Custos bilionários, inflação e impacto no emprego: o debate econômico sobre o fim da escala 6×1 no Brasil

A proposta de redução da jornada de trabalho e extinção da escala 6×1, atualmente em discussão no Congresso Nacional, tornou-se um dos temas centrais do debate econômico e político brasileiro em 2026. Defendida por setores do governo federal e por parlamentares aliados, a iniciativa busca reduzir o limite semanal de trabalho e ampliar os dias de descanso dos trabalhadores. No entanto, economistas, entidades empresariais e especialistas em mercado de trabalho alertam para impactos potencialmente significativos, como aumento de custos para empresas, pressões inflacionárias e possíveis efeitos sobre emprego, produtividade e crescimento econômico.

O tema ganhou força em meio ao calendário eleitoral e passou a mobilizar diferentes propostas legislativas que alteram o atual regime de 44 horas semanais e escala 6×1, substituindo-o por modelos que variam entre jornadas de 36 a 40 horas semanais e semanas de trabalho com dois ou três dias de descanso.

A presente reportagem do Jornal Grande Bahia é baseada na reportagem de capa da revista Veja, publicada em 27 de fevereiro de 2026, edição nº 2984, que analisou os impactos econômicos e políticos da proposta em debate no país.

Origem do debate e propostas em discussão no Congresso

A legislação trabalhista brasileira estabelece, desde a Constituição de 1988, jornada máxima de 44 horas semanais, com pelo menos um dia de descanso. Ainda no início da década de 1990 surgiram os primeiros projetos propondo reduzir esse limite para 40 horas, mas nenhuma dessas iniciativas chegou a ser implementada.

Nos últimos meses, o tema voltou ao centro da agenda política nacional. Diferentes projetos em tramitação no Congresso sugerem alterações estruturais no regime de trabalho.

Entre as principais propostas discutidas estão:

  • PEC 221/2019, que estabelece jornada semanal de 36 horas e adoção da escala 5×2, com transição gradual ao longo de dez anos.
  • PEC 8/2025, que prevê jornada semanal de 36 horas, com possibilidade de escala 4×3, mediante acordo coletivo.
  • PEC 148/2015, que determina redução gradual da jornada para 36 horas semanais em quatro anos.

Paralelamente, o governo federal defende um modelo intermediário, com jornada semanal de 40 horas e escala 5×2, embora ainda não haja definição clara sobre o cronograma de implementação.

Apoio popular e dimensão política da proposta

A proposta apresenta forte apelo social, especialmente entre trabalhadores submetidos a jornadas extensas.

Levantamento recente da agência de pesquisas Nexus indica que 73% dos entrevistados apoiam o fim da escala 6×1, desde que não haja redução salarial. Esse dado ganha relevância ao considerar o tamanho do público potencialmente afetado.

Dos 44 milhões de trabalhadores com carteira assinada no Brasil, aproximadamente 33 milhões possuem contratos com jornadas de 44 horas ou mais por semana. Trata-se de um contingente expressivo, superior inclusive ao número de beneficiários de grandes programas sociais federais.

Esse fator contribui para que a pauta ganhe peso político relevante, sobretudo em um contexto de disputa eleitoral e busca por políticas com forte impacto social.

Impactos econômicos estimados por especialistas

Apesar do apoio popular, a redução da jornada levanta preocupações no campo econômico.

Estudos indicam que a mudança poderia provocar queda significativa na atividade econômica, caso não haja aumento proporcional da produtividade.

Simulação conduzida pelo economista Daniel Duque, pesquisador da Fundação Getulio Vargas, aponta que:

  • Com jornada de 40 horas semanais, o PIB brasileiro poderia cair cerca de 2,6%.
  • Com jornada de 36 horas, a retração poderia alcançar 7,4%.

Segundo o estudo, a produtividade por hora trabalhada tende a aumentar com jornadas menores, porém não o suficiente para compensar a redução total de horas trabalhadas, o que resultaria em diminuição da produção agregada.

Aumento de custos e impacto nos setores produtivos

Outro aspecto central do debate envolve o impacto sobre o custo do trabalho.

Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) indica que a redução da jornada para 36 horas poderia elevar o custo médio do trabalho formal em até 17%, pressionando especialmente setores intensivos em mão de obra.

Projeções da Confederação Nacional da Indústria (CNI) estimam que a adaptação ao novo regime poderia gerar custos adicionais anuais aproximados de:

  • R$ 235 bilhões no setor de serviços
  • R$ 122 bilhões no comércio
  • R$ 87 bilhões na indústria

O impacto total poderia alcançar cerca de R$ 444 bilhões por ano, considerando um cenário de jornada semanal de 40 horas.

Setores com funcionamento contínuo, como transporte e logística, afirmam que parte desse aumento de custo tende a ser repassado aos preços, o que poderia produzir efeitos inflacionários.

Produtividade brasileira e comparação internacional

O debate também evidencia uma fragilidade estrutural da economia brasileira: a baixa produtividade do trabalho.

Dados da Organização Internacional do Trabalho indicam que um trabalhador brasileiro produz, em média, cerca de 21 dólares por hora trabalhada.

Para efeito comparativo:

  • Chile: cerca de 34 dólares por hora
  • Estados Unidos: aproximadamente 82 dólares por hora

Mesmo com jornadas semelhantes, a diferença de produtividade resulta em menor geração de riqueza por trabalhador, limitando a capacidade de reduzir horas trabalhadas sem impacto sobre a produção total.

Encargos trabalhistas e estrutura de custos

Outro fator frequentemente mencionado por especialistas é o elevado custo estrutural do trabalho no Brasil.

Benefícios e obrigações como férias, décimo terceiro salário, FGTS e contribuições previdenciárias fazem com que o custo total da folha de pagamento possa alcançar mais de 100% do valor do salário pago ao trabalhador.

Em comparação internacional, esse peso é significativamente menor em diversas economias:

  • França: cerca de 70%
  • Estados Unidos e Japão: aproximadamente 10%

Esse cenário torna qualquer aumento adicional no custo do trabalho particularmente sensível para empresas brasileiras, sobretudo em setores de menor margem ou alta dependência de mão de obra.

Experiências internacionais e transições graduais

Diversos países adotaram jornadas inferiores a 40 horas semanais, porém geralmente por meio de processos graduais e negociados.

Entre os exemplos frequentemente citados estão:

  • França, com jornada de 35 horas semanais
  • Austrália, com cerca de 38 horas
  • Irlanda, com aproximadamente 39 horas

Na América Latina, reformas recentes também seguiram trajetórias progressivas. A Colômbia aprovou redução para 42 horas semanais, enquanto o Chile iniciou transição gradual rumo ao limite de 40 horas.

Esses processos foram acompanhados por negociações coletivas e ajustes produtivos, elementos considerados essenciais para minimizar impactos econômicos.

Entre demanda social e limites estruturais da economia

O debate sobre o fim da escala 6×1 expõe um dilema recorrente das políticas públicas: conciliar avanços sociais com a sustentabilidade econômica do sistema produtivo.

A redução da jornada de trabalho é historicamente associada a conquistas civilizatórias que ampliaram qualidade de vida e equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. Entretanto, sua viabilidade depende de fatores estruturais, especialmente ganhos consistentes de produtividade.

No caso brasileiro, a discussão ocorre em um ambiente marcado por produtividade estagnada, elevados encargos trabalhistas e grande heterogeneidade no mercado de trabalho, o que torna reformas desse tipo particularmente complexas.

Outro elemento de tensão reside no contexto político. A centralidade do tema em período eleitoral levanta questionamentos sobre o ritmo e a motivação do debate, sugerindo que decisões estruturais dessa magnitude exigem planejamento técnico, diálogo social amplo e análise econômica de longo prazo.


Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe to get the latest posts sent to your email.




Deixe um comentário

Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
O Jornal Grande Bahia completa 19 anos de atuação contínua no ambiente digital, consolidando-se como referência do jornalismo independente na Bahia. Fundado em 2007, o veículo construiu uma trajetória marcada por rigor editorial, pluralidade temática e compromisso com a informação pública, aliando tradição jornalística, inovação tecnológica e participação qualificada no debate democrático.
Banner da Jads Foto.
Banner de Lula Fotografia.
Banner da RFI.

Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading