Do entrudo ao samba: como nasceu o Carnaval no Brasil

O carnaval brasileiro, hoje reconhecido como uma das maiores festas populares do mundo, nasceu de uma mistura histórica entre tradições europeias, influências africanas e transformações urbanas ocorridas ao longo de mais de três séculos. O percurso vai do violento entrudo colonial aos desfiles organizados das escolas de samba, passando por cordões, ranchos, blocos e trios elétricos que moldaram a identidade cultural do país.

A história da festa não seguiu uma linha pacífica ou previsível. O Carnaval do Brasil foi resultado de tensões sociais, repressões policiais, disputas entre elites e camadas populares e sucessivas tentativas de disciplinar a cultura de rua. O que hoje é espetáculo internacional começou como desordem urbana, foi domesticado pelas classes dominantes e depois apropriado pelas massas, tornando-se símbolo nacional.

Século XVII: o entrudo português chega ao Brasil

O entrudo foi a primeira forma de celebração carnavalesca registrada no Brasil. Introduzido pelos colonizadores portugueses no século XVII, o costume consistia em brincadeiras agressivas nas quais pessoas jogavam água, farinha, frutas podres, ovos e até detritos umas nas outras.

A prática era comum nas cidades coloniais, especialmente em Salvador, Recife e Rio de Janeiro, e envolvia tanto escravizados quanto senhores, embora de forma desigual e marcada por tensões sociais.

Linha histórica do entrudo

  • Século XVII: início da prática no Brasil colonial
  • Século XVIII: expansão nas cidades portuárias
  • Início do século XIX: autoridades passam a tentar proibir o entrudo devido à violência e desordem pública

Apesar das tentativas de repressão policial, o entrudo resistiu por décadas, tornando-se símbolo de um Carnaval espontâneo, desorganizado e frequentemente violento.

Décadas de 1830–1850: bailes e sociedades carnavalescas

A partir da primeira metade do século XIX, as elites urbanas passaram a rejeitar o entrudo e buscar formas mais “civilizadas” de celebração. Inspiradas nos modelos europeus, surgiram os bailes de máscaras e as primeiras sociedades carnavalescas.

Marcos históricos

  • 1834: registro de um dos primeiros bailes de Carnaval no Rio de Janeiro
  • 1840–1850: formação das primeiras sociedades organizadas, com desfiles e fantasias

Essas sociedades introduziram desfiles ordenados, carros alegóricos e fantasias elaboradas, transformando o Carnaval em um espetáculo urbano.

Tratava-se de um esforço consciente das elites para controlar o espaço público e impor padrões culturais considerados mais refinados. O Carnaval começava a se dividir entre o salão aristocrático e a rua popular.

Final do século XIX: cordões, ranchos e o Carnaval popular

No final do século XIX, o Carnaval passa a ganhar feição mais popular e mestiça. Grupos formados por trabalhadores, imigrantes e ex-escravizados ocupam as ruas com música, dança e fantasia.

Transformações principais

  • 1870–1890: surgimento dos cordões carnavalescos, com instrumentos e fantasias simples
  • 1899: composição de “Ó Abre Alas”, de Chiquinha Gonzaga, considerada a primeira marchinha carnavalesca brasileira

Nesse período surgem também os ranchos carnavalescos, que já apresentavam organização interna, enredos e figurinos. Esses grupos anteciparam o modelo das futuras escolas de samba.

Décadas de 1910–1930: nascimento do samba urbano

O início do século XX marca a transformação decisiva do Carnaval. Com a urbanização do Rio de Janeiro, comunidades negras e trabalhadores suburbanos passam a organizar desfiles baseados em ritmos afro-brasileiros.

Marcos fundamentais

  • 1917: gravação de “Pelo Telefone”, atribuída a Donga, considerado o primeiro samba gravado
  • Década de 1920: surgimento de blocos e grupos ligados ao samba nos bairros populares
  • 1928: fundação da Estação Primeira de Mangueira

Nesse período, o samba deixa de ser marginalizado e passa a ganhar reconhecimento público, consolidando-se como o ritmo central do Carnaval.

Década de 1930: oficialização das escolas de samba

O modelo das escolas de samba se consolida nos anos 1930, quando os desfiles passam a ser organizados e reconhecidos oficialmente.

Marcos institucionais

  • 1932: primeiro concurso oficial de escolas de samba no Rio de Janeiro
  • 1935: regulamentação das escolas de samba pelo poder público

A partir daí, o Carnaval ganha estrutura permanente, com enredos, alas, bateria, comissão de frente e julgamento oficial.

O Estado percebeu que era mais eficiente organizar a festa do que combatê-la. O que antes era visto como ameaça à ordem urbana passou a ser incorporado como símbolo nacional.

Segunda metade do século XX: expansão nacional e profissionalização

Entre as décadas de 1950 e 1980, o Carnaval transforma-se em espetáculo de massa.

Principais mudanças

  • Crescimento das transmissões de rádio e TV
  • Popularização das marchinhas e do samba-enredo
  • Profissionalização das escolas
  • 1984: inauguração do Sambódromo da Marquês de Sapucaí

Outras capitais consolidam estilos próprios, ampliando a diversidade carnavalesca brasileira.

Século XXI: o Carnaval como indústria cultural global

Hoje, o Carnaval brasileiro é uma das maiores festas do planeta, com impacto econômico, turístico e cultural.

Características contemporâneas

  • Milhões de foliões nas ruas
  • Desfiles transmitidos para dezenas de países
  • Forte presença de blocos de rua
  • Expansão da economia criativa e do turismo cultural

O Carnaval tornou-se uma indústria cultural complexa, movimentando setores como hotelaria, transporte, comércio, alimentação e entretenimento.

Principais cidades do Carnaval brasileiro e suas características

Rio de Janeiro (RJ)

  • Desfiles das escolas de samba no Sambódromo
  • Espetáculo competitivo e altamente profissional
  • Forte presença midiática internacional

São Paulo (SP)

  • Desfiles competitivos no Sambódromo do Anhembi
  • Crescimento técnico nas últimas décadas
  • Forte participação de comunidades periféricas

Salvador (BA)

  • Carnaval de rua com trios elétricos
  • Presença de blocos afros e afoxés
  • Ritmos como axé, samba-reggae e pagode

Recife (PE)

  • Carnaval de rua aberto
  • Predomínio do frevo e maracatu
  • Galo da Madrugada, maior bloco do mundo

Olinda (PE)

  • Bonecos gigantes e blocos líricos
  • Ambiente histórico e tradição popular
  • Forte presença de ritmos pernambucanos

Belo Horizonte (MG)

  • Crescimento acelerado dos blocos de rua
  • Carnaval descentralizado e participativo

Porto Alegre (RS)

  • Desfiles de escolas de samba
  • Influência do modelo carioca

Manaus (AM)

  • Desfiles de escolas de samba
  • Mistura de influências amazônicas e cariocas

Fortaleza (CE)

  • Mistura de maracatu cearense, axé e música regional
  • Blocos e festas em avenidas e áreas litorâneas

Importância cultural e econômica do Carnaval

O Carnaval é um fenômeno cultural que transcende a mera celebração. É período de intensa produção artística e afirmação da diversidade cultural brasileira.

Dimensões centrais

Cultura e identidade:
O Carnaval preserva tradições, ritmos, danças e narrativas históricas transmitidas entre gerações.

Economia:
A festa gera empregos temporários, impulsiona o turismo e movimenta setores como hotelaria, alimentação, transporte e comércio.

Comunidade e inclusão:
É um evento de participação ampla, reunindo diferentes classes sociais em uma celebração coletiva.

Desafios e perspectivas

Apesar de sua importância, o Carnaval enfrenta desafios estruturais.

Principais questões

  • Necessidade de financiamento público e privado
  • Logística urbana e segurança
  • Preservação de tradições diante da comercialização crescente

A sustentabilidade da festa depende de políticas públicas que valorizem a cultura, garantam apoio às manifestações populares e preservem o patrimônio imaterial brasileiro.

Uma festa que nasceu do conflito e virou identidade nacional

A história do Carnaval brasileiro revela um processo típico da formação social do país: o que começou como brincadeira violenta e desordenada transformou-se em um dos maiores símbolos culturais do planeta.

É um fenômeno histórico revelador. As tradições não surgem prontas; elas se formam por atrito, negociação e memória coletiva. O entrudo, que as elites tentaram apagar, acabou sendo a semente de uma das expressões culturais mais sofisticadas do mundo.

O Carnaval brasileiro é, no fundo, uma tese histórica em movimento: mistura, conflito, adaptação e criação. Uma síntese viva da formação social do país, onde a cultura popular sobrevive, resiste e se reinventa a cada batida de tambor.

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