O Carnaval da Bahia, especialmente o de Salvador, é resultado de um longo processo histórico que mistura tradições europeias, influências africanas e invenções culturais genuinamente brasileiras. A festa, que hoje mobiliza milhões de pessoas e movimenta a economia do estado, nasceu de práticas coloniais, atravessou transformações sociais profundas e se reinventou com o surgimento de novas manifestações musicais e formas de ocupação das ruas.
A seguir, uma periodização histórica que permite compreender como o Carnaval baiano evoluiu ao longo dos séculos.
Período colonial e imperial (séculos XVII–XIX): o entrudo e as primeiras festas
Nos tempos coloniais, o Carnaval era dominado pelo entrudo, prática trazida de Portugal. Tratava-se de uma brincadeira popular marcada por jogos de água, farinha, limões-de-cheiro e tintas, muitas vezes violentos e desordenados.
O entrudo era praticado tanto por elites quanto por escravizados e pessoas livres pobres. Porém, havia distinções sociais:
- Entrudo doméstico: realizado nos sobrados da elite, com perfumes e flores.
- Entrudo popular: nas ruas, com água suja, lama e materiais improvisados.
A partir do século XIX, autoridades passaram a reprimir o entrudo por considerá-lo violento e anti-higiênico. Nesse período, surgem as primeiras formas organizadas de folia:
- Bailes de máscaras em clubes e teatros.
- Sociedades carnavalescas, inspiradas nos modelos europeus.
- Desfiles com carros alegóricos e fantasias luxuosas.
Essa fase marca a transição de uma festa espontânea e caótica para manifestações mais organizadas.
Final do século XIX e início do XX: clubes, corsos e influência europeia
Entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, o Carnaval baiano assumiu características mais aristocráticas.
Principais manifestações:
- Clubes carnavalescos: organizavam desfiles com fantasias e alegorias.
- Corsos: desfiles de automóveis decorados, com foliões jogando confetes e serpentinas.
- Bailes de máscaras: realizados em teatros e clubes sociais.
A festa era fortemente influenciada por modelos europeus, especialmente franceses e italianos, refletindo o gosto das elites urbanas.
Décadas de 1930 a 1950: a popularização e os blocos de rua
A partir da década de 1930, o Carnaval começa a se popularizar definitivamente nas ruas. As manifestações de origem afro-brasileira ganham força, e a festa deixa de ser dominada apenas por clubes elitizados.
Principais manifestações:
- Blocos de rua com batucadas.
- Cordões carnavalescos formados por moradores dos bairros.
- Grupos musicais itinerantes.
O grande marco desse período ocorre em 1950, com a criação do trio elétrico de Dodô e Osmar, que transformaria definitivamente o Carnaval baiano. A invenção consistia em um veículo adaptado com amplificadores e músicos tocando em cima, desfilando pelas ruas.
Esse modelo deslocou o centro da festa:
- Dos salões para as ruas.
- Da elite para o povo.
- Da fantasia para a música amplificada.
Décadas de 1960 a 1980: surgimento dos blocos afro e a identidade baiana
Esse período marca uma profunda transformação cultural e política do Carnaval da Bahia.
Principais marcos:
- 1949: fundação dos Filhos de Gandhy.
- 1974: criação do Ilê Aiyê, primeiro bloco afro.
- 1979: surgimento do Olodum.
Os blocos afro trouxeram:
- Valorização da estética negra.
- Ritmos inspirados em matrizes africanas.
- Discursos de afirmação cultural e política.
O Carnaval passa a refletir com mais intensidade a herança africana da Bahia, tornando-se um espaço de expressão identitária.
Décadas de 1980 a 2000: a explosão do axé e a profissionalização
Nos anos 1980, surge o axé music, gênero que mistura:
- Frevo
- Reggae
- Samba
- Ritmos afro-baianos
Artistas e bandas como:
- Luiz Caldas
- Chiclete com Banana
- Daniela Mercury
- Ivete Sangalo
transformaram o Carnaval em um fenômeno de massa.
Características dessa fase:
- Consolidação dos trios elétricos gigantes.
- Criação dos blocos de trio, com cordas separando foliões pagantes.
- Profissionalização da festa.
- Crescimento do turismo e da economia do Carnaval.
Século XXI: megafesta global e diversidade de manifestações
No século XXI, o Carnaval da Bahia tornou-se uma das maiores festas populares do planeta.
Características atuais:
- Três principais circuitos em Salvador:
- Dodô (Barra-Ondina)
- Osmar (Campo Grande)
- Batatinha (Centro Histórico)
- Convivência de diferentes formas de folia:
- Blocos de trio
- Blocos afro
- Afoxés
- Pipoca (foliões sem corda)
- Palcos alternativos e culturais
A festa tornou-se:
- Produto turístico internacional.
- Motor econômico para o estado.
- Plataforma de políticas públicas culturais.
Principais manifestações do Carnaval baiano (por tipo)
Tradicionais
- Entrudo (séculos XVII–XIX)
- Bailes de máscara
- Clubes carnavalescos
- Corsos
Populares e musicais
- Blocos de rua
- Cordões carnavalescos
- Trios elétricos
- Blocos afro
- Afoxés
Contemporâneas
- Blocos de trio
- Pipoca
- Palcos culturais
- Festas temáticas e circuitos alternativos
Carnaval nos municípios baianos
Embora Salvador concentre a maior visibilidade, o Carnaval é celebrado em diversas cidades, com características próprias:
Salvador
- Maior Carnaval de rua do mundo.
- Forte presença de trios elétricos e blocos afro.
Barreiras
- Um dos maiores carnavais do interior, com forte presença de trios elétricos.
Porto Seguro
- Carnaval voltado ao turismo, com festas de praia e grandes shows.
Ilhéus e Itabuna
- Mistura de blocos tradicionais e eventos musicais.
Rio de Contas
- Carnaval cultural e histórico, com marchinhas e manifestações tradicionais.
Feira de Santana, o Carnaval de fora de época
-
Feira de Santana comemora a Micareta, uma espécie de Carnaval fora de época que integra o calendário cultural da cidade há décadas. Tradicionalmente realizada no mês de abril, a festa será excepcionalmente transferida para novembro em 2026, mantendo o formato consagrado ao longo do tempo.
O evento preserva sua identidade histórica, com desfiles de blocos, trios elétricos, micaretas tradicionais e uma programação cultural diversificada, reunindo manifestações populares, atrações musicais e atividades que movimentam a economia e o turismo local. A Micareta de Feira de Santana continua sendo uma das festas mais emblemáticas do interior do Brasil, marcada pela continuidade de tradições que atravessam gerações e consolidam a cidade como referência no calendário festivo baiano.
Em termos culturais, trata-se de um fenômeno curioso: uma festa criada para prolongar o espírito do Carnaval acabou se tornando tradição própria, quase um “segundo ciclo” festivo. É um exemplo de como costumes inventados por necessidade — no caso, manter a festa quando o Carnaval oficial não pôde ocorrer — podem ganhar raízes profundas e se tornar parte da identidade coletiva, como se sempre tivessem existido.
Síntese histórica
Séculos XVII–XIX: entrudo e festas coloniais
Final do XIX–início do XX: clubes, corsos e bailes
1930–1950: popularização das ruas
1950: surgimento do trio elétrico
1970–1980: blocos afro e afirmação cultural
1980–2000: explosão do axé e profissionalização
Século XXI: megafesta global e diversidade cultural
O Carnaval da Bahia é um organismo vivo, uma espécie de laboratório social a céu aberto onde tradição, mercado, identidade e música colidem de forma barulhenta e produtiva. Cada geração reinventa a festa, mas os fios invisíveis do passado — do entrudo aos blocos afro — continuam costurando a narrativa. A história do Carnaval baiano mostra que as ruas são arquivos vivos: nelas, a memória dança, canta e se transforma em futuro.











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