Costa do Marfim avalia reduzir preço pago aos produtores de cacau e alinhar política com Gana em meio à queda global das cotações

Domingo, 22/02/2026 – A Costa do Marfim, maior produtora mundial de cacau, avalia reduzir o preço pago aos agricultores para alinhar sua política à de Gana, segundo duas fontes do governo ouvidas pela agência Reuters. A possível decisão ocorre em meio à forte queda das cotações internacionais, que já derrubou o valor do produto em cerca de 50% nos últimos meses, pressionando as finanças dos produtores e ameaçando a estabilidade do setor.

As discussões, ainda em andamento, envolvem a possibilidade de seguir o corte anunciado por Gana, que reduziu em 28,6% o preço do portão agrícola para o restante da safra principal de 2025/2026. A coordenação ocorre no âmbito da Iniciativa Costa do Marfim–Gana para o Cacau (ICCIG), organismo criado para harmonizar políticas e sustentar a renda dos produtores.

Queda das cotações e pressão sobre governos

Autoridades marfinenses afirmam que todas as opções estão em análise diante do recuo acentuado dos preços internacionais. O preço de portão agrícola, fixado no início da safra, representa o valor pago diretamente aos agricultores antes da atuação de intermediários, exportadores e processadores.

Segundo uma das fontes, a queda contínua das cotações deixou o governo com pouca margem de manobra. Os contratos futuros do cacau negociados na bolsa ICE atingiram o nível mais baixo em dois anos e meio, refletindo a preocupação com estoques não vendidos tanto na Costa do Marfim quanto em Gana.

A decisão final deve ser tomada por um comitê interministerial, que já se reuniu para discutir o tema. Exportadores e compradores avaliam que a questão não é mais se haverá corte de preços, mas quando ele será anunciado.

Coordenação entre os dois maiores produtores mundiais

Costa do Marfim e Gana respondem juntos por cerca de 60% da produção global de cacau, o que confere grande influência às decisões de política agrícola de ambos os países. Desde o início da crise, as autoridades vêm mantendo coordenação estreita por meio da ICCIG.

O secretário-executivo da entidade, Alex Assanvo, afirmou que os dois países estão se adaptando à reversão repentina do mercado e adotando medidas para evitar danos estruturais ao setor.

Segundo ele, as mesas de negociação do Conselho de Café e Cacau da Costa do Marfim e do COCOBOD de Gana mantêm contato regular para alinhar políticas e respostas à volatilidade.

Diferencial de Renda Vital volta ao centro do debate

Assanvo também defendeu o Diferencial de Renda Vital, mecanismo criado em 2019 para elevar os ganhos dos agricultores por meio de um adicional fixo no preço internacional do cacau.

De acordo com o dirigente, a volatilidade recente reforça a importância desse instrumento para proteger a renda dos produtores e estabilizar o setor em momentos de queda acentuada das cotações.

A ICCIG prepara uma nova reunião bilateral para discutir mecanismos de estabilização de preços e possíveis ajustes nas políticas conjuntas, diante das dificuldades enfrentadas pelos agricultores.

Agricultores pressionados e estoques encalhados

A crise de preços tem provocado acúmulo de estoques não vendidos, com relatos de produtores aguardando por meses a compra de suas colheitas. O cenário aumenta a pressão sobre os governos, que buscam soluções para evitar o colapso da renda agrícola.

Fontes do setor afirmam que a Costa do Marfim tenta resistir a cortes abruptos, mas a trajetória das cotações internacionais torna a decisão cada vez mais provável.

*Com informações da Agência Reuters.


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