A mudança de postura dos Estados Unidos sob a liderança de Donald Trump vem forçando a Europa a revisar rapidamente sua estratégia de defesa, ampliar gastos militares e repensar alianças tradicionais. O tema dominou os debates da Conferência de Segurança de Munique, principal encontro anual do setor, ocorrido entre 13 a 15 de fevereiro de 2026 em Munique , Alemanha em meio a um cenário de relações transatlânticas deterioradas, pressão por maior autonomia europeia e incertezas quanto ao futuro da OTAN.
Europa vive “choque de realidade” na segurança internacional
A transformação do ambiente estratégico internacional tornou-se visível até mesmo no cotidiano de cidades alemãs. Em Munique, cartazes promovendo drones e tecnologia militar passaram a ocupar espaços urbanos antes associados a consumo e turismo. A mensagem central, repetida em diversas peças publicitárias, resume a nova atmosfera política: “A segurança da Europa está em construção”.
A mudança reflete um sentimento crescente de vulnerabilidade no continente. Pesquisa recente do Eurobarómetro indica que 68% dos europeus acreditam que seus países estão ameaçados, cenário alimentado por três fatores principais:
- A guerra na Ucrânia e a postura expansionista da Rússia
- A competição econômica com a China
- A postura mais imprevisível dos Estados Unidos sob Trump
Na Alemanha, o Escritório Federal de Proteção Civil alertou, pela primeira vez desde a Guerra Fria, que um conflito já não é considerado improvável. A recomendação oficial foi para que a população mantenha estoques de alimentos para até dez dias como medida preventiva.
Alemanha assume protagonismo militar
Com a suspensão de novas ajudas diretas dos EUA à Ucrânia, a Alemanha tornou-se o principal doador individual de assistência militar ao país em guerra. Paralelamente, o governo alemão iniciou um processo acelerado de rearmamento.
Segundo o secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, o orçamento de defesa alemão deve atingir 150 bilhões de euros até 2029, valor superior à soma dos orçamentos militares do Reino Unido e da França.
O ministro da Defesa alemão, Boris Pistorius, reconheceu que o país vive o fim de uma era: a dependência da proteção americana. Segundo ele, a Alemanha e outros países europeus se acostumaram a um modelo de segurança que não se sustenta mais.
Relações transatlânticas sob tensão
A Conferência de Segurança de Munique teve como principal tema a deterioração das relações entre Europa e Estados Unidos, considerada a mais grave desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
Nos primeiros meses do novo mandato, Trump:
- Impôs tarifas comerciais a países europeus
- Ameaçou a soberania da Dinamarca ao sugerir a aquisição da Groenlândia
- Pressionou aliados da OTAN por maiores gastos militares
O episódio envolvendo a Groenlândia, território autônomo dinamarquês, gerou forte reação na Europa e abalou a confiança entre os aliados.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que o continente sofreu um “choque de realidade”, e que algumas linhas foram cruzadas de forma irreversível nas relações com Washington.
Discurso de Rubio e nova doutrina estratégica
O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, representou o governo Trump na conferência. Seu discurso buscou suavizar tensões, mas manteve os princípios centrais da nova política externa americana.
Entre os principais pontos defendidos:
- Críticas ao multilateralismo tradicional
- Ceticismo em relação à agenda climática e à globalização
- Defesa de uma nova era da civilização ocidental baseada em valores conservadores
- Parceria com a Europa apenas se houver alinhamento ideológico
O tom mais conciliador gerou alívio entre diplomatas europeus, mas não dissipou a sensação de que a parceria com os EUA se tornou condicional e transacional.
Divisão interna na Europa sobre gastos militares
O novo cenário geopolítico tem provocado divisões entre os países europeus. Segundo especialistas em defesa, o continente se organiza em dois grandes grupos:
Países que ampliam investimentos
- Alemanha
- Países Baixos
- Nações nórdicas
- Países bálticos
Esses países, geograficamente mais próximos da Rússia, têm adotado políticas de rearmamento acelerado.
Países mais resistentes ao aumento de gastos
- Espanha
- Parte do sul da Europa
Nessas nações, a prioridade política continua sendo o custo de vida e a preservação de programas sociais.
França e Reino Unido, por sua vez, declararam intenção de aumentar os investimentos, mas ainda buscam soluções políticas para justificar os impactos fiscais junto à população.
OTAN entra em fase de redefinição estratégica
Autoridades americanas indicaram que a Europa deixou de ser a principal prioridade estratégica dos Estados Unidos. O foco agora é o Indo-Pacífico, diante da ascensão da China.
O subsecretário de Defesa dos EUA, Elbridge Colby, afirmou que o país pretende reduzir sua presença militar no continente europeu, mantendo apenas uma atuação mais limitada e estratégica.
A proposta envolve a criação de uma “OTAN 3.0”, na qual a Europa deixaria de ser dependente da proteção americana e passaria a atuar como parceira militar autossuficiente.
Especialistas estimam que o continente terá entre cinco e dez anos para desenvolver capacidades próprias de defesa convencional.
Novas coligações e alianças paralelas
Diante da incerteza sobre o futuro da OTAN e da relação com os Estados Unidos, países europeus começaram a formar coalizões informais de segurança, fora das estruturas tradicionais.
Entre elas, destaca-se a chamada “Coligação dos Dispostos”, liderada por Reino Unido e França, voltada à proteção da soberania da Ucrânia em caso de acordo de paz com a Rússia.
O grupo inclui também países não europeus, como:
- Turquia
- Austrália
- Nova Zelândia
O movimento indica uma tentativa de criar redes de segurança flexíveis e multilaterais, fora do modelo tradicional de alianças rígidas.
Reino Unido tenta equilibrar relações
O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, defendeu uma estratégia de integração militar com a Europa, sem romper com os Estados Unidos.
A posição britânica busca preservar a histórica relação com Washington, ao mesmo tempo em que fortalece a autonomia estratégica europeia.
Especialistas avaliam que o Reino Unido tenta manter uma posição de triangulação diplomática, equilibrando interesses entre os dois lados do Atlântico.
Com informações da BBC.










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