Camões completa 500 anos e Portugal promove agenda internacional para celebrar o maior poeta da língua portuguesa

Portugal celebra em 2026 os 500 anos de nascimento de Luís Vaz de Camões, considerado o maior poeta da língua portuguesa e autor de “Os Lusíadas”, obra central do Renascimento literário lusitano. A efeméride mobiliza uma extensa programação cultural, acadêmica e artística em território português e em países de língua portuguesa, com exposições, congressos, ciclos de debates, prêmios literários, espetáculos e iniciativas pedagógicas destinadas a valorizar o legado do autor.

A celebração, organizada pelo governo português por meio de uma estrutura especial de comemorações, busca reafirmar a atualidade da obra camoniana e sua influência na formação cultural e linguística do mundo lusófono. A programação se estende até junho de 2026 e inclui atividades em Lisboa, em outras cidades portuguesas e em comunidades portuguesas no exterior.

O poeta que fundou a tradição literária portuguesa

Camões é reconhecido como o principal nome da literatura portuguesa por sua capacidade de transformar o idioma em instrumento literário de alcance universal. Em “Os Lusíadas”, poema épico publicado em 1572, o autor narra a viagem de Vasco da Gama à Índia, ao mesmo tempo em que exalta as conquistas marítimas portuguesas e apresenta críticas ao poder político.

Especialistas destacam que a obra não criou a língua portuguesa, mas consolidou o idioma como língua literária de prestígio, elevando-o ao patamar das principais línguas europeias do período renascentista. O uso de oitavas rimadas e a construção sintática refinada contribuíram para estabelecer um modelo estilístico que influenciaria gerações de escritores.

Segundo o professor José Augusto Cardoso Bernardes, da Universidade de Coimbra, a atualidade de Camões reside na permanência dos temas abordados, como o conflito entre justiça e injustiça, a insuficiência das palavras para expressar a realidade e o impulso humano de superação.

Programação oficial reúne exposições, congressos e espetáculos

A agenda do centenário inclui eventos culturais e acadêmicos distribuídos ao longo de 2026. Entre as principais iniciativas previstas em Lisboa estão:

  • Exposição “No Rastro de Luís de Camões”, na Biblioteca Nacional de Portugal
  • Congresso internacional “O tempo de Camões, Camões no nosso tempo”
  • Ciclo de conferências “Camões Hoje”, no Palácio Galveias
  • Prêmio literário “Conhecer Camões”
  • Ópera “Relicário Perpétuo”, no Teatro São Carlos
  • Mesa-redonda “As Mulheres no Tempo de Camões”

Além de Portugal, instituições culturais em outros países lusófonos também participam das comemorações. No Brasil, o Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro, recebeu a Ordem de Camões, em reconhecimento ao acervo que inclui um exemplar da primeira edição de “Os Lusíadas”.

Camões e a consolidação da língua portuguesa

Estudos literários indicam que a obra camoniana teve papel decisivo na consolidação do português como idioma literário moderno. Especialistas atribuem ao poeta a introdução de musicalidade, plasticidade e inovação estilística que influenciaram profundamente a tradição poética.

A escritora Isabel Rio Novo, biógrafa de Camões, afirma que os poetas posteriores tornaram-se herdeiros dessa renovação linguística, que conferiu ao português maior expressividade sensorial e emocional.

O impacto ultrapassou Portugal. No Brasil, a influência camoniana pode ser observada em autores como Gregório de Matos, no século XVII, e posteriormente em poetas do modernismo, como Carlos Drummond de Andrade, segundo estudos de literatura brasileira.

Pesquisas linguísticas também indicam que o português falado no Brasil preserva características fonéticas mais próximas do idioma do século XVI do que o português contemporâneo de Portugal, o que sugere uma proximidade sonora com a língua de Camões.

A vida marcada por guerras, viagens e adversidades

A trajetória de Camões permanece cercada de incertezas e episódios dramáticos. O poeta teria nascido em Lisboa ou no Porto, possivelmente com origem familiar na Galícia. Ainda jovem, atuou como poeta lírico na corte portuguesa.

Após uma desilusão amorosa, alistou-se no Exército e partiu para o norte da África, onde perdeu o olho direito em combate. De volta a Lisboa, envolveu-se em conflitos e acabou preso após ferir um fidalgo. Posteriormente, recebeu perdão real e foi enviado para o Oriente.

Camões viveu cerca de 17 anos na Ásia, principalmente em Goa, onde teria escrito “Os Lusíadas”. Relatos indicam que o poeta sobreviveu a um naufrágio e salvou o manuscrito da obra.

Retornou a Lisboa em 1570, onde conseguiu autorização para publicar o poema épico. Apesar do reconhecimento literário, passou os últimos anos em condições precárias e morreu em 10 de junho de 1580, possivelmente vítima da peste, sendo enterrado como indigente. Posteriormente, seus restos mortais teriam sido trasladados para o Mosteiro dos Jerônimos.

Símbolo nacional e referência da comunidade lusófona

Camões tornou-se uma figura central da identidade cultural portuguesa. O dia de sua morte, 10 de junho, foi adotado como o Dia de Portugal e das Comunidades Portuguesas, reforçando o papel do poeta como símbolo nacional.

Estudiosos destacam dois aspectos principais de seu legado:

  • A valorização e prestígio internacional da língua portuguesa
  • A função agregadora do poeta como referência cultural comum entre os falantes do idioma

A vida do autor, marcada por guerras, viagens, prisões e dificuldades financeiras, contribuiu para a construção de sua imagem como gênio literário e figura mítica da cultura portuguesa.

*Com informações da RFI.


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