo Banco Renner, tradicional instituição ligada à varejista de mesmo nome. A transformação começou em 2013, quando o grupo de Edir Macedo adquiriu uma participação minoritária. O controle total, no entanto, só veio em 2020, quando a holding do bispo efetivou a compra e o rebatizou como Digimais .

Sob o comando de Edir Macedo, o banco buscou se consolidar no setor de financiamento de veículos usados — que chega a representar mais de 70% de seus negócios — e no crédito consignado. Atualmente, com cerca de R$ 9 bilhões em ativos, o Digimais opera com uma licença de banco múltiplo, embora seu portfólio de serviços seja restrito, não oferecendo, por exemplo, contas-correntes para pessoas físicas .

O Primeiro Sinal de Fumaça: A Venda que Não Aconteceu

Há anos o Digimais está no radar do Banco Central (BC). A autarquia sempre viu com ressalvas a ligação entre instituições financeiras e grupos religiosos, pedindo repetidos ajustes na operação, como a revisão da marcação de ativos (incluindo precatórios) e a precificação da carteira de crédito .

Foi esse cenário de pressão que levou o banco a buscar um comprador. Em janeiro de 2025, um negócio parecia certo: Maurício Quadrado, veterano do mercado e ex-sócio do Banco Master, anunciou a compra do Digimais por meio de seu novo empreendimento, o BlueBank. O plano ambicioso de Quadrado era injetar R$ 800 milhões na instituição, combinando o varejo do Digimais com o banco de atacado do BlueBank para criar um modelo similar ao do BTG Pactual .

No entanto, em abril do mesmo ano, a transação “subiu no telhado”. Sem sequer ter a documentação completa enviada ao Banco Central, Quadrado desistiu do negócio. A justificativa oficial foi o “ambiente desafiador do mercado” e a escalada da taxa de juros, que aumentariam os riscos e os aportes necessários .

Quase que simultaneamente, outro nome de peso entrou na roda de negociações: o Nubank. O banco digital, pressionado pelo próprio BC a adquirir uma instituição com licença de banco múltiplo, avaliou a compra. O regulador via na transação uma solução de dois problemas: dava ao Nubank a licença desejada e transferia o Digimais para mãos mais capitalizadas. Contudo, em novembro de 2025, o Nubank também recuou, citando riscos reputacionais e a falta de alinhamento estratégico .

A Criação do Fundo EXP 1 e a Origem da Discórdia

Foi em meio a esse processo de reestruturação e busca por liquidez que o Digimais estruturou, em fevereiro de 2025, um fundo de investimento em direitos creditórios (FIDC) chamado EXP 1. O objetivo era claro: transformar em dinheiro vivo uma carteira de créditos. O fundo nasceu com cerca de R$ 720 milhões. O Digimais detinha 80% das cotas, integralizadas com CCBs (Certificados de Crédito Bancário) que representavam o direito de receber por empréstimos consignados. Os outros 20% pertenciam a Roberto Campos Marinho Filho, da Yards Capital, que também era o gestor do fundo .

O problema é que esses créditos não vieram de origens quaisquer. Eram títulos originados por instituições que, pouco tempo depois, mergulhariam em escândalos de fraude: o Banco Master, a empresa de investimentos Reag e a holding Fictor. Quando o Master e a Reag foram liquidados pelo Banco Central e a Fictor pediu recuperação judicial com uma dívida de R$ 4,2 bilhões, os papéis que lastreavam o fundo simplesmente “viraram pó” .

A Guerra Judicial: R$ 462 Milhões em Jogo

O cenário de crise dessas instituições acionou os gatilhos do contrato do fundo. No dia 12 de fevereiro de 2026, a Yards Capital, de Marinho Filho, notificou o Digimais para recomprar uma carteira de R$ 462,2 milhões em títulos supostamente sem lastro .

Segundo o gestor, uma auditoria independente revelou que 22.185 CCBs, no valor de R$ 316,6 milhões, não possuíam a documentação necessária que comprovasse a existência dos créditos — no jargão do mercado, um forte indício de negócios fraudulentos ou mal feitos. Deste total, a maioria (13.489 CCBs) era oriunda da Fictor. A notificação da Yards alega “vícios estruturais graves na carteira de créditos consignados cedida, incluindo a ausência ou insuficiência de documentação comprobatória” .

Mas a acusação mais grave veio na sequência. Marinho Filho afirma que, além de não recompor o fundo, o Digimais passou a cometer o que pode ser caracterizadoTV como apropriação indébita. Segundo a notificação, o banco passou a contatar os devedores originais (cedentes) para que os pagamentos dos créditos deixassem de ser direcionados ao fundo EXP 1 e fossem desviados diretamente para a própria instituição .

“Do outro lado do ringue”, como definiu a coluna de Lauro Jardim , o Digimais também partiu para o ataque. O banco acusa Marinho Filho de reter indevidamente R$ 88 milhões em rendimentos do fundo, sem dar satisfações. A instituição afirma que já repassou mais de R$ 88 milhões ao fundo e que os valores foram devidamente comprovados na Justiça .

Em nota, Marcelo Brasil, diretor jurídico do banco, sustenta que o Digimais não tem coobrigação sobre os créditos. Ou seja, a responsabilidade por qualquer problema seria das instituições que originaram os créditos (Master, Reag e Fictor), e não do banco .

A briga se estende também à governança do fundo. Em novembro de 2025, o Digimais já havia ido à Justiça contra a administradora do EXP 1, questionando a condução de assembleias e tentando impor prestadores de serviço de sua escolha. O fundo, por sua vez, moveu um “protesto interruptivo de prescrição” para preservar seus direitos, estimando seu crédito contra o banco em pelo menos R$ 250 milhões .

A Missão de Bendine e o Futuro Incerto

É nesse cenário de extrema turbulência que assume a presidência do Digimais um nome tarimbado do mundo financeiro e político: Aldemir Bendine. Ex-presidente do Banco do Brasil (2009-2015) e da Petrobras, Bendine foi contratado com uma missão clara: “pilotar a transferência de parte do capital ou mesmo do controle integral da instituição” e “conduzir a diplomacia da venda junto às autoridades em Brasília, especialmente o Banco Central” .

Visto pelo mercado como uma “gazua” para abrir portas no governo devido às suas relações com o PT, Bendine terá pela frente o desafio de acalmar os ânimos com o regulador e, ao mesmo tempo, defender o banco na Justiça contra as acusações da Yards Capital. O imbróglio atinge seu ponto crítico justamente no momento em que se aproxima a data de amortização das cotas do fundo EXP 1, prevista para 28 de fevereiro de 2026, quando o patrimônio deveria ser convertido em dinheiro para os cotistas. Não se sabe, porém, se o fundo terá recursos para isso, já que os valores estão bloqueados por decisões judiciais .

O Digimais, enquanto tenta se desvencilhar dessa teia financeira e jurídica, vê seu nome exposto no centro de uma disputa que envolve bilhões de reais, figuras poderosas e questiona, em última instância, a solidez e a transparência de seus negócios. O mercado agora espera para ver se a experiência de Bendine será capaz de encontrar um porto seguro para o banco de Edir Macedo, ou se a tormenta está apenas começando.


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