O governo federal avalia a possibilidade de ajustar a tarifa de importação do cacau, após pressão de produtores nacionais que pedem medidas para conter a concorrência externa em meio à disputa de preços no mercado. A proposta deve ser analisada pela Câmara de Comércio Exterior (Camex) em reunião prevista para sexta-feira (27/02/2026), após análise técnica do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e avaliação jurídica conduzida pela Casa Civil.
A discussão ocorre em um contexto sensível para a cadeia produtiva do cacau. Embora o Brasil seja um produtor tradicional — com destaque para a Bahia, principal polo nacional da cultura cacaueira — o país também depende de importações para abastecer a indústria de moagem e processamento. Nesse cenário, produtores argumentam que a concorrência internacional tem pressionado o mercado interno e pedem mecanismos de proteção econômica.
De acordo com o governo, não existe base sanitária para restringir a entrada do cacau estrangeiro, o que deslocou o debate para a esfera comercial. Assim, passou a ser considerada a adoção de instrumentos tarifários, como a elevação do imposto de importação, para equilibrar as condições de competição entre o produto nacional e o importado.
Governo descarta bloqueio sanitário e avalia instrumento tarifário
Relatório técnico elaborado pelo Ministério da Agricultura concluiu que não foram identificadas doenças ou riscos fitossanitários associados ao cacau importado que justificassem a suspensão das compras externas.
O documento foi encaminhado à Casa Civil, que analisa os fundamentos jurídicos antes de levar o tema para discussão formal na Camex, órgão responsável pela política comercial brasileira.
Diante da ausência de justificativa sanitária, o debate passou a concentrar-se em medidas comerciais, entre elas a possibilidade de instituir um imposto de importação excepcional para proteger temporariamente os produtores nacionais.
Técnicos do governo afirmam que o problema atual é essencialmente econômico, relacionado à formação de preços e à competição entre a produção doméstica e o produto importado.
Mercado internacional de cacau influencia preços e disputa comercial
O mercado global de cacau atravessa um período de instabilidade associado principalmente à redução da oferta na África Ocidental, região que concentra a maior parte da produção mundial.
Países como Costa do Marfim e Gana enfrentaram problemas climáticos, doenças nas plantações e dificuldades logísticas, fatores que alteraram o equilíbrio entre oferta e demanda no comércio internacional.
Essas mudanças repercutem diretamente no mercado brasileiro, que participa simultaneamente como produtor e importador do grão. A volatilidade internacional tem intensificado a discussão sobre competitividade da produção nacional e necessidade de mecanismos de equilíbrio comercial.
Arroba do cacau na Bahia é cotada a R$ 150
No mercado interno, a cotação da arroba de cacau (saco com 15 kg) na Bahia é de aproximadamente R$ 150 nesta quinta-feira (26/02/2026), segundo referências de negociação no estado.
O valor reflete a dinâmica regional de compra e venda entre produtores, cooperativas, intermediários e indústrias processadoras.
A Bahia permanece como principal estado produtor do país, com forte presença da cultura cacaueira nas regiões sul e extremo sul, especialmente nos municípios de Ilhéus, Itabuna, Uruçuca, Camacan e Itajuípe, onde o cacau continua sendo uma atividade econômica relevante para milhares de agricultores.
Cotação internacional aponta diferença de cerca de R$ 100 por saco
Enquanto o mercado regional registra valores próximos de R$ 150 por arroba de 15 kg, o preço internacional do cacau apresenta patamar significativamente superior.
Nesta quinta-feira (26/02/2026), a cotação do produto na Bolsa de Nova Iorque indica que 1.000 quilos de cacau são negociados a cerca de US$ 3.125,00.
Considerando essa referência internacional, o equivalente para um saco de 15 quilos corresponde aproximadamente a R$ 245,16, após conversão cambial.
A comparação revela que o preço pago ao produtor na Bahia apresenta defasagem próxima de R$ 100 por saco em relação ao mercado internacional, diferença que tem sido apontada por produtores como um dos fatores que alimentam a pressão por medidas de proteção comercial.
Essa discrepância reflete diversos fatores da cadeia produtiva, incluindo custos logísticos, estrutura de comercialização, margens industriais e dinâmica do mercado interno.
Pressão por proteção comercial segue padrão recorrente no agro
Dentro do governo federal, técnicos avaliam que a pressão por medidas de proteção comercial segue um padrão recorrente em diferentes cadeias do agronegócio brasileiro.
Setores como leite, café, banana e arroz já passaram por períodos semelhantes, nos quais produtores buscaram intervenção governamental diante de variações nos preços internacionais.
A interpretação predominante nas áreas técnicas é que essas disputas costumam ocorrer em ciclos de mercado, quando oscilações globais alteram temporariamente a competitividade entre produção nacional e importações.
Por essa razão, eventuais medidas tarifárias costumam ser tratadas como instrumentos pontuais e temporários, utilizados para estabilizar o mercado em momentos de maior tensão.
Dependência da indústria brasileira de cacau importado
Outro elemento central do debate é a estrutura da cadeia produtiva no Brasil.
Embora possua tradição na produção agrícola, o país ainda não produz volume suficiente para atender integralmente à demanda da indústria de processamento, responsável pela fabricação de manteiga, pó e massa de cacau.
Dessa forma, as importações tornaram-se parte estrutural do abastecimento industrial, o que exige cautela na adoção de medidas que possam elevar custos de produção.
A decisão do governo deverá equilibrar interesses da produção rural, da indústria e do consumidor, evitando distorções que comprometam a competitividade do setor chocolateiro brasileiro.








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